Emprego aumenta e renda despenca em 2021

Emprego aumenta e renda despenca em 2021

Publicado em 25 de fevereiro de 2022

Trabalho por conta própria bate recorde e média de rendimentos é a segunda menor desde 2012, aponta Pnad.

O mercado de trabalho brasileiro fechou 2021 com mais pessoas ocupadas e menor taxa de desemprego, mas com a segunda menor renda média do trabalhador da série histórica (iniciada em 2012), a menor massa salarial desde 2016 e recorde no contingente de trabalhadores por conta própria, considerando o resultado anual. Ainda assim, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, divulgada ontem pelo IBGE, mostra recuperação frente ao primeiro ano da pandemia.

O resultado de 2021 tem sinais mistos, apontam economistas, e há cautela com a evolução do mercado de trabalho em 2022, diante de uma economia que deve crescer pouco ou até recuar. A expectativa de especialistas é que, diante das previsões de atividade econômica fraca e mais gente voltando a buscar vagas, a taxa de desemprego continuará elevada mesmo com criação de novos postos de trabalho. Há quem acredite até que pode voltar a subir no segundo semestre. Além disso, não se vê espaço para recuperação da renda de forma mais expressiva em 2022.

“Os números sugerem que estamos com volta do emprego, mas com empregos que pagam menos”, resume Bruno Ottoni, pesquisador líder de mercado de trabalho da consultoria IDados e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

A taxa de desemprego no país recuou de 13,8% em 2020 para 13,2% em 2021, mas ainda é a segunda maior da série e se encontra acima do patamar pré-pandemia, em 2019 (12%). O país ainda tinha um total de 13,9 milhões de desempregados em 2021, na média, muito perto dos 13,8 milhões de 2020. Na média de 2021, a população ocupada atingiu 91,297 milhões de pessoas (5% a mais que em 2020). No quarto trimestre, chegou a um novo recorde, de 95,744 milhões de trabalhadores.

A maior parte do crescimento da população ocupada tem ocorrido pelo trabalho informal, com um rendimento menor, especialmente aqueles por conta própria. Dos 4,360 milhões de trabalhadores ocupados a mais, na comparação entre a média de 2021 e a de 2020, quase 60% (57,2%, ou 2,486 milhões), são de trabalhadores por conta própria. Na média de 2021, o número de trabalhadores subiu 11,1% em relação a 2020 e chegou ao recorde de 24,902 milhões.

O rendimento médio real habitual dos trabalhadores (considerando a soma de todos os trabalhos) brasileiros foi de R$ 2.587 em 2021, uma queda de 7% frente a 2020 e o segundo menor patamar de toda a série histórica (atrás apenas dos R$ 2.570 de 2016), considerando valores reais.

O economista Rodolfo Margato, da XP, destaca “os sinais mistos”. Se por um lado há clara recuperação do nível de emprego, tanto em categorias informais quanto formais, de outro chama atenção a queda da renda. Para ele, deve haver continuidade de recuo no desemprego até o fim de primeiro semestre, mas o segundo semestre é mais incerto. Além de maior turbulência internacional, a economia estará sujeita a turbulências internas, por conta das eleições.

“Enxergamos ligeira queda na taxa de desemprego, e continuaremos essa dinâmica ao fim do primeiro semestre, mas podemos ter aumento [na taxa de desemprego], mesmo que modesto, na segunda metade de 2022”. A XP projeta, na taxa média anual de desemprego, resultado de 11,6% em 2022 e de 10,5% em 2023.

Para o economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez, a taxa de desemprego deve atingir 13% até dezembro, por conta de efeitos de uma economia mais fraca, que deve empurrar mais pessoas para a força de trabalho, que por sua vez não deve ser plenamente absorvida pela população ocupada no mercado de trabalho. Na média de 2022, sua previsão é que recue para 12%, seguida por novo aumento em 2023, para 13%.

Um dos sinais de que mais pessoas estão voltando a procurar emprego, segundo ele, é a redução do percentual de desalentados – quem não tem emprego, mas procura ocupação, frente ao total da força trabalho, que caiu para 4,3% no quarto trimestre de 2021.

Bruno Ottoni acredita que o mercado de trabalho deve “andar de lado” em 2022, visto que a economia não irá crescer muito – mas, ao mesmo tempo, ocorrerão recuperações em setores da economia, intensivos em emprego, que passaram por prejuízos na pandemia. Mas, se há perspectiva de crescimento de vagas, o mesmo não pode ser dito da renda originada de trabalho.

Ottoni nota ainda que a inflação neste começo do ano segue pressionada em dois dígitos no acumulado em 12 meses, o que afeta o crescimento da renda real, ou seja, descontado efeito inflacionário. “Não vemos perspectiva de a renda avançar muito em 2022”, diz.

Rafaela Vitória, economista do Banco Inter também vê na renda um ponto de preocupação, especialmente por seu impacto no consumo. “Como não tem crescimento de massa salarial é difícil esperar crescimento de consumo”, pontua ela, notando que esse fator, aliado a um cenário de inflação ainda pressionada, inibe demanda interna, com impactos no resultado da economia.

Fonte: Valor Econômico
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