Empresas atuam para manter empregos e dar assistência

Empresas atuam para manter empregos e dar assistência

Publicado em 28 de junho de 2024

Vagas em serviços e varejo são as mais ameaçadas.

Entidades empresariais temem que uma eventual má gestão da crise provocada pelas enchentes dificulte a recuperação econômica do Rio Grande do Sul. Entre as demandas do setor produtivo estão medidas para evitar demissões de trabalhadores. No começo do mês, a Federação de Entidades Empresariais do Rio Grande do Sul (Federasul) encaminhou ofício à Presidência da República elencando uma série de medidas emergenciais, como suspensão temporária dos contratos de trabalho, pagamento de auxílio por três meses para manutenção do emprego e renda, linha de crédito especial e renda mínima para as categorias mais prejudicadas.

“Meu sentimento é que a onda de demissões já começou e será seguida de êxodo dos trabalhadores. O envio de currículo para Santa Catarina quadruplicou”, conta o presidente da Federasul, Rodrigo Sousa Costa. Um painel da Secretaria do Desenvolvimento Econômico e Turismo de Porto Alegre confirma: já houve 45 mil demissões na cidade. No Centro Histórico, mais de 6 mil empresas do setor de serviços amargaram danos – alimentação e apoio administrativo lideram o ranking das afetadas. “Algumas companhias ainda estão prejudicadas pelas chuvas de setembro e novembro do ano passado. E muitas outras, endividadas pela pandemia, estão há mais de um mês sem faturamento e sem saber ao certo quando voltarão a ter alguma receita”, diz Costa.

Para o professor da PUC-RS Gustavo de Moraes, a taxa de desemprego no Estado deve seguir pressionada por seis meses e deve voltar aos habituais 5% apenas em 2025. “As experiências vividas por países como México, com os terremotos, e Estados Unidos, com o furacão Katrina, mostram que esta é a tendência. A pandemia interrompeu os negócios. Agora, os negócios foram interrompidos, mas também tivemos perda patrimonial. Do ponto de vista econômico, a situação é mais grave”, avalia. No curto prazo, porém, a força da construção civil para reerguer as áreas pode equilibrar o cenário, diz o professor. “A demanda por itens de higiene pessoal, medicamentos, produtos de limpeza e os materiais para as obras também podem movimentar vendas”.

O painel da prefeitura mostrou que, na indústria, aquelas do ramo da transformação foram as mais atingidas. Em outra pesquisa, da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), as de máquinas, equipamentos, borracha e plástico encabeçam a lista dos setores prejudicados. “O pequeno e médio comércio atingido, como em Canoas e Porto Alegre, não irá conseguir voltar. Eles não irão conseguir ficar de pé nem mesmo com injeção de dinheiro da indústria parceira”, prevê Silvana Dilly, superintendente da Associação Brasileira de Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assintecal).

O setor de calçados, produto que figura entre os dez mais exportados pelo Rio Grande do Sul, sofreu com alagamentos de fábricas e falta dos trabalhadores por dificuldades de mobilidade. O fechamento do aeroporto Salgado Filho afeta a remessa para a Argentina. Em maio, a Assintecal lançou o Movimento Próximos Passos, que visa a levantar R$ 20 milhões para reconstruir a casa de funcionários que perderam tudo – o grupo já angariou R$ 6 milhões. Arezzo&Co, Anacapri, Via Marte, Ipanema, Grendene Kids, Vulcabras, Beira Rio e Melissa são marcas embaixadoras da iniciativa. Até o momento, não houve demissões entre as filiadas da entidade.

Maior em receita do Rio Grande do Sul, onde chegou em 1977, a Yara Fertilizantes teve sua antiga fábrica da capital, ao lado do rio Gravataí, alagada por três semanas. Perdeu móveis e computadores, agora passa por limpeza, rescaldo e secagem técnica e tenta religar os equipamentos. A companhia também não tem planos de demissão para seu quadro de 2 mil colaboradores, 400 dos quais tiveram suas casas danificadas. “Em alguns casos, a água passou por cima do telhado, com perda total. Então, lançamos mão de programas de licenças remuneradas, antecipação de férias, 13º salário, banco de horas e outros auxílios, assim como outras empresas fizeram”, diz Marcelo Pinto, vice-presidente de operações.

A multinacional aportou R$ 1 milhão no apoio às famílias dos colaboradores, além de oferecer apoio psicológico. A ajuda está sendo customizada conforme as necessidades de cada um. “Vamos manter todos os trabalhadores porque precisamos da nossa gente firme e saudável para retomar”, enfatiza o executivo.

A Gerdau, com duas plantas e 3,9 mil colaboradores no Estado, também não fez cortes de pessoal. As usinas em Charqueadas e Sapucaia do Sul não sofreram impactos, porém, mais de 150 funcionários tiveram casas alagadas. A siderúrgica assumiu a construção e reforma das residências atingidas, inclusive aquelas com perda completa. Suas usinas ficaram paradas por duas semanas até ter condições de retomada, sem prejuízo ao balanço da companhia nem a produção do que abastece a indústria automobilística nacional.

“Estamos chocados, porém com garra para ajudar quem mais precisa. Agora, o restabelecimento da economia vai demandar anos e os recursos da iniciativa privada não serão suficientes. Vamos precisar de políticas públicas acertadas nos próximos anos, inclusive para evitar outras tragédias como esta”, opina o CEO da siderúrgica, Gustavo Werneck. No total, a companhia aportou R$ 25 milhões em iniciativas de recuperação do Estado, como doação de insumo para construção de pontes.

Já no Polo Petroquímico de Triunfo, 300 terceirizados foram demitidos. Outro foram colocados em férias compulsórias. O Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Petroquímicas de Porto Alegre e Triunfo (Sindipolo) informa que em todo o contingente de 5,8 mil funcionários diretos e terceiros do polo houve impacto em algum grau. A maior parte trabalha na Braskem, que doou R$ 4 mil como ajuda de custo àqueles com casas atingidas, além de oferecer apoio psicológico e antecipação da segunda parcela do 13º salário.

Ivonei Arnt, líder do sindicato, afirma que a entidade conseguiu fechar acordo com algumas terceirizadas para impedir cortes, mas com outras, não. “Alguns foram demitidos até por WhatsApp”, afirma. Embora as plantas químicas não tenham sido inundadas, a água do rio Caí cobriu a estrada, dificultando o acesso dos trabalhadores às unidades, e houve problemas de captação de água para a produção, que foi interrompida por quase um mês. Na semana passada, o rio, que serpenteia ao lado do complexo, voltou a subir.

Fonte: Valor Econômico
No Comments

Sorry, the comment form is closed at this time.