Efeito sobre pro­du­ti­vi­dade divide espe­ci­a­lis­tas

Efeito sobre pro­du­ti­vi­dade divide espe­ci­a­lis­tas

Publicado em 23 de março de 2026

O debate sobre a redu­ção da jor­nada de tra­ba­lho, que está no cen­tro da dis­cus­são sobre o fim da escala 6×1, trata, de um lado, da qua­li­dade de vida dos tra­ba­lha­do­res. De outro, joga luz sobre a impor­tân­cia dos ganhos de pro­du­ti­vi­dade. Afi­nal, fazer mais com menos é uma saída para evi­tar que even­tual redu­ção no total de horas tra­ba­lha­das resulte em menos cres­ci­mento eco­nô­mico e mais infla­ção. A rela­ção entre a regu­la­men­ta­ção da carga horá­ria de tra­ba­lho e a pro­du­ti­vi­dade foi um dos pon­tos do debate da série Cami­nhos do Bra­sil sobre a escala 6×1, rea­li­zado na última quinta-feira, no Rio.

Os pos­sí­veis impac­tos da dimi­nui­ção da jor­nada de tra­ba­lho (de 44 para 40 horas sema­nais) na pro­du­ti­vi­dade divi­dem espe­ci­a­lis­tas. Para alguns, tra­ba­lha­do­res menos can­sa­dos e com maior nível de enga­ja­mento pode­rão pro­du­zir mais, miti­gando a pos­sí­vel dimi­nui­ção de horas tra­ba­lha­das. Outros lem­bram da his­tó­rica difi­cul­dade da eco­no­mia bra­si­leira em ganhar pro­du­ti­vi­dade, por uma série de fato­res. Atu­al­mente, o Bra­sil está em posi­ção inter­me­di­á­ria na tabela mun­dial de médias de horas tra­ba­lha­das por país, con­forme dados da Orga­ni­za­ção Inter­na­ci­o­nal do Tra­ba­lho (OIT). Para ace­le­rar o cres­ci­mento eco­nô­mico sem aumen­tar esse indi­ca­dor, será pre­ciso fazer mais

Bra­sil está hoje em posi­ção inter­me­di­á­ria na tabela mun­dial de médias de horas tra­ba­lha­das da OIT

com menos.

O eco­no­mista e pro­fes­sor titu­lar da Cáte­dra Ruth Car­doso do Ins­per, Naer­cio Mene­zes Filho, ava­lia que o país tem con­di­ções de redu­zir a jor­nada sema­nal de 44 para 40 horas. O pro­fes­sor é coau­tor, ao lado dos eco­no­mis­tas Gus­tavo Gon­zaga (PUC-Rio) e José Már­cio Camargo (hoje na Genial Inves­ti­men­tos), de um estudo aca­dê­mico sobre a última redu­ção legal da jor­nada no país, quando a Cons­ti­tui­ção Fede­ral, apro­vada em 1988, dimi­nuiu o limite de 48 para 44 horas sema­nais tra­ba­lha­das. A con­clu­são dos auto­res é que não houve aumento do desem­prego nem efei­tos devas­ta­do­res sobre a eco­no­mia a par­tir da mudança cons­ti­tu­ci­o­nal.

Para Mene­zes, a ado­ção de uma nova redu­ção no perí­odo semana de tra­ba­lho, agora, poderá melho­rar a qua­li­dade de vida de tra­ba­lha­do­res que enfren­tam lon­gos des­lo­ca­men­tos diá­rios e dis­põem de pouco tempo para o lazer e a con­vi­vên­cia fami­liar. “Essa redu­ção da jor­nada pode ser pro­vei­tosa no curto e no longo prazo. No curto prazo, com as pes­soas tra­ba­lhando menos, elas terão uma saúde melhor e menos estresse. Tem estu­dos que mos­tram isso.”

Mais saúde e menos estresse podem, ainda, aumen­tar a pro­du­ti­vi­dade, a par­tir da redu­ção do can­saço. Segundo Adal­berto Car­doso, pro­fes­sor do Ins­ti­tuto de Estu­dos Soci­ais e Polí­ti­cos (Iesp), da Uerj, e pre­si­dente da Asso­ci­a­ção Bra­si­leira de Estu­dos do Tra­ba­lho (Abet), há evi­dên­cias inter­na­ci­o­nais de que a dimi­nui­ção da jor­nada pode ele­var a pro­du­ti­vi­dade.

“Tem estu­dos sendo fei­tos na Ingla­terra, em Por­tu­gal, na Espa­nha. Em alguns paí­ses, fazem expe­ri­men­tos de redu­ção da jor­nada de tra­ba­lho para qua­tro dias na semana. Têm se com­pro­vado em paí­ses como Bél­gica, Holanda, ganhos reais em empre­sas que ado­ta­ram sema­nas de tra­ba­lho mais cur­tas. Isso por­que os tra­ba­lha­do­res tra­ba­lham mais des­can­sa­dos, feli­zes e enga­ja­dos. Tra­ba­lha­do­res mais des­can­sa­dos inves­tem em sua qua­li­fi­ca­ção, mudam até de seg­mento por­que se requa­li­fi­cam e vão tra­ba­lhar em situ­a­ção melhor. Tem uma dina­mi­za­ção da eco­no­mia que é real”, afir­mou Car­doso.

No longo prazo, poderá haver impac­tos indi­re­tos no desen­vol­vi­mento das cri­an­ças, espe­ci­al­mente nas famí­lias de baixa renda, com­pleta Mene­zes, do Ins­per: “Com essa jor­nada longa, as mães, prin­ci­pal­mente, não têm tempo de ler para seus filhos. Não têm tempo de brin­car com eles, per­gun­tar como foi a escola”. De acordo com ele, “ao redu­zir a jor­nada, você aumenta o tempo dis­po­ní­vel dos pais para inves­tir nas suas cri­an­ças, o que vai aumen­tar o apren­di­zado delas, gerando aumento de pro­du­ti­vi­dade no futuro”.

Em outra frente, como a baixa qua­li­fi­ca­ção da força de tra­ba­lho é um dos obs­tá­cu­los para a melhora da pro­du­ti­vi­dade, a redu­ção da jor­nada pode­ria incen­ti­var a capa­ci­ta­ção de tra­ba­lha­do­res que teriam mais dis­po­ni­bi­li­dade de tempo, mas Mene­zes pon­dera que uma ava­li­a­ção sobre isso exige uma aná­lise cui­da­dosa do impacto sobre as empre­sas, pesando cus­tos e bene­fí­cios.

O pro­fes­sor José Pas­tore, pre­si­dente do Con­se­lho de Emprego e Rela­ções do Tra­ba­lho da Fede­ra­ção do Comér­cio de Bens, Ser­vi­ços e Turismo do Estado de São Paulo (Feco­mer­ci­oSP), argu­menta que os ganhos de pro­du­ti­vi­dade pre­ce­dem às redu­ções nas médias de horas tra­ba­lha­das, e não o con­trá­rio. Até por­que a pro­du­ti­vi­dade não depende somente do tra­ba­lha­dor. “Depende da empresa, da tec­no­lo­gia da empresa, da infra­es­tru­tura do país, da estrada, da ener­gia elé­trica, dos arma­zéns. Um con­junto de fato­res faz a pro­du­ti­vi­dade aumen­tar. Segu­rança jurí­dica, tam­bém”, diz Pas­tore.

Dessa forma, mesmo em fun­ções ope­ra­ci­o­nais, o ambi­ente pro­du­tivo é deter­mi­nante para o desem­pe­nho do fun­ci­o­ná­rio. “Um cozi­nheiro só vai ter alta pro­du­ti­vi­dade se os ingre­di­en­tes che­ga­rem na hora certa. Se a ener­gia elé­trica é está­vel”, diz Pas­tore. “E por que o país tem uma pro­du­ti­vi­dade tão baixa? Não é só por causa do tra­ba­lha­dor. É tam­bém pelo que está em volta.”

Por isso, segundo o pro­fes­sor, se um pro­fis­si­o­nal da cons­tru­ção civil do inte­rior do país é con­tra­tado por numa cons­tru­tora de Nova York, onde a pro­du­ti­vi­dade é supe­rior, o bra­si­leiro tam­bém pro­du­zirá mais. “A pro­du­ti­vi­dade dele vai lá pra cima. Por­que lá o mate­rial chega na hora, a ener­gia fun­ci­ona. Pode­mos redu­zir a jor­nada e a pro­du­ti­vi­dade não subir”, disse.

Para alguns, tra­ba­lha­do­res menos can­sa­dos e mais enga­ja­dos pode­rão pro­du­zir melhor

Fonte: Valor Econômico
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