Emprego já deve sentir crise em março

Emprego já deve sentir crise em março

Publicado em 1 de abril de 2020

Antes dos impactos do novo coronavírus, o mercado de trabalho cumpria uma trajetória de lenta recuperação no início do ano, com a melhora do emprego por indicadores ajustados sazonalmente. Novas projeções divulgadas ontem por economistas, porém, reforçaram o quadro preocupante para o emprego e renda a partir de março por causa da pandemia.

Dados divulgados pelo IBGE mostram que a taxa de desemprego foi de 11,6% no trimestre até fevereiro, acima do trimestre móvel até janeiro (11,2%). A piora era esperada por analistas, devido à sazonalidade do período, marcado por dispensa de temporários. Ajustada sazonalmente, a taxa recua de 11,5% para 11,4%, segundo a LCA Consultores.

“Foi a quarta queda consecutiva da taxa de desemprego ajustada sazonalmente, no mês a mês. Desta vez, a melhora tem a ver com o aumento da população ocupada e da estabilidade da força de trabalho”, disse Cosmo Donato, da LCA Consultores. “Mas são resultados sem efeitos da covid-19, que devem ser observados nas próximas pesquisas.”

Projeções atualizadas da LCA apontam que o pico da piora do mercado de trabalho será no primeiro trimestre de 2021, com 14 milhões de desempregados. Esse é o cenário básico, que considera dois meses de medidas de isolamento forte seguidos e mais dois meses com relaxamento gradual. A taxa média de desemprego será de 12% em 2020.

Daniel Duque, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), traçou um cenário ainda mais preocupante. Para ele, o número de desempregados deve crescer dos 12,3 milhões do trimestre móvel até fevereiro para 17 milhões no segundo trimestre deste ano. Se confirmado, será um recorde.

Segundo ele, a taxa de desemprego deverá crescer para 12,9% no primeiro trimestre e para 16,1% no segundo trimestre deste ano. Esta será maior do que a registrada no pior momento do mercado de trabalho na recente recessão: 13,7% no primeiro trimestre de 2017.

“No segundo trimestre haverá perda de ocupações formais e informais. Empresas vão cortar empregados por causa da recessão e os informais terão que procurar emprego, porque estarão sem renda”, diz Duque. “Com a flexibilização das medidas de quarentena, o terceiro trimestre pode ter alguma melhora do emprego informal.”

A MCM Consultores tem um cenário de piora um pouco mais branda. Para ela, o pico do desemprego será de 12,6% no segundo trimestre deste ano. Já o rendimento médio real deverá recuar 1,3% em 2020 e ficar estável em 2021. “Estas projeções foram construídas sob a hipótese de recuo de 1% do PIB este ano, com recuperação a partir do terceiro trimestre”,

Com a interrupção de serviços, a expectativa é que os estabelecimentos (especialmente os de menor porte, sem caixa) terão que reduzir o quadro de pessoal. “Outros tantos vêm optando por reduzir a jornada de trabalho e a remuneração, de modo a preservar a ocupação, o que é uma saída que o governo tenta incentivar”, detalha a consultoria.

A MCM espera que parte do ajuste ocorra pelo lado das horas trabalhadas, não estritamente pelo corte do emprego. “Com isso, medidas alternativas de desocupação tendem a captar ainda mais o impacto esperado no mercado de trabalho, se elevando mais do que a taxa de desemprego tradicional.”

Uma preocupação particularmente continua sendo os trabalhadores informais. Segundo o IBGE, 40,8% das ocupações existentes no país são informais – ou seja, 38 milhões de pessoas.

O diretor-adjunto do Departamento de Pesquisas do IBGE, Cimar Azeredo, afirmou que o confinamento provocado pela pandemia pode gerar, em um primeiro momento, uma redução no número de desempregados e da taxa de desemprego. O motivo é a metodologia da pesquisa, que considera desempregado quem efetivamente procura por uma vaga.

“Se a taxa de desocupação eventualmente cair nas próximas divulgações, isso não significará, necessariamente, uma melhora do mercado de trabalho. As pessoas não estão saindo de casa para trabalhar, também não devem sair para procurar emprego. Existe dificuldade de mobilidade”, explicou Azeredo.

O diretor do IBGE alertou para outro possível fenômeno que pode reduzir a taxa de desemprego e o total de desempregados no período, o do chamado “desalento”. Desalentada é a pessoa que não procurou emprego por não acreditar que vai conseguir uma vaga, embora aceitasse uma se alguém oferecesse.

Com o mercado de trabalho paralisado durante a pandemia, as pessoas podem simplesmente desistir de procurar emprego por determinado tempo. Desta forma, ela sairia da força de trabalho e iria para a inatividade. Passaria o compor, desta forma, as estatísticas de “subutilização” – a chamada mão de obra desperdiçada do país.

Fonte: Valor Econômico
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