Empresas reforçam desigualdade racial de renda no país, diz Nobel

Empresas reforçam desigualdade racial de renda no país, diz Nobel

Publicado em 14 de outubro de 2021

Artigo de David Card, um dos vencedores do prêmio deste ano, analisa questão racial no Brasil.

Um dos artigos mais recentes de David Card, um dos três premiados com o Nobel de Economia 2021, trata da desigualdade racial de renda nas empresas brasileiras. O estudo conclui que as empresas exacerbam as desigualdades raciais existentes no país. Com base em indicadores do Rais (Relação Anual de Informações Sociais), o texto “Combinação sortida ou contratação excludente? O impacto das políticas empresariais nas diferenças raciais dos salários no Brasil”, em tradução livre, é assinado ao lado de outros três pesquisadores: o brasileiro Edson Severnini, François Gerard e Lorenzo Lagos, além de ser coeditado por Esther Duflo, Nobel de Economia 2019, e foi publicado na edição de outubro da “American Economic Review”.

Diante do resultado, os pesquisadores defendem amplo investimento em educação para reduzir essas disparidades de rendimentos, com foco não apenas no momento anterior à contratação mas também nos treinamentos internos das companhias no país.

O estudo aponta que esse movimento de intensificação das diferenças de rendimento por raça se dá de três maneiras: há uma espécie de “casamento” entre companhias mais produtivas e trabalhadores mais qualificados, o que faz com que seja menos provável que não brancos trabalhem em ambientes que tenham melhor remuneração, mesmo na ausência de qualquer política discriminatória de contratação. A classificação de não brancos usada no estudo inclui trabalhadores pretos e pardos. Além disso, não brancos tendem a ser alocados em empresas menos produtivas, na comparação com trabalhadores brancos com as mesmas habilidades, o que pode levá-los a receber um menor prêmio salarial nas empresas.

Pelos resultados encontrados, a diferença salarial entre homens brancos e não brancos é de 21%. Significa que brancos recebem, em média, 21% a mais que os não brancos. Entre as mulheres, esse desnível é de 25%. Quanto maior o grau de instrução, maior é a desigualdade de renda entre os grupos. Entre os homens com ensino médio incompleto, essa diferença é de apenas 6%, mas sobe para 28% nos que têm ensino superior.

Entre as mulheres, a discrepância também é elevada mesmo quando se compara as que têm menor instrução – 25% no grupo com ensino médio incompleto -, mas se torna ainda mais intensa na faixa mais instruída: 37% naquelas com ensino superior completo.

“De fato ainda há discriminação. Há diferenças na contratação entre os trabalhadores de maior grau de instrução, o que leva à defesa de que as políticas públicas devem focar mais em educação”, afirma Severnini, professor da Universidade Carnegie Mellon, na Pensilvânia (Estados Unidos), que foi orientado por Card no doutorado na Universidade de Berkeley.

Cerca de 20% da desigualdade racial de renda para ambos os gêneros seria explicada pela tendência de não brancos serem menos contratados por empresas mais produtivas. Uma parcela de outros 5% se deve, pelo estudo, ao fato de que os prêmios salariais específicos pagos pelas companhias são menores para não brancos que para brancos. Por outro lado, dois terços da subrepresentação de não brancos nas empresas mais produtivas é explicada por diferentes graus de escolaridade.

O trabalho analisou dados de trabalhadores do setor privado, já que o objetivo era avaliar a influência das políticas empresariais. O foco inicial foi a região Sudeste, mas a análise também foi ampliada para o país como um todo. Os dados se referem ao período entre 2002 e 2014.

Na conclusão do trabalho, os pesquisadores defendem a importância de ampliar os investimentos em educação, diante do hiato de formação entre brancos e não brancos junto com o que chamam de “casamento” entre companhias mais produtivas e trabalhadores mais qualificados, ou seja, a tendência de que os trabalhadores brancos trabalhem em empresas que pagam melhor, enquanto os não brancos tendem a se inserir no mercado de trabalho em companhias com menor remuneração.

“O resultado desse artigo se liga aos debates de políticas em curso em todos os países da América Latina, onde diferenças racionais nos níveis educacionais são persistentes e não brancos permanecem sub-representados em ocupações e indústrias com maior rendimento”, aponta o texto.

Fonte: Valor Econômico
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