03 abr É permitido sentir inveja, raiva e medo no trabalho?
É permitido sentir inveja, raiva e medo no trabalho?
Sócrates já disse, lá atrás, “conhece-te a ti mesmo, e a ti mesma”, e todos nós podemos obter benefícios dessa máxima. Assim o espanhol Raul Aparici, diretor global de aprendizagem da The School of Life (TSL), começou a entrevista que concedeu ao Valor, via Zoom, antes de sua chegada ao Brasil. Ele aterrissa no país, pela primeira vez, no final de abril, para ministrar o curso “Reconnecting with yourself”, uma imersão de cinco dias que a escola oferece em São Paulo. Com sede em Londres, a TSL celebra 10 anos no Brasil este mês.
Bacharel em literatura inglesa e master em teoria crítica com pós-graduação em coaching na Universidade de Londres, Aparici comenta que, geralmente, pensamos que é possível separar a vida em duas: pessoal e profissional. Mas a verdade é que somos tudo ao mesmo tempo, e o autoconhecimento é uma oportunidade nesse sentido, inclusive para melhorar a carreira. “Vamos ao trabalho, somos profissionais, mas ao mesmo tempo temos acesso a emoções que normalmente não queremos ver no trabalho, como a inveja, a raiva ou o medo”, diz. “São emoções que são ‘negativas’ a princípio, mas que têm muito a agregar para sermos criativos ou criativas, e para termos boas relações no trabalho.”
O processo de autoconhecimento, ele diz, começa em casa e levamos ao trabalho. Quando sabemos mais sobre a nossa vida interior, nos surpreendemos menos quando as emoções difíceis aparecem no trabalho, e aí podemos nos regular melhor. “Por isso gosto tanto da inteligência emocional”, afirma. “A partir do autoconhecimento podemos nos autorregular melhor”. Com esse processo, uma pessoa, ao invés de fingir ou não perceber que tem inveja de um colega de trabalho, sabe o que sente, olha para isso, e pode, por exemplo, tomar a decisão de ir com mais cuidado nessa relação, evitando possíveis sabotagens. “A gente começa a se conhecer melhor e pode trabalhar melhor as relações profissionais. Isso vai impactar diretamente em nossa carreira e na forma de fazer gestão de pessoas. Se não me conheço, como vou liderar uma equipe?”, questiona.
Para ele, é preciso enfrentar nossos medos e fraquezas. “Somos humanos, todos temos nossos defeitos, e somos difíceis de conviver no trabalho”. Ele dá outro exemplo. Quando uma pessoa se percebe arredia sempre que recebe um feedback, ela pode explicar ao gestor que sua primeira reação nessas conversar é ficar na defensiva. Com essa clareza da situação, o líder pode conduzir melhor o processo e até gerar uma empatia, caso ele também tenha a mesma característica. E, por mais paradoxal que pareça, diz Aparici, quando a pessoa expõe essa vulnerabilidade, há menos chance de ela se colocar na defensiva no feedback, pelo simples fato de ter aberto sua fraqueza.
Para Aparici, as empresas e as equipes não precisam ter medo dessas conversas que mostram sentimentos “negativos”. “Se podemos ser mais honestos, e falar das emoções ‘negativas’, podemos fazer algo com elas, e mudar o caminho que estamos percorrendo”. Ele afirma que se diminui o custo do negócio quando as conversas difíceis acontecem. Elas são difíceis porque somos seres sociais. De forma geral, queremos que o outro goste de nós, só que aí acabamos não tendo a conversa que deveríamos ter.
Em sua visão, falar de sentimentos no trabalho ficou menos difícil depois da pandemia. A saúde mental se tornou um tema em todo o mundo, e as empresas perceberam que era preciso dar um espaço aos sentimentos difíceis dos funcionários. “Fingir que não acontece não iria funcionar.”
Desenvolver a inteligência emocional é algo possível mesmo em adultos, afirma Aparici. Ele pontua que há uma questão de gênero nesse assunto. Se pressupõe que as mulheres são melhores nas questões de inteligência emocional, e que os homens são mais duros, entrariam menos em contato com sua vida interior. “Mas isso é uma desculpa que não nos deixa [os homens] melhorar como pessoas”, comenta. O caminho para desenvolver a inteligência emocional, ele explica, é olhar para a nossa infância, para o nosso entorno, e que padrões aprendemos desde aquele contexto, como, por exemplo, a atitude que temos sobre ganhar e perder. “Posso chorar e expressar minhas emoções ou sempre ouvi ‘não seja tão criança’?”, exemplifica. “Ou, como dizem em inglês, ‘man up’ [amadureça, vire homem, cresça].”
Pensar no passado nos leva a entender que talvez alguns padrões não se relacionem exatamente com quem realmente somos, explica Aparici. Nos faz refletir que, talvez, se tivéssemos crescido em outro ambiente teríamos outros padrões e características. “E aí começamos a ter compaixão com nós mesmos e curiosidade de que é possível [mudar] se estudo e aprendo novas maneiras de ser e de me relacionar.”
Além de mergulhar no autoconhecimento e entrar em contato com as emoções difíceis, outra recomendação de Aparici é que sejamos um pouco pessimistas, com algum senso de humor junto. Ele diz que a pessoa que está sempre com raiva no trabalho porque as coisas não dão certo é um otimista – ela esperava que tudo ia dar certo. “Sendo um pouco mais pessimista, você já sabe que as coisas não sairão todas bem”.
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