Em telefonema a Josué, presidente fala em golpe

Em telefonema a Josué, presidente fala em golpe

Publicado em 20 de janeiro de 2023

Lula solidarizou-se com presidente da Fiesp, que teve sua destituição do cargo aprovada em assembleia na segunda-feira.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) telefonou na tarde de quarta-feira (18) para Josué Gomes da Silva e disse que considera um golpe a destituição do empresário do cargo de presidente da Federação das indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), conforme apurou o Valor com interlocutores do industrial, que é dono do grupo têxtil Coteminas. Na conversa, que durou cerca de 30 minutos, o presidente teria se solidarizado com o empresário.

Com apenas um ano de mandato, Josué enfrenta uma crise na diretoria da Fiesp e tem a sua gestão questionada por parcela de representantes de sindicatos que integram a federação de indústrias. Durante duas conturbadas assembleias realizada na tarde de segunda-feira (16), 47 votantes decidiram apear Josué do comando da federação. As plenárias aconteceram em seguida à visita do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) à Fiesp, a convite de Josué, para participar da primeira reunião da diretoria da entidade após o recesso de fim de ano. Alckmin também acumula o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), recriado no terceiro governo Lula com o propósito de incentivar a reindustrialização do parque brasileiro.

A Fiesp divulgou nota afirmado que Josué “é o presidente da entidade e está no pleno exercício de suas funções, conforme determinam os estatutos vigentes”. Até o início da noite de quinta-feira, a ata das duas assembleias ainda não havia sido registrada em cartório, conforme exige o estatuto da federação. Josué tem despachado normalmente desde a decisão que buscou destituí-lo da presidência da Fiesp. Ele enviou convites para uma reunião que marcou para o dia 23, na qual se discutirá a criação de comitê de aprimoramento de governança na entidade.

Na conversa, Lula lembrou que a Fiesp foi atuante no processo que culminou no impeachment de Dilma Rousseff (PT), em 2016. Em dezembro de 2015, após aderir a manifestações contra o governo do PT, a entidade divulgou comunicado posicionando seu apoio formal à retirada da então presidente do cargo.

A proximidade de Bolsonaro com a Fiesp consolidou-se durante a gestão de Skaf, empresário e político atualmente filiado ao Republicanos que disputou três vezes a eleição para governador de São Paulo. Skaf manteve-se por 17 anos no comando da Fiesp e antecedeu Josué no cargo. Ele estava à frente da federação quando a entidade encampou o movimento que defendia o impedimento de Dilma. Skaf foi também o fiador da eleição de Josué, eleito em chapa única em julho de 2021.

Lula também teria falado com Josué sobre a escalada do bolsonarismo na Fiesp e avaliado que parte significativa de seus integrantes estaria próxima do hoje ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Entre 2019 e 2022, Bolsonaro fez diversas visitas à Fiesp, participando de almoços e eventos promovidos pela entidade, juntamente com ministros de seu governo. Em março de 2020, Bolsonaro fez duas visitas em menos de um mês à federação, acompanhado pelo então ministro da Economia, Paulo Guedes, e pelo general Braga Netto.

Lula ainda teria aconselhado Josué a manter a tranquilidade e a buscar algum entendimento com o grupo político com o qual antagoniza na Fiesp. O presidente também rememorou episódios turbulentos de seus primeiros dois mandatos no Planalto. Lula é próximo do empresário, que chegou a ser cotado para o Mdic, mas acabou recusando o cargo de ministro. Nos dois primeiros governos Lula, o vice-presidente era o pai de Josué, o empresário José Alencar, morto em 29 de março de 2011.

Nesta sexta-feira (20), Josué vai a Brasília a convite de Lula. Ele participará com o presidente e o ministro da Defesa, José Múcio, de uma reunião com os comandantes de Exército, Marinha e Aeronáutica. A reunião terá como tema projetos estratégicos de defesa para as Forças Armadas. Em entrevista concedida na quarta-feira à GloboNews, Lula citou Josué nominalmente como participante de processo de fortalecimento da indústria de defesa.

Fonte: Valor Econômico
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