23 mar Efeito sobre produtividade divide especialistas
Efeito sobre produtividade divide especialistas
O debate sobre a redução da jornada de trabalho, que está no centro da discussão sobre o fim da escala 6×1, trata, de um lado, da qualidade de vida dos trabalhadores. De outro, joga luz sobre a importância dos ganhos de produtividade. Afinal, fazer mais com menos é uma saída para evitar que eventual redução no total de horas trabalhadas resulte em menos crescimento econômico e mais inflação. A relação entre a regulamentação da carga horária de trabalho e a produtividade foi um dos pontos do debate da série Caminhos do Brasil sobre a escala 6×1, realizado na última quinta-feira, no Rio.
Os possíveis impactos da diminuição da jornada de trabalho (de 44 para 40 horas semanais) na produtividade dividem especialistas. Para alguns, trabalhadores menos cansados e com maior nível de engajamento poderão produzir mais, mitigando a possível diminuição de horas trabalhadas. Outros lembram da histórica dificuldade da economia brasileira em ganhar produtividade, por uma série de fatores. Atualmente, o Brasil está em posição intermediária na tabela mundial de médias de horas trabalhadas por país, conforme dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Para acelerar o crescimento econômico sem aumentar esse indicador, será preciso fazer mais
Brasil está hoje em posição intermediária na tabela mundial de médias de horas trabalhadas da OIT
com menos.
O economista e professor titular da Cátedra Ruth Cardoso do Insper, Naercio Menezes Filho, avalia que o país tem condições de reduzir a jornada semanal de 44 para 40 horas. O professor é coautor, ao lado dos economistas Gustavo Gonzaga (PUC-Rio) e José Márcio Camargo (hoje na Genial Investimentos), de um estudo acadêmico sobre a última redução legal da jornada no país, quando a Constituição Federal, aprovada em 1988, diminuiu o limite de 48 para 44 horas semanais trabalhadas. A conclusão dos autores é que não houve aumento do desemprego nem efeitos devastadores sobre a economia a partir da mudança constitucional.
Para Menezes, a adoção de uma nova redução no período semana de trabalho, agora, poderá melhorar a qualidade de vida de trabalhadores que enfrentam longos deslocamentos diários e dispõem de pouco tempo para o lazer e a convivência familiar. “Essa redução da jornada pode ser proveitosa no curto e no longo prazo. No curto prazo, com as pessoas trabalhando menos, elas terão uma saúde melhor e menos estresse. Tem estudos que mostram isso.”
Mais saúde e menos estresse podem, ainda, aumentar a produtividade, a partir da redução do cansaço. Segundo Adalberto Cardoso, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp), da Uerj, e presidente da Associação Brasileira de Estudos do Trabalho (Abet), há evidências internacionais de que a diminuição da jornada pode elevar a produtividade.
“Tem estudos sendo feitos na Inglaterra, em Portugal, na Espanha. Em alguns países, fazem experimentos de redução da jornada de trabalho para quatro dias na semana. Têm se comprovado em países como Bélgica, Holanda, ganhos reais em empresas que adotaram semanas de trabalho mais curtas. Isso porque os trabalhadores trabalham mais descansados, felizes e engajados. Trabalhadores mais descansados investem em sua qualificação, mudam até de segmento porque se requalificam e vão trabalhar em situação melhor. Tem uma dinamização da economia que é real”, afirmou Cardoso.
No longo prazo, poderá haver impactos indiretos no desenvolvimento das crianças, especialmente nas famílias de baixa renda, completa Menezes, do Insper: “Com essa jornada longa, as mães, principalmente, não têm tempo de ler para seus filhos. Não têm tempo de brincar com eles, perguntar como foi a escola”. De acordo com ele, “ao reduzir a jornada, você aumenta o tempo disponível dos pais para investir nas suas crianças, o que vai aumentar o aprendizado delas, gerando aumento de produtividade no futuro”.
Em outra frente, como a baixa qualificação da força de trabalho é um dos obstáculos para a melhora da produtividade, a redução da jornada poderia incentivar a capacitação de trabalhadores que teriam mais disponibilidade de tempo, mas Menezes pondera que uma avaliação sobre isso exige uma análise cuidadosa do impacto sobre as empresas, pesando custos e benefícios.
O professor José Pastore, presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), argumenta que os ganhos de produtividade precedem às reduções nas médias de horas trabalhadas, e não o contrário. Até porque a produtividade não depende somente do trabalhador. “Depende da empresa, da tecnologia da empresa, da infraestrutura do país, da estrada, da energia elétrica, dos armazéns. Um conjunto de fatores faz a produtividade aumentar. Segurança jurídica, também”, diz Pastore.
Dessa forma, mesmo em funções operacionais, o ambiente produtivo é determinante para o desempenho do funcionário. “Um cozinheiro só vai ter alta produtividade se os ingredientes chegarem na hora certa. Se a energia elétrica é estável”, diz Pastore. “E por que o país tem uma produtividade tão baixa? Não é só por causa do trabalhador. É também pelo que está em volta.”
Por isso, segundo o professor, se um profissional da construção civil do interior do país é contratado por numa construtora de Nova York, onde a produtividade é superior, o brasileiro também produzirá mais. “A produtividade dele vai lá pra cima. Porque lá o material chega na hora, a energia funciona. Podemos reduzir a jornada e a produtividade não subir”, disse.
Para alguns, trabalhadores menos cansados e mais engajados poderão produzir melhor
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