Em meio a mudanças no vale refeição, VR diversifica

Em meio a mudanças no vale refeição, VR diversifica

Publicado em 6 de dezembro de 2021

Companhia de benefícios compra duas startups e amplia gama de serviços.

A VR Benefícios acaba de comprar o controle de duas startups: a Audaz Tecnologia, de gestão de vale transporte e mobilidade, e a Global Points, que desenvolve “marketplaces” (shoppings virtuais) e programas de fidelidade. As duas aquisições, fechadas em novembro, se somam à da Pontomais, de ponto eletrônico, feita em janeiro, como parte da estratégia do grupo de aumentar a gama de serviços digitais oferecidos às empresas e seus funcionários e diversificar fontes de receita.

Pelo menos quatro novas aquisições estão em negociação, segundo o presidente da VR, Cláudio Szajman, e podem se concretizar no ano vem. A empresa, que desde 2020 tem o GIC, fundo soberano de Cingapura, como sócio minoritário, olha para negócios complementares ao seu portfólio, que auxiliem a digitalização dos clientes.

O movimento ocorre num momento de acirramento da concorrência e mudanças de regras para o setor de benefícios, principalmente para o mais tradicional deles, o vale refeição e alimentação, a partir do decreto 10.854 editado pelo governo federal em 10 de novembro. Os dois produtos deram origem à VR, criada em 1977 por Abram Szajman (pai de Cláudio), e ainda hoje são seu carro-chefe. O grupo vendeu a operação de emissão de cartões de benefícios em 2007 para a francesa Sodexo, mas voltou a esse mercado com sua marca há sete anos.

Para o trabalhador, as principais mudanças serão sentidas daqui a 18 meses, quando os cartões de refeição e alimentação poderão ser usados em qualquer restaurante ou supermercado que aceite esse meio de pagamento, e não só nos credenciados por determinados emissores, como Alelo, Sodexo, Ticket e VR, para citar os maiores do mercado. Os empregados também poderão fazer portabilidade do crédito entre as empresas de benefícios – os detalhes para essa migração ainda serão definidos.

O aspecto mais polêmico do decreto para as grandes companhias do setor, no entanto, é o que vetou a concessão de descontos para as empresas contratantes. Como têm mais escala, as grandes emissoras de benefícios conseguiam oferecer melhores condições aos clientes. Para startups e novas empresas do segmento, isso limita as chances de competir e ainda implica em uma cobrança de taxa maior do estabelecimento que recebe os cartões, como forma dos grandes emissores compensarem o desconto dado na outra ponta.

Para Claudio Szajman, presidente da VR e filho do fundador, o veto aos descontos contraria a livre concorrência. “Na hora que diz que não pode dar desconto, não pode dar prazo, você está praticamente tabelando o mercado, pelo menos tentando tabelar”, afirma. “A empresa paga a conta do benefício que concede aos funcionários, ela tem de negociar da melhor maneira possível para inclusive dar mais benefícios. Nesse decreto, isso não foi visto como positivo”, acrescenta. Os contratos vigentes, com descontos, podem ser mantidos por até 18 meses ou até seu vencimento, o que ocorrer primeiro.

Mas ele vê também aspectos positivos nas novas regras. “O mercado tem que evoluir, você tem novas tecnologias que estão sendo empregadas e muitas vezes as leis têm de se adaptar, e eu acho totalmente natural”, afirma, citando como exemplo a regulação do ponto eletrônico, muito usado na pandemia devido ao trabalho remoto.

Outro aspecto positivo, diz, foi reafirmar que para usufruir da isenção de encargos trabalhistas sobre os valores do vale refeição previstos no Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT) é necessário segregar o saldo direcionado a esse fim. Não é possível por exemplo, usar o dinheiro da alimentação para pagar a conta da internet, sob pena de multa. “Acho que alguns operadores [de benefícios], principalmente os mais afoitos, os mais novos, talvez não tenham tomado os devidos cuidados e esse decreto está chamando atenção para isso.”

O decreto diz ainda que as empresas que aderem ao PAT precisam também dispor de programas que promovam a saúde e a nutrição adequada de seus trabalhadores. Para ajudar as companhias a seguir essa norma, a VR prepara para os próximos dias o lançamento de um marketplace com serviços de consultoria com nutricionista, desconto em farmácias, entre outros. Alguns dos serviços já estavam disponíveis nos aplicativos da VR voltados aos trabalhadores, aos estabelecimentos comerciais e no portal para as áreas de Recursos Humanos, mas agora todos estarão reunidos no marketplace – projeto que se acelerou com a aquisição da Global Points.

Embora tenha clientes de grande porte, como Hospital Albert Einstein e Petrobras, o crescimento da VR tem se dado principalmente atendendo companhias menores. Do total de 62 mil empresas clientes, 95% são de pequeno ou médio porte. A base de usuários de seus cartões cresceu 33% nos últimos 12 meses e o total transacionado por todos os benefícios oferecidos – de alimentação e transporte, passando por auxílio home office – somou R$ 9 bilhões.

Szajman vê ainda muito potencial para expandir os negócios com serviços na nuvem para empresas de menor porte. “A grande novidade é levar esses serviços de gestão de benefícios, gestão de pessoas, gestão de ponto, para a pequena, que não precisa contratar um funcionário a mais para ter os mesmos serviços que uma grande companhia pode ter”.

Fonte: Valor Econômico
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