12 maio Desistência de busca por emprego diferencia crise atual de anteriores
Desistência de busca por emprego diferencia crise atual de anteriores
Impacto da pandemia no mercado de trabalho foi maior entre mulheres, negros e jovens.
A pandemia de covid-19 contribuiu para o aumento das desigualdades no mercado de trabalho, principalmente entre os mais vulneráveis, de forma diferente do que foi visto em crises anteriores. Desta vez, o impacto da pandemia foi maior na chamada taxa de inatividade entre mulheres, negros e jovens do que na taxa de desemprego desse público se comparado com os anos de 2015 e 2016.
A taxa de inatividade agrega os brasileiros desempregados e que deixaram de procurar o posto de trabalho. Considerando os dias atuais, as medidas restritivas de isolamento social impostas pela crise sanitária fizeram com que uma parcela maior de jovens, mulheres e negros simplesmente desistiram de procurar emprego.
O diagnóstico consta de análise sobre “Desigualdades no mercado de trabalho e pandemia da covid-19” feita pelos pesquisadores Joana Simões Costa, Ana Luiza Neves de Holanda Barbosa e Marcos Hecksher, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), e antecipada ao Valor.
Pelas estimativas apresentadas no levantamento, a transição de pessoas ocupadas para inatividade entre o primeiro e segundo trimestre de 2020 aumentou no mercado de trabalho, especialmente entre mulheres, negros e jovens. Por outro lado, a transição da ocupação para o desemprego não apresentou mudança significativa. No período, a taxa de inatividade das mulheres passou de 7,60% do primeiro para o segundo trimestre de 2019 para 11,8% no mesmo período de 2020. Enquanto para os homens, saiu de 4,8% para 7,8%.
Situação parecida é verificada nas estimativas que consideram raça e cor. No caso dos não brancos, a taxa de transição da ocupação para a inatividade passou de 7,10% do primeiro para o segundo trimestre de 2019 para 11,2% na mesma base de comparação e para os brancos subiu de 4,70% para 7,60% no mesmo período.
“A diferença da crise de 2020 em relação à crise anterior, ocorrida em 2015 e 2016, se caracteriza não apenas por sua magnitude, mas também pela intensa transição dos ocupados, não para o desemprego, e sim para a inatividade. Assim, apesar de ter sido observado um aumento da taxa de desemprego, é a queda expressiva na taxa de participação que mais se sobressai na pandemia da covid-19”, informa a análise do Ipea.
Segundo o levantamento, entre o primeiro e segundo trimestres de 2020, a pandemia se refletiu em um intenso aumento nas chances de sair da condição de ocupado para inatividade e redução das chances de conseguir um emprego. “Foi uma crise marcada pela forte retração tanto da oferta quanto da demanda de trabalho. Tais movimentos levaram a taxa de ocupação a patamares sem precedentes no mercado de trabalho brasileiro”, destaca a análise.
Questionada sobre se o pagamento do auxílio emergencial pelo governo para minimizar os efeitos da crise entre os mais vulneráveis não seria uma justificativa para o aumento da taxa de inatividade, Joana negou essa possibilidade e disse que o benefício foi importante para que as pessoas pudessem ficar mais tempo em casa pois tinham a subsistência garantida pelo governo. A expectativa é que com a retomada da economia seja reduzida a taxa de inatividade, mas destacou a necessidade de adoção de medidas estruturais para diminuir as desigualdades.
A pesquisadora afirmou que a inatividade teve alta significativa em 2020 porque o país foi atingido pela pandemia quando ainda se recuperava dos impactos da crise de 2015. “A taxa de desemprego não subiu tanto quanto subiu a de inatividade. As pessoas estão participando menos do mercado de trabalho. Elas não foram para situação de desemprego, mas direto para inatividade”, disse Joana.
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