30 mar Entidades defendem flexibilização da jornada de trabalho e aumento de renda via encargos
Entidades defendem flexibilização da jornada de trabalho e aumento de renda via encargos
Publicado em 30 de março de 2026
Em meio à crescente pressão por mudanças na jornada de trabalho no Brasil – especialmente com propostas que buscam reduzir a carga semanal e rever modelos como a escala 6×1 – um bloco de entidades empresariais gaúchas decidiu entrar no debate com uma agenda própria. O chamado Manifesto pela Liberdade na Jornada com Renda propõe uma combinação de flexibilização da jornada com aumento de renda, a partir da redistribuição de encargos sobre a folha de pagamento.
O documento é assinado por entidades como Federasul, CDL Porto Alegre, Federação Varejista do RS, Sindilojas Porto Alegre, Federação AGV, Agas, Sescon-RS e Setcergs. Além delas, pelo menos outras 63 organizações do Estado já aderiram ao texto, que busca influenciar a discussão em curso no Congresso Nacional.
A iniciativa surge em um momento em que ganha força no debate público e político a proposta de redução da jornada semanal, com o possível fim da escala 6×1. No Congresso, a principal aposta do governo de Luiz Inácio Lula da Silva é a PEC 148/2015, que prevê a redução da carga horária para 36 horas semanais – embora haja, nos bastidores, discussões sobre uma convergência para 40 horas – e já está pronta para análise no plenário do Senado.
Mas, conforme o vice-presidente jurídico da Federasul, Milton Terra Machado, o manifesto não é uma reação contrária ao debate, e sim uma tentativa de qualificá-lo. “O objetivo é trazer o tema à tona para que toda a sociedade participe do debate, que não pode ser simplificado. Uma eventual redução de jornada precisa estar baseada em premissas claras, como ganhos de produtividade e viabilidade econômica”, afirma.
Segundo ele, a principal preocupação é com os efeitos práticos de uma mudança uniforme. “Há setores que já operam em modelos de jornada menores, como escritórios de advocacia ou clínicas médicas, e tendem a se adaptar melhor. Já outros, como comércio e pequenos negócios, dependem do funcionamento aos sábados e teriam dificuldades”, defende.
Essa preocupação também aparece no texto do manifesto, que relaciona a discussão da jornada à estrutura de custos da economia: “Precisamos enfrentar os encargos abusivos sobre a folha de pagamento, para a que redução de jornada não se transforme em mais trabalho para complementar a renda que falta nas famílias”.
Na avaliação das entidades, propostas que reduzem a jornada padrão sem alterar essa estrutura podem acabar gerando efeitos colaterais. “Na prática, isso pode levar ao pagamento de mais horas extras, sem necessariamente reduzir os dias trabalhados”, aponta Machado.
A defesa de soluções setoriais, com maior espaço para negociação, aparece como um dos eixos centrais do manifesto. A ideia é evitar mudanças constitucionais que estabeleçam um modelo único para toda a economia. No documento, essa lógica é resumida na defesa de que trabalhadores “precisam ter o direito de negociar quantas horas querem trabalhar por semana”.
Bloco pede incorporação de encargos trabalhistas diretamente aos salários
Outro ponto-chave do documento é a proposta de incorporar parte dos encargos trabalhistas diretamente aos salários. Hoje, segundo Machado, a soma das contribuições previdenciárias de empregados e empregadores pode se aproximar de 50% da remuneração.
No manifesto, a proposta é explicitada com números. As entidades defendem “incorporar 30% dos encargos da folha de pagamento diretamente como aumento dos salários dos trabalhadores” , o que, segundo o texto, poderia elevar a renda líquida sem aumentar o custo total das empresas.
Como exemplo, o documento afirma que um trabalhador que hoje recebe R$ 2.400 líquidos poderia passar a receber R$ 3.120 mensais “nas mesmas 44 horas semanais, com mais renda por hora trabalhada e maior liberdade para ajustar a jornada conforme o setor”.
A lógica defendida pelas entidades é que, ao reduzir o peso dos encargos e permitir maior flexibilidade, seria possível elevar a renda sem pressionar o custo empresarial. O argumento, no entanto, está diretamente condicionado a uma reestruturação do gasto público – ponto central do manifesto, que cobra uma reforma administrativa e maior eficiência da União.
“Estamos carregando por tempo demais um Estado pesado e ineficiente”, diz o documento, ao defender que o governo federal “precisa fazer o dever de casa, buscando recursos públicos pela reforma administrativa, corte de excessos e melhora da sua eficiência”.
No campo das relações de trabalho, o bloco aposta na negociação coletiva como instrumento para equilibrar interesses. “A ideia é que isso ocorra por meio de acordos coletivos, com participação dos sindicatos, como já acontece em diversos temas trabalhistas. Cada setor teria autonomia para definir o que é viável, considerando suas particularidades”, afirma Machado.
A preocupação com segurança econômica e preservação de empregos aparece como pano de fundo da proposta. Nesse sentido, para o dirigente, mudanças feitas sem análise técnica podem produzir o efeito inverso ao desejado.
“A intenção de melhorar as condições de trabalho é legítima, mas é preciso avaliar os impactos reais sobre emprego, produtividade e sustentabilidade dos negócios. Se uma medida inviabiliza empresas, especialmente as pequenas, o resultado pode ser o aumento do desemprego”, diz.
Com a adesão crescente de entidades, o movimento busca ganhar tração política: “O manifesto já reúne associações comerciais e industriais, e o objetivo é dialogar com deputados e senadores para que o tema avance”, finaliza o vice-presidente jurídico da Federasul.
Fonte: Jornal do Comércio
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