“É impossível manter reajuste acima da inflação para salário mínimo”, diz economista do UBS

“É impossível manter reajuste acima da inflação para salário mínimo”, diz economista do UBS

Publicado em 22 de setembro de 2025

Para Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil do UBS Global Wealth Management, que abriu unidade em Porto Alegre, Brasil não tem como fugir de ajuste.

Maior gestor de patrimônio do mundo, o banco suíço UBS abriu neste mês um  escritório em Porto Alegre. É uma das cerca de 40 unidades em seis países da América Latina. Conforme Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil do UBS Global Wealth Management, a inclusão da capital gaúcha se justifica pelo potencial econômico da região. A economista se diz surpresa com a diversidade de setores relevantes e a existência de um polo de tecnologia no Estado de um país que não favorece o segmento.

Como avalia o comunicado do Banco Central (BC), foi muito duro?

Já previa que viria com discurso duro, porque o BC não está confortável com o mercado precificando corte no juro ainda neste ano. As expectativas de inflação seguem desancoradas, ainda que tenham caído, há muita dúvida sobre o alcance da desaceleração e existe uma incerteza fiscal enorme. E o tema fiscal é crucial para o BC, porque impacta câmbio, expectativa de inflação, atividade. Apesar de não poder afirmar de forma explícita, a maior incerteza do BC é em relação ao fiscal. Por isso, tendem a postergar o corte o máximo possível. Foi mais duro ao trazer projeção de inflação de 3,4%, que todo mundo esperava que caísse para 3,3% ou 3,2% (no primeiro trimestre de 2027, atual “horizonte relevante” do BC). Considero proposital, até para passar a mensagem de que se o corte for antecipado, a inflação não vai para a meta nesse prazo.

Não foi explícita, mas a preocupação fiscal apareceu no comunicado…

Sempre tem, porque realmente impacta o cenário prospectivo de inflação. Também faz parte de não querer que o mercado antecipe o corte, porque há muita incerteza fiscal, que vai ser definidora da trajetória de inflação. O BC está cauteloso e faz todo sentido. Se a gente estivesse com as expectativas ancoradas, talvez eles pudessem tomar mais risco, mas não é o caso.

O corte no juro nos Estados Unidos ainda pode provocar queda forte no dólar por aqui?

O câmbio já reagiu a um cenário internacional muito favorável que veio para o Brasil e atingiu outras moedas emergentes também. Como o Brasil estava com o câmbio depreciado, foi bastante beneficiado. Se continuar a desaceleração da economia americana, do mercado de trabalho e inflação não subir muito, o Fed (Federal Reserve, BC dos EUA) pode cortar mais e esse ambiente internacional dura mais tempo, com valorização do real. Mas, em algum momento, mais para o segundo trimestre do ano que vem, o cenário eleitoral e a probabilidade de haver mudança de política fiscal ou não devem afetar mais os preços de ativos no Brasil.

Há temor de que a inflação suba nos EUA por efeito do tarifaço. Isso pode limitar os cortes de juro por lá?

Primeiro, houve grande incerteza sobre qual a tarifa que prevaleceria no final, porque cada dia havia mudança de alíquota, de setor. As empresas não repassaram logo as tarifas porque temiam perder participação no mercado. Seguraram muito o repasse. Depois, houve acúmulo de estoque e antecipação de importações no primeiro trimestre do ano, porque todo mundo sabia que haveria tarifa. Agora, no segundo semestre, as empresas estão com as margens diminuídas por terem absorvido a tarifa e os estoques acabaram. Há tendência de aumento da inflação até 2026. O grau desse repasse vai depender da demanda, porque há desaceleração da economia americana. O Fed talvez aposte que, com maior desaceleração, esse repasse vá ser menor.

Como o fator Trump condiciona a economia global? Serão mais três anos de alta incerteza?

Nossa avaliação é de que esse mundo mais desglobalizado e com maior risco geopolítico não depende só de Trump. Veio para ficar. Não serão alguns anos de uma nova ordem global, depois volta à ordem antiga. O advento da China como grande líder, não só na indústria, mas em tecnologia e em  oferta de bens essenciais, como  terras raras, traz ameaça à segurança nacional de vários países. Estamos em um mundo novo e temos de entender isso. Vai ser um mundo de mais barreiras, não só comerciais mas tecnológicas e para investimento. O mundo está mais dividido e vai haver maior fragmentação econômica.

Voltando ao Brasil, a desaceleração aparece em alguns indicadores, mas não é generalizada, não?

Sim, e por mais que a economia esteja desacelerando agora, no segundo semestre, o mercado espera, e o BC também, que ocorram mais estímulos fiscais. Alguns já estão contratados, como a aprovação da isenção do IR, o Vale Gás, tarifa social, algum aumento real no Bolsa Família. A desaceleração que está acontecendo agora não pega toda a economia e ninguém espera que se acentue muito, porque vamos ter uma aceleração do impulso fiscal.

Existe temor de que a isenção do IR seja aprovada sem compensação?

Olha, temor existe sempre, mas não é o cenário que está precificado, que o mercado espera como provável. Se ocorrer uma desidratação muito grande da compensação ou se não ocorrer, vai trazer aversão maior a risco, com certeza. O impacto da isenção do IR é bastante significativo nos próximos anos. As metas de primário já são insuficientes para estabilizar a dívida. Se a gente nem cumpri-la, vai ficar mais complicado ainda.

Há poucos dias, a IFI voltou a advertir sobre a “lenta e gradual deterioração da situação fiscal”. Pode piorar?

Não vejo deterioração tão lenta assim, porque a relação dívida/PIB vai aumentar perto de 10 pontos do PIB em quatro anos, é bastante. O arcabouço provavelmente não se sustente em 2027 com as regras atuais de gasto obrigatório, como indexação do salário mínimo nos benefícios sociais e indexação de saúde e educação à receita. Sem choque fiscal importante, com mudanças na Constituição, teremos uma regra fiscal em que ninguém crê. E a dívida pode crescer com ainda maior rapidez. A falta de solução leva o juro real para um patamar ainda mais alto do que o atual. O mercado espera um ajuste. O que não sabe é será sem muita dor, no sentido de que a economia não precise entrar em desaceleração profunda ou a inflação não se acelere muito, ou com dor, que é o cenário em que a crise faz o ajuste se impor. Sem ajuste não tem arcabouço e, sem arcabouço, a crise aparece.

Não há solução sem desvinculação do salário mínimo e das despesas de saúde e educação? 

Se houver tentativa de desvincular os benefícios sociais dos reajuste do salário mínimo, haverá judicialização e criará insegurança jurídica. Provalmente o Supremo vai decidir que é inconstitucional pagar benefícios sociais menores porque é entendido, até esse momento, como mínimo para subsistência. O mais razoável é alterar a regra do salário mínimo. Não precisa crescer com o PIB. Pode ficar sem regra nenhuma ou ser reajustado pela inflação todo ano, que seria o razoável. É impossível manter reajuste acima da inflação para o salário mínimo quando ajusta quase dois terços das despesas assistenciais e da previdência.

E no caso das despesas?

O ideal também seria vincular à inflação, como era quando vigorou o  teto de gastos. Faz mais sentido. Quando a economia cresce muito, o gasto contratado à frente aumenta e nem sempre esse crescimento continua. Aí o crescimento real das despesas com educação e saúde fica muito elevado. E não cabe nas metas porque a economia arrecada menos.

Essas medidas bastariam?

Não, precisamos fazer um redesenho completo das políticas públicas. Temos aumento quantitativo, muito forte de benefícios como BPC, auxílio-doença e seguro-desemprego. É preciso torná-los mais focais, destinadas a quem precisa, de fato. No caso do seguro-desemprego, é preciso incentivar a qualificação e a volta ao mercado de trabalho. Algo está muito errado quando o seguro-desemprego cresce tanto com o desemprego no mínimo da série. É preciso fazer esse debate. Tem algo muito errado acontecendo. Imagina se o desemprego subir, o que vai acontecer?

Há suspeita de fraude, há um diagnóstico consolidado?

Fraude certamente existe, mas também há mudanças que aconteceram nas regras de concessão do BTC e do auxílio-doença, até para facilitar o acesso e utilizar tecnologia sem precisar de exame médico presencial, por exemplo. É preciso entender se esse desenho facilitou. Talvez a fraude não ocorresse se o desenho fosse melhor. Mas é preciso bater nas duas coisas, porque fraude é fraude. E é preciso permitir que as pessoas no BPC que possam sair, assim como as que estão no seguro-desemprego. Tem de mudar muita coisa. E será preciso avançar com as reformas administrativa e previdenciária. A da previdência perdeu a eficácia em termos de economia com a mudança na regra do salário mínimo, está desatualizada em idade mínima e precisa incorporar grupos que não foram abrangidos, como os militares.

Fonte: Gaúcha GZH
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