02 ago Economistas veem sinais de mercado de trabalho melhor também na Pnad
Economistas veem sinais de mercado de trabalho melhor também na Pnad
A taxa de desemprego do país ficou praticamente estável no trimestre até maio, em 14,6%, ante 14,7% nos três meses até abril.

Por trás de um aumento da força de trabalho mais acelerado do que a capacidade de absorção dessa mão de obra na economia, o que deixa a taxa de desocupação ainda bastante alta, analistas veem sinais de melhora do emprego no Brasil. A reação, porém, tem fragilidades: é impulsionada por vagas informais, achatando a renda, e acompanhada de elevado contingente de trabalhadores subutilizados.
A taxa de desemprego do país ficou praticamente estável no trimestre até maio, em 14,6%, ante 14,7% nos três meses até abril, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) divulgada na sexta-feira pelo IBGE. O resultado, em linha com a mediana do Valor Data, é o maior para o mês na série histórica, iniciada em 2012.
No período, 14,795 milhões de pessoas procuraram emprego sem sucesso, o segundo maior contingente já registrado, atrás apenas dos 14,805 milhões nos três meses até março deste ano, em meio à segunda onda da covid-19.
Embora o relatório de maio não mostre uma melhora significativa na taxa de desemprego, o J.P. Morgan considerou a divulgação “encorajadora”, já que “o emprego parece estar se recuperando em um ritmo mais rápido”, escrevem os economistas Vinicius Moreira e Cassiana Fernandez.
A população ocupada somou 86,7 milhões no trimestre encerrado em maio, ante 85,9 milhões até abril. Em relação ao mesmo período do ano anterior, o número de empregados avançou 0,9%. Foi a primeira alta, nessa base de comparação, desde o início da pandemia, após 13 quedas seguidas nos trimestres móveis. “Maio foi um mês de alívio nos sistemas hospitalares, com aumento da mobilidade social”, lembra Bruno Imaizumi, economista da LCA Consultores. “Vemos uma interrupção da piora do mercado de trabalho, em termos quantitativos”, afirma.
Pelos dados com ajuste sazonal, Moreira e Fernandez dizem que a ocupação avançou 1,6% no mês contra mês. “O emprego está crescendo forte, mas é compensado por uma taxa de participação mais alta.” A taxa de participação na força de trabalho (soma das pessoas ocupadas ou em busca de colocação) passou de 56,9% no trimestre até abril para 57,2% em maio. A força de trabalho registrou 101,5 milhões de pessoas. É um nível ainda historicamente baixo, nota o J.P. Morgan, mas representa uma alta mensal de 1,4%, feitos os ajustes.
O número de pessoas ocupadas, no entanto, ainda está 7,5% abaixo do último trimestre móvel livre de efeitos da crise sanitária (dezembro de 2020 a fevereiro de 2021). Além disso, cerca de 4,5 milhões de pessoas precisariam retornar à força de trabalho para se recuperar o patamar anterior à pandemia, observa Tiago Barreira, pesquisador da iDados. Para ele, a situação do mercado de trabalho continua “muito crítica”, mas “parece que o pior da taxa de desemprego já passou”. O pico, segundo Barreira, deve ter sido no trimestre até março deste ano (14,74%). Até setembro, diz, ela deve rodar nos 14,6% atuais, por causa do retorno das pessoas à força de trabalho.
“A capacidade de absorção dessa força deve permanecer limitada, deixando a taxa de desocupação elevada por alguns meses, até que a sensação de que as coisas caminham para a normalidade seja mais sólida”, diz Helcio Takeda, diretor de pesquisa econômica da Pezco.
Além de gradual, a recuperação também deve ser apenas parcial. “Em 2020, houve perda de 8,4 milhões de ocupados. Nossa estimativa preliminar para 2021 é de 7 milhões a mais. Ou seja, ainda deixa mais de 1 milhão de pessoas de fora”, diz Imaizumi, da LCA.
Os economistas avaliam ainda que a melhora deve ser comandada pelo trabalho informal, como já indica a pesquisa. Em relação ao pico da taxa de desemprego de março, Barreira diz que a população ocupada cresceu em cerca de um milhão de pessoas, sendo dois terços em empregos informais.
Para a Guide, a recuperação do mercado “está claramente em andamento, mas ainda há um longo caminho pela frente”. A equipe observa que a taxa de subutilização (desocupados, subocupados e força potencial) é elevada – 29,3%, sendo que quase 7,4 milhões trabalhavam menos horas do que gostariam, um recorde -, “o que evidencia a baixa qualidade dos empregos criados”. Além disso, dizem, o rendimento demonstra fraqueza. Segundo Lucas Assis, da Tendências Consultoria, o rendimento médio real habitual teve a oitava redução seguida no trimestre até maio. Para ele, inflação e desemprego elevados geram viés de baixa à renda em 2021. A Tendências já projeta queda de 2% na renda média real habitual neste ano.
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