“É preciso falar sobre o luto”, diz diretor de RH da GM

“É preciso falar sobre o luto”, diz diretor de RH da GM

Publicado em 25 de novembro de 2021

Christian Cetera diz que a companhia viu a quantidade de licenças médicas por conta de questões emocionais triplicar.

O luto precisa ser lembrado nas corporações, alerta Christian Cetera, diretor de RH da GM América do Sul, em live da série RH 4.0 do “Carreira em Destaque” , mediada pela editora Stela Campos. Há um ano, a montadora, com 18 mil funcionários na região, montou um programa para lidar com os traumas pós-pandemia do quadro e vai avançar com a ideia em 2022.

A preocupação não é gratuita: a empresa perdeu 32 profissionais para a covid-19, e convocou empregados, líderes e especialistas em saúde mental para um mutirão de apoio. “A quantidade de licenças médicas por conta de questões emocionais na companhia triplicou”, diz o argentino Cetera.

A empresa não está sozinha nesse cenário. Dados do Ministério do Trabalho e Previdência mostram que nos primeiros sete meses de 2021 foram concedidos 108,2 mil benefícios por incapacidade temporária – o antigo auxílio-doença – para trabalhadores com transtornos mentais e comportamentais, sendo depressão e ansiedade as principais razões. No comparativo entre 2019 e 2020, houve um aumento de 29% na concessão desse tipo de benefício.

Na GM, a ideia do projeto “Ombro amigo” começou em 2020 com uma consultoria do psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo Christian Dunker, e evoluiu para a formação de 50 líderes. Os gestores, chamados de “brigadistas da saúde mental”, participaram de dez reuniões de formação em escuta empática e vão ajudar a formar uma rede de acolhimento na companhia. O objetivo é treinar até 700 líderes.

Os treinamentos são assessorados pela equipe de Dunker em parceria com o educador e palhaço Cláudio Thebas, fundador do Laboratório de Escuta e Convivência, consultoria especializada em promover integração de equipes. Eles utilizam uma metodologia do Sistema Único de Saúde (SUS) baseada em três pontos: cuidados com saúde mental são feitos no território e não chegam de paraquedas, em referência ao uso de tecnologias de apoio que não conversam com a cultura da organização; são realizados em rede, sendo preciso montar um espaço de ajuda antes de contratar psicólogos de forma isolada; e devem ser praticados com o conceito de cuidado próprio, do outro e nas relações com pares. “Essa discussão se insere numa agenda mais ampla de transformação cultural da GM e tem por finalidade criar uma companhia mais inclusiva, com uma melhor experiência para o funcionário”, disse Cetera, com 25 anos de experiência na área de RH.

De acordo com Cetera, a intenção não é que os funcionários ajam como psicólogos, mas que sirvam de ponte e escuta para quem deseja um atendimento individual e personalizado. Cetera afirmou que o principal desafio da iniciativa, além da falta de referência de políticas semelhantes, diante de uma pandemia sem precedentes, é construir uma relação de confiança entre os profissionais que organizaram o projeto, a rede de ajuda e os funcionários. Mas todas as expectativas foram superadas, destaca. “Estamos com uma lista de espera de empregados que querem ser ‘escutadores’”, disse.

Para avaliar os primeiros resultados da ação, a companhia pretende medir a quantidade de interações que os líderes treinados têm com os times e se estão conseguindo orientar colegas que querem um acompanhamento profissional.

Desde o primeiro ano da pandemia, a dona da marca Chevrolet reforçou serviços de assistência psicológica, jurídica e financeira dos funcionários. Todas as pessoas que trabalham diretamente na linha de produção nas cinco fábricas do Brasil (SP, RS e SC) já retornaram ao modelo presencial, respeitando protocolos de higiene e segurança. Os demais empregados, inclusive da sede administrativa na América do Sul, em São Caetano do Sul (SP), estão em home office e poderão iniciar o retorno aos escritórios, em algumas áreas, em dezembro.

A GM América do Sul trocou de presidente este ano. Em agosto, saiu o argentino Carlos Zarlenga e, em outubro, assumiu o colombiano Santiago Chamorro, que esteve à frente da operação brasileira entre 2013 e 2016. Impactada pela escassez global de semicondutores e componentes eletrônicos, a multinacional americana comandada pela executiva Mary Barra desde 2014 registrou um lucro líquido de US$ 2,4 bilhões no terceiro trimestre, uma queda de 40,1% sobre o mesmo período de 2020. As receitas somaram US$ 26,7 bilhões entre julho e setembro, retração de 8,7% na comparação anual.

Fonte: Valor Econômico
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