10 out Emprego surpreende, mas ritmo de expansão deve cair
Emprego surpreende, mas ritmo de expansão deve cair
Parece pouco provável que o ano repita o feito de 2022, quando 2 milhões de vagas formais foram abertas.
A resiliência do mercado de trabalho tem surpreendido desde o início do ano. Inicialmente, os analistas davam como certo de que a melhoria seria passageira e não resistiria ao avançar dos meses. Depois se constatou que o reforço dos programas de benefícios, notadamente do Bolsa Família, poderia estar levando mais pessoas a deixar de procurar emprego, reduzindo o desemprego por conta da menor taxa de participação. A economia mais forte do que se esperava também pode ter animado o mercado de trabalho. À medida que o tempo passa, porém, parece estar havendo uma combinação de todos esses fatores, com efeito incerto ao longo do tempo.
Os dados mais recentes divulgados confirmam a manutenção da tendência de melhora do emprego. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do IBGE, referente ao trimestre móvel terminado em agosto, mostrou uma taxa de desemprego de 7,8%, inferior ao trimestre móvel anterior, de 7,9%, e ao de igual período em 2022, de 8,9%. A taxa de 7,8% é a menor para um trimestre encerrado em agosto desde 2014 (7%) e também a menor para qualquer trimestre da pesquisa desde fevereiro de 2015 (7,5%).
Ao fim de agosto, o país tinha 8,4 milhões de desempregados, 1,3 milhão a menos do que um ano antes, ou 13,2%. É o menor contingente de desempregados desde o trimestre encerrado em junho de 2015 (8,5 milhões). A população ocupada, incluindo empregados, empregadores e funcionários públicos, somava 99,7 milhões de pessoas, mais 641 mil pessoas em um ano.
Na semana passada, o Ministério do Trabalho e Emprego divulgou que o Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) registrou a abertura líquida de 220.844 mil vagas com carteira assinada em agosto, o melhor saldo desde janeiro. No ano, o número de vagas criadas foi de 1,3 milhão.
O aumento do emprego vem acompanhado de aumento da remuneração. A massa salarial real, soma de todos os rendimentos dos brasileiros ocupados, alcançou o recorde de R$ 288,9 bilhões no trimestre findo em agosto, maior valor da série histórica da pesquisa, iniciada em 2012. É resultado da elevação do número de trabalhadores empregados e da expansão do rendimento médio real, favorecida pelo aumento real do salário mínimo. Já o rendimento real ficou estável no período, totalizando R$ 2.947, com crescimento de 4,6% no ano.
Para o IBGE, o contexto econômico favorável contribui para a redução do desemprego, sem especificar algum fator. De fato, a economia também vem surpreendendo positivamente desde o salto de 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre, puxado pelas atividades da agropecuária, até o crescimento de 0,9% no segundo trimestre.
Por toda parte houve revisão para cima das projeções para o PIB deste ano. O Ipea é o mais otimista e elevou de 2,3% para 3,3% a previsão de crescimento, número à frente até mesmo dos 3,2% estimados pelo governo e replicados pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). No mercado financeiro, a expectativa ronda os 2,9%, de acordo com o Boletim Focus. Mais comedido, o Boletim Macro FGV Ibre revisou o percentual projetado de 1,8% para 2,5%.
Segundo o IBGE, um grupo de atividades relacionadas aos serviços responde por quase 70% do aumento da ocupação até agosto, compreendendo informação, comunicação e atividades financeiras, imobiliárias, profissionais e administrativas; administração pública, defesa, seguridade social, educação, saúde humana; serviços sociais e domésticos.
Embora a metodologia seja completamente diferente da do IBGE, que capta a ocupação formal e a informal, os dados do Novo Caged, que se referem ao trabalho com carteira assinada, também confirmam o setor de serviços como principal gerador de emprego, com 777.130 postos criados de janeiro a agosto. O segmento se beneficia do crescimento de outros setores, como o agropecuário, que estimula indiretamente a abertura de vagas em segmentos como transportes e seguros. A agropecuária propriamente dita é a que menos vagas com carteira assinada gerou neste ano até agosto, 105,4 mil, segundo o Caged.
O aumento das contratações pela administração pública, especialmente nas áreas de saúde e educação, também ampliou os números. Essas contratações não são necessariamente formais, muitas têm caráter temporário, dependem de fatores como arrecadação e iniciativas políticas, e carecem de sustentação a médio prazo.
A melhoria do mercado de trabalho, inegável nos últimos meses, parece ter um progresso duvidoso à frente. Espera-se que tenha ficado para trás o sombrio primeiro trimestre de 2021, quando o desemprego beirou os 15%. Os próximos meses podem ser favorecidos pelas contratações sazonais de fim de ano. Mas parece pouco provável que o ano repita o feito de 2022, quando 2 milhões de vagas formais foram abertas. Para chegar lá seria necessário abrir 700 mil vagas em três meses, ritmo muito superior ao atual.
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