Emprego vai definir ritmo da atividade, indica Barclays

Emprego vai definir ritmo da atividade, indica Barclays

Publicado em 2 de setembro de 2022

Inflação subjacente deve demorar a desacelerar, diz Roberto Secemski.

As surpresas positivas com o mercado de trabalho brasileiro ajudam a explicar parte importante do resultado acima das expectativas do Produto Interno Bruto (PIB) do país no segundo trimestre deste ano e podem trazer uma tendência melhor mesmo para os próximos trimestres, ainda que eles sejam de desaceleração. Essa é a avaliação de Roberto Secemski, economista-chefe para Brasil do Barclays.

“Além da recuperação da economia com a reabertura, houve outros efeitos mais temporários, como a mudança na sazonalidade dos pagamentos do 13º salário dos pensionistas e os saques do FGTS. São algumas coisas que dão uma sobrevida [para a atividade], não necessariamente sustentabilidade. Mas existem sugestões de que essa força possa ter mais sustentação na medida em que ela vem acompanhada da melhora do mercado de trabalho”, disse ele em entrevista ao Valor.

O PIB avançou 1,2% de abril a junho, em relação aos três meses imediatamente anteriores, e Secemski diz não esperar uma desaceleração tão abrupta para o terceiro trimestre. “A força do mercado de trabalho dá um ponto de partida melhor”, afirmou. Aliado a isso, há mais ação governamental. “Se no segundo trimestre houve a antecipação do 13º e os saques do FGTS, agora, no terceiro trimestre, temos o começo do pagamento do Auxílio Brasil de R$ 600. A desaceleração que, em geral, é esperada como resposta às ações de política monetária, que começaram no ano passado, deve ser suavizada.”

O quarto trimestre tende a ser mais desafiador, segundo Secemski, por causa da intensificação dos efeitos da política monetária e também devido a incertezas em relação aos planos fiscais do próximo presidente da República, após as eleições.

Valor: Quais os destaques do PIB no segundo trimestre?

Roberto Secemski: No lado da oferta, ficou claro que a força vem de serviços, como era esperado, mas com um impulso ainda maior. Existem motivos para isso, o que a gente chama de reabertura da economia, que é a retomada de atividades presenciais. Essa é a parte que vemos que ainda tem espaço para continuar se recuperando, até porque, na Pesquisa Mensal de Serviços [PMS, do IBGE], os serviços prestados às famílias ainda não voltaram aos níveis pré-pandemia. Isso, por si só, sugere um espaço para a continuidade desse movimento.

Valor: Mas a alta de 1,3% dos serviços em geral no segundo trimestre também superou as expectativas.

Secemski: Possivelmente, por causa da força que temos visto no mercado de trabalho, com a criação robusta de empregos. Ainda que os salários não tenham recuperado níveis anteriores, a massa salarial tem crescido. Tem também a questão da despoupança, que não sabemos a que taxa está acontecendo [o IBGE não publicou essa informação] e que geraria um efeito mais “one-off” [pontual]. Além da recuperação da economia com a reabertura, houve outros efeitos mais temporários, como a mudança na sazonalidade dos pagamentos do 13º salário dos pensionistas e os saques do FGTS. São algumas coisas que dão uma sobrevida [para a atividade], não necessariamente sustentabilidade. Mas existem sugestões de que essa força possa ter mais sustentação na medida em que ela vem acompanhada da melhora do mercado de trabalho. Existem algumas trocas de marcha acontecendo, e isso vale tanto para os serviços, do lado da oferta, quanto para o consumo privado, do lado da demanda, que foi uma surpresa bastante grande também [no segundo trimestre]. Os investimentos também surpreenderam, mas tenho dúvidas ainda quanto à sustentabilidade desse ciclo nesse ambiente de uma política monetária bastante restritiva. Entre investimentos e consumo, o consumo me parece melhor posicionado para continuar performando bem no terceiro trimestre, possivelmente no quarto, apesar do aumento do juro.

Valor: Quais são as expectativas para o comportamento da atividade no terceiro trimestre?

Secemski: Eu espero alguma desaceleração, mas não vejo um “cliff” [uma desaceleração muito abrupta]. A força do mercado de trabalho dá um ponto de partida melhor para o terceiro trimestre. Aliado a isso, tem mais uma ação governamental. Se no segundo trimestre houve a antecipação do 13º e os saques do FGTS, agora, no terceiro trimestre, temos o começo do pagamento do Auxílio Brasil de R$ 600. A desaceleração que, em geral, é esperada como resposta às ações de política monetária, que começaram no ano passado, deve ser suavizada. Mas acho que a parte da força do mercado de trabalho é o que sugere uma tendência subjacente melhor, esse é o canal que eu vejo como o mais sustentável.

Valor: A desaceleração maior da economia deve ser, então, no quarto trimestre?

Secemski: O último trimestre vai ser mais complicado, porque será a hora da verdade em relação às medidas fiscais que vão ser tomadas para se entregar o que está sendo prometido pelos dois líderes nas pesquisas [de intenção de voto para a Presidência da República]. O Orçamento [de 2023] foi apresentado na quarta-feira e vai ficar parado em um escaninho até novembro. E a gente sabe que os dois candidatos à frente nas pesquisas se comprometeram publicamente em manter os R$ 600 de Auxílio Brasil, cujo custo não caberá sob o teto de gastos. Não sabemos ainda que ponte vai ser feita de onde estamos para onde se quer chegar. Há diversas maneiras de se fazer isso, com diferentes níveis de incertezas associados. Se for uma PEC [Proposta de Emenda à Constituição], por exemplo, a gente sabe como ela começa, mas não sabe como termina. Tem bastante incerteza associada a esse processo e eu acho que isso pode ser um fator adverso à atividade no último trimestre do ano, em combinação com o juro, que já está alto. O mercado de trabalho poderia ser uma força estabilizadora, na medida em que essas condições continuem sendo observadas.

Valor: Com a atividade deste ano voltando a surpreender, a “herança” para 2023 melhora?

Secemski: Tem algumas coisas na mesa. Tem o efeito cumulativo da política monetária, que vai ser cada vez mais forte, e com a expectativa de que, com a inflação desacelerando para um mesmo juro parado, se ele ficar assim, o juro real aumenta. A normalização de setores de serviços pode não estar mais lá, o nível de poupança acumulado pode não ser mais alto como antes e tem as discussões dessa nova âncora fiscal que não sabemos qual vai ser – e que não acho que será endereçada em novembro/dezembro [deste ano]. Mas eu volto à questão da força do mercado de trabalho: essa desaceleração esperada por causa da política monetária causará aumento do desemprego? Se não causar, o ano tem chance de ter uma performance melhor do que o mercado tem visto por enquanto. Fazendo um balanço desses vetores todos, a expectativa continua sendo de desaceleração [do PIB em 2023], mas o mercado de trabalho realmente tem surpreendido, e isso é um fator que eu acho que pode fazer a diferença nessa visão de PIB para 2022 e 2023.

Valor: Isso não traz preocupação para o quadro inflacionário, ao mesmo tempo em que o governo adota medidas para tentar reduzir determinados preços?

Secemski: A gente vê uma desaceleração significativa no índice cheio do IPCA [para 2022], explicada por commodities e pelos cortes de impostos, e que, nesse primeiro momento, não vai ser acompanhada pelo núcleo de inflação – em que a gente tenta olhar essa relação mais próxima da atividade econômica. Já chamamos a atenção para a inflação de serviços, em particular os serviços intensivos em mão de obra. Se o mercado de trabalho vai continuar a apertar, a gente tende a ver uma pressão maior nesses serviços. Esse é o outro lado da moeda da força ainda por vir na atividade, seja pelo espaço residual de melhora em serviços presenciais, seja pelo mercado de trabalho mais apertado: um núcleo de inflação que leva mais tempo para desacelerar. O Orçamento trouxe a sinalização de que há intenção de se manter a desoneração dos combustíveis em 2023. Havendo essa tentativa, isso significa algum alívio para o índice cheio do ano que vem também, mas a atividade econômica gera algumas perguntas sobre a velocidade de melhora dos índices subjacentes de inflação.

Valor: Esse cenário não pode levar o Banco Central, se não a elevar mais os juros, a pelo menos manter por ainda mais tempo a Selic em 13,75%?

Secemski: Sim, eu concordo. Eu acho que o risco é ver a manutenção do juro por um tempo mais longo, na medida em que atividade demore mais para desacelerar, por questões passageiras ou alguma força mais persistente no mercado de trabalho. A minha impressão é que, hoje, a resposta a isso seria uma postergação no começo do ciclo de cortes.

Fonte: Valor Econômico
No Comments

Sorry, the comment form is closed at this time.