Economia acelera, mas renda do trabalho patina

Economia acelera, mas renda do trabalho patina

Publicado em 20 de maio de 2021

Secretaria de Política Econômica projeta para este ano queda de 0,45% na população ocupada com carteira assinada e de 2,4% na renda real dos trabalhadores.

Apesar da projeção mais alta de crescimento para o Produto Interno Bruto (PIB), a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Economia projeta números piores para o mercado de trabalho neste ano. O cenário é de uma queda na população ocupada com carteira assinada de 0,45% e, na renda real dos trabalhadores, recuo de 2,4%.

Os números, baseados na Pnad Contínua do IBGE, compõem a grade de parâmetros econômicos que o governo utiliza para a cada bimestre projetar receitas e despesas. E, nesse caso, são piores do que a SPE trabalhava em março – quando previa alta de 2% na população ocupada e queda de 1,7% na renda real.

O subsecretário de Política Macroeconômica da pasta, Fausto Vieira, explicou ao Valor que os números mais baixos refletem os dados realizados até o momento, mas não significam que não há recuperação do mercado de trabalho. “Os dados são uma média do ano, que tem números [realizados] mais baixos, mas existe uma tendência de recuperação e isso é muito claro na grade de parâmetros”, disse.

Para ele, as estimativas não permitem dizer que a expansão mais forte do PIB (prevista em 3,5% para 2021) não afetará renda e empregos positivamente. “O crescimento está impactando, sim, tanto a renda como a população ocupada com carteira assinada. Mas a recuperação, como aqui a gente está olhando a média do ano, tem indicação de ser mais lenta”, afirmou.

Vieira chama a atenção ainda para uma questão estatística, na dinâmica esperada da renda, e que evidenciaria uma retomada nas contratações. No ano passado, mesmo com cortes de vagas, a renda média real aumentou 2,7% porque as demissões ocorreram em postos de menores salários. Em 2021, com as contratações voltando a acontecer, estaria havendo o efeito inverso.

A economista-chefe do Banco Inter, Rafaela Vitória, reconhece o efeito estatístico, mas aponta que desde a segunda metade de 2020 a recuperação da atividade econômica tem sido mais intensa do que a do mercado de trabalho. “Essa foi uma discrepância desta crise que a gente vem notando. E o fato de o mercado de trabalho ainda estar com essa capacidade ociosa grande é fonte de preocupação e risco para o nosso cenário”, disse. “A gente viu a recuperação mais rápida na economia do que no mercado, porque os setores que voltaram mais fortemente são menos intensivos em trabalho.”

Ela está no grupo dos mais otimistas com o crescimento do PIB neste ano e projeta 4,2% de expansão. Porém, destaca que a recuperação do mercado de trabalho está muito relacionada ao andamento da vacinação, que se desacelerou. “Os setores que não voltaram ainda são os mais intensivos em trabalho, como de serviços e serviços às famílias. Na hora que a vacinação avançar um pouco mais e a gente retirar essas restrições, o mercado de trabalho vai voltar rapidamente”, afirmou Rafaela, que projeta queda do nível de desemprego dos atuais 14,4% para 12,3%.

O presidente do Conselho Federal de Economia (Cofecon), Antonio Corrêa de Lacerda, destaca que a inflação em alta está afetando negativamente o poder de compra da população. “A renda real está caindo porque a inflação está se acelerando, em especial a do dia a dia das pessoas, alimentos, energia, gás de cozinha. E o emprego sofre com o abalo de muitos setores. Há uma reação, mas não no ritmo necessário”, diz.

Mais pessimista que o mercado, ele enxerga o PIB neste ano crescendo entre 2,5% e 3%, insuficiente para recompor a perda do ano passado. “Não há grande perspectiva de aceleração que geraria fortes contratações”, disse. Lacerda destaca que, com a soma de desalento (pessoa que não procura mais vaga) e subempregos, há um conjunto de mais de 32 milhões de pessoas em situação ruim no mercado de trabalho. “Esse é um dos elementos que impedem retomada mais firme, não há sustentação do consumo.”

Mesmo que haja alguma melhora no próximos meses, o fato é que há muito tempo a economia brasileira tem deixado a desejar para os trabalhadores, a despeito das promessas feitas de milhões de vagas com as reformas trabalhista e a previdenciária. A pandemia, que é um evento que não se podia prever, tornou o quadro ainda mais dramático. E, para piorar, o governo tem cometido falhas na vacinação. Essa é elemento essencial para a retomada, como a própria SPE frisou na terça-feira.

Assim, cabe insistir na pressão sobre o governo para acelerar a imunização. Bolsonaro, com sua postura errática, custa caro para a saúde do trabalhador e para sua luta por sustento.

Austeridade

O Boletim Macrofiscal e o Panorama Macroeconômico divulgados pela SPE são bons materiais para consulta. Na nova edição, além de projeções, os técnicos apresentaram estimativas sobre o resultado primário estrutural, aquele que tenta limpar da estatística variações fora do padrão na economia e fatores não recorrentes.

O subsecretário de Política Fiscal, Erik Figueiredo, e os técnicos que trabalharam diretamente as contas, Sergio Gadelha e Bernardo de Andrade, detalharam os dados ao Valor . Os números apresentados mostram que o governo central teve déficit estrutural de 1,31% do PIB em 2020, resultado melhor do que o 1,64% do PIB de 2019. Foi a quarta redução (contração fiscal) seguida no déficit por essa metodologia.

Ou seja, retirado aquilo que foi imposto pela pandemia, a trajetória de austeridade foi mantida em 2020. Informações mais detalhadas sobre esses números e sua metodologia devem ser divulgadas hoje. Para o setor público como um todo, por causa do desempenho dos Estados e municípios, o déficit estrutural subiu, com estímulo fiscal de 0,17% do PIB.

Especialista em contas públicas e um dos pioneiros no uso dessa metodologia no Brasil, o economista Sergio Gobetti aponta que faz sentido retirar o gasto da pandemia na conta do resultado estrutural. Mas, para calcular o impulso fiscal na economia, não seria o caso. “Do ponto de vista de impulso fiscal, ele está claramente subestimando, porque, como houve esse gasto [da pandemia], é uma despesa efetiva que injetou demanda e compensou a queda do gasto privado”, afirma.

O economista-chefe da RPS Capital, Gabriel Leal de Barros, aponta que seria interessante para o Brasil ter um cálculo mais consensual entre academia, mercado e governo para o resultado estrutural. Isso permitiria um debate público mais claro sobre a política fiscal.

Fonte: Valor Econômico
No Comments

Sorry, the comment form is closed at this time.