04 ago Empréstimo Consignado CLT vale a pena? Entenda os riscos
Empréstimo Consignado CLT vale a pena? Entenda os riscos
Modalidade disponível desde março oferece juro mais baixo, mas exige cautela para evitar descontrole nas contas.
Lançado em março pelo governo federal, o Crédito do Trabalhador, conhecido como consignado CLT, divide opiniões em meio ao alto endividamento do país. De um lado, defensores afirmam que a ferramenta ajuda pessoas ao facilitar acesso a empréstimos com juro mais baixo. De outro, especialistas alertam para os cuidados na hora da contratação para fugir de juro mais elevado em alguns contratos e descontrole das contas.
Até o fim de julho, o país acumulava 4 milhões de empréstimos, concedidos a 3,1 milhões de trabalhadores, somando R$ 21 bilhões, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). No Rio Grande do Sul, eram 255,7 mil empréstimos, 196,5 mil trabalhadores e R$ 1,3 bilhão em transações. Isso tudo em apenas quatro meses de vigência.
O programa veio com a promessa de juro mais baixo. No entanto, com a falta de uma trava nas taxas, algumas financeiras oferecem com juro acima do mercado, com vem destacando a colunista Giane Guerra.
Wendy Haddad Carraro, educadora financeira e professora do curso de Ciências Contábeis e de Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), afirma que esse tipo de consignado pode ajudar a cobrir despesas urgentes que contam com taxa de juro maior. No entanto, reforça a necessidade de comparar o custo das dívidas antes de realizar o contrato.
Pode ser suficiente para, daqui a pouco, quitar uma dívida que é mais cara. Mas a gente tem que fazer a comparação de taxas. (…) É muito importante definir o valor que a gente vai pegar do consignado, evitar de pegar a margem consignável total.
WENDY HADDAD CARRARO
Educadora financeira e professora do curso de Ciências Contábeis e de Economia da UFRGS
No entanto, não pode ser encarado como uma ajuda simples e fácil, segundo a especialista. Tem de ser usado como uma alternativa de emergência para aquisição de algum item importante ou substituição de dívidas, buscando taxas menos agressivas:
— É um alerta importante que a gente tem que indicar. Isso não é uma ajuda para o trabalhador. Ele tem que ter uso de forma muito consciente. Porque, depois que entra, fica muito difícil de sair.
Comprometimento no presente e no futuro
Entre as garantias que podem ser usadas no consignado CLT estão o uso 10% do saldo do seu FGTS ou até 100% da multa rescisória. O analista de investimentos e planejador financeiro da Severo Capital, Adriano Severo, afirma que esse formato de garantia pode penalizar o trabalhador no futuro em caso de eventual demissão. Nesse sentido, avalia que a modalidade só é vantajosa na substituição de um a dívida com juro maior:
— Seria apenas para troca de dívida mais cara. Então, se tem algum outro tipo de pendência, que conta com juro maior, aí sim faz sentido fazer esse empréstimo para diminuir a dívida.
Em caso de demissão, além de poder pegar até 100% da multa rescisória para cobrir esse valor, ainda pode utilizar parte do saldo do FGTS. Então, é algo que está comprometendo tanto o dinheiro de um uso mais imediato quanto uma rescisão ou um FGTS, pensando lá na frente, no futuro.
ADRIANO SEVERO
Planejador financeiro da Severo Capital
Severo destaca que a margem consignável de até 35% demanda atenção, porque significa poder comprometer mais de um terço do salário com uma dívida descontada em folha.
— Até com relação a trabalhadores de aplicativo, onde o limite é menor, eu entendo que o risco até pode ser maior, dependendo da situação. Porque o trabalhador de aplicativo não pode ultrapassar 30% do que recebe, mas trânsito é uma coisa muito delicada. Ele pode sofrer algum acidente, ter alguma questão do carro, do veículo estragar e ficar sem poder rodar. Então, pode acabar comprometendo muito o pagamento — complementa Severo.
Uso na aquisição de imóvel
Com o aumento do endividamento no processo de compra da casa própria, buscar o crédito consignado pode ser tentador diante da maior facilidade de aprovação e taxas mais atrativas. No entanto, se for usado de forma errada, esse tipo de empréstimo pode criar uma bola de neve no endividamento.
A professora Wendy Haddad Carraro afirma que o uso do consignado para compor o valor de entrada do imóvel, por exemplo, pode criar um problema duplo ao trabalhador:
— Isso é um grande perigo, porque, embora possa parecer uma saída fácil, tomar um consignado para pagar a entrada de um financiamento significa que eu estou começando duas dívidas ao mesmo tempo e isso é bastante arriscado.
Dicas para evitar problemas com o consignado
- Coloque todos os gastos fixos e eventuais na ponta do lápis. Ter clareza do orçamento e dos gastos mensais ajuda a definir o quanto pode comprometer com consignado.
- Antes de contratar o consignado, analise como está sua situação na empresa para ter mais segurança na hora de contratar um empréstimo no qual a maior garantia é seu vínculo.
- Priorize usar esse tipo de empréstimo para substituição de dívidas mais caras.
- Defina o valor exato a ser pego sem extrapolar. É importante não pegar o total da margem consignável, comprometendo mais de um terço da renda.
- Defina o direcionamento dos gastos para garantir que o dinheiro seja usado exatamente para o fim planejado.
- Tenha clareza de que o desconto é direto na folha de pagamento, impactando diretamente no planejamento orçamentário. Organização nesse ponto é fundamental, porque renegociar dívidas desse tipo, muitas vezes, é complicado.
Fonte: Wendy Haddad Carraro, educadora financeira e professora do curso de Ciências Contábeis e de Economia da UFRGS e analista de investimentos e planejador financeiro da Severo Capital, Adriano Severo
O Consignado CLT
Quem tem direito?
Trabalhadores com carteira assinada, incluindo empregados de MEI, rurais e domésticos, desde que não tenham outro consignado vinculado ao mesmo vínculo de emprego. Ao ser aprovado pelo Congresso e sancionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o benefício também foi estendido a motoristas de aplicativo.
Como acessar?
Simulações e contratos de empréstimos podem ser realizados por meio do app da Carteira de Trabalho Digital (CTPS Digital). O trabalhador pode fazer apenas um empréstimo por vínculo empregatício. Pessoas com dois vínculos podem fazer dois.
Qual a margem consignável
O trabalhador poderá usar até 35% do salário para pagar as prestações do empréstimo.
Como as parcelas são cobradas?
As parcelas são descontadas na folha de pagamento do trabalhador.
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