Emprego mantém fôlego e junho tem 278 mil novas vagas

Emprego mantém fôlego e junho tem 278 mil novas vagas

Publicado em 29 de julho de 2022

Caged mostra crescimento em todos os setores de atividade e em todas as regiões do país.

 O mercado de trabalho seguiu surpreendendo positivamente em junho. Após dados de atividade também melhores que o esperado, houve abertura expressiva de vagas em todos os setores e regiões. O governo comemora os dados, mas analistas alertam que o desempenho ocorre de forma “artificial” e que isso terá consequências mais à frente, como em relação à inflação.

Segundo dados do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), houve abertura líquida de 277.944 vagas com carteira assinada em junho. O resultado ficou acima da mediana das estimativas colhidas pelo Valor Data, de 235 mil postos criados, com intervalo entre 130 mil a 289.864.

Houve abertura líquida de vagas em todos os cinco setores da economia: agropecuária, produção florestal, pesca e aquicultura (34.460 vagas), indústria geral (41.517), construção (30.257), comércio e reparação de veículos automotores e motocicletas (47.176) e serviços (124.534). O avanço também foi registrado nas cinco regiões do Brasil: Sudeste abriu 137.228 vagas, Sul (31.774), Nordeste (52.122), Norte (21.780) e Centro-Oeste (34.263).

Em entrevista coletiva sobre os resultados, o ministro do Trabalho e Previdência, José Carlos Oliveira, afirmou que, com o saldo de vagas acumulado nos primeiros seis meses do ano, de 1.334.791, praticamente alcançou-se a “meta” da pasta para o ano, de 1,5 milhão. Oliveira não estabeleceu nova meta, mas disse que “no segundo semestre há aquecimento na criação de emprego”.

Na entrevista, o secretário-executivo da pasta, Lucio Capelletto, afirmou que os cerca de 277 mil postos criados liquidamente em junho seguem a “média de crescimento” observada “de março em diante”. Também disse que “estamos em fase de decréscimo de pedidos de seguro-desemprego”. No mês passado, 539.803 pessoas pediram seguro-desemprego, contra 597.343 em maio.

Outro ponto destacado por ele foi que pela primeira vez na história o estoque de empregos formais superou a marca de 42 milhões, alcançando 42.013.146 postos.

Para Gabriel Couto, economista do Santander, os dados do mercado de trabalho neste momento são compatíveis com um ritmo de criação de empregos de anos em que a economia estava deixando um período de crise.

“O ritmo atual do Caged é bastante forte, equivale a ritmo anualizado de criação de vagas de 2,5 milhões. Esse número é muito próximo do registrado em 2010 (2,1 milhões) e 2021 (2,8 milhões). A questão é que ambos esses anos são de recuperação após tombos bastante grandes do emprego formal”, diz Couto.

O possível sobreaquecimento do mercado de trabalho é importante quando é levado em conta que o nível de desemprego já estaria abaixo daquele considerado “estrutural”, ou seja, a partir do qual começa a gerar pressões inflacionárias. O Santander entende que a taxa de desemprego pode ter caído a 9,1% em junho, feito o ajuste sazonal. Com isso, fica abaixo do patamar estrutural, que o banco calcula estar entre 10% e 11%.

Para o economista Bruno Imaizumi, da LCA Consultores, a bateria de transferências do governo à população e as medidas para baixar a inflação postergam a desaceleração da economia e, consequentemente, do mercado de trabalho. Um movimento que deve durar ao menos até o quarto trimestre.

Até pouco tempo atrás, a maioria dos economistas entendia que o aperto monetário pelo Banco Central iria começar a fazer efeito sobre a atividade na virada do primeiro para o segundo semestre. Essa percepção virou pó após o pacote eleitoral do governo. A LCA, inclusive, revisou recentemente a projeção de alta do PIB este ano 2022 de 1,6% para 2,1%. Com isso, a estimativa para a criação de vagas no setor formal este ano passou de 1,5 milhão para 1,9 milhão.

“A desaceleração ficou mais para o fim do ano, talvez o começo do ano que vem. Logo depois das eleições, alguns estímulos chegam ao fim, outros acabam no fim do ano, deve bater no trabalho.”

Imaizumi nota ainda que os efeitos da reabertura não se esgotaram. Ele chama atenção para o subsetor de atividades administrativas e serviços complementares, que abriu 41,6 mil vagas em junho.

“Esse grupo tem muito a ver com serviços prestados à empresas de escritórios, apoio administrativo, agência de viagens, serviços para edifícios. Então ainda retrata a volta, por parte das empresas, a um esquema presencial ou híbrido de trabalho”, diz.

Para a MCM, a política monetária mais contracionista deve tirar fôlego do mercado de trabalho nos próximos meses. “Porém, com as últimas surpresas positivas, cresce a chance de a geração líquida de vagas acumulada em 2022 se aproximar de 2 milhões”, diz a consultoria em relatório a clientes.

Fonte: Valor Econômico
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