Escassez de talentos faz companhias investirem em qualificação

Escassez de talentos faz companhias investirem em qualificação

Publicado em 29 de maio de 2023

Com dificuldade para recrutar fora, cresce preparação de funcionários para a liderança.

Um sinal amarelo acendeu nas diretorias das grandes empresas. Desde que a escassez de profissionais qualificados escalou nos últimos anos, elas se movimentam para formar especialistas em suas equipes. A intenção, para não travar projetos de expansão, é depender menos das opções de currículos do mercado e investir mais na “prata da casa”, principalmente para cargos de liderança.

Uma pesquisa realizada no Brasil, Argentina e México pela gigante de tecnologia Salesforce em parceria com a Morning Consult, de inteligência de dados, indica que 13% das companhias locais já recusaram contratos por falta de talentos, enquanto 90% das empresas ouvidas esperam que seus parceiros de negócios tomem medidas para treinar mais pessoal. “A ausência de profissionais capacitados afeta a quantidade, a qualidade e os prazos dos trabalhos, gerando efeitos negativos para organizações e funcionários, como o aumento da carga de tarefas, horas extras e a necessidade de promover pessoas sem qualificação para funções com maiores exigências”, diz Thatiana Papaiz, diretora de desenvolvimento de práticas de parceiros para a América Latina da Salesforce, baseada em São Paulo (SP).

O estudo ouviu 498 executivos, de vários níveis hierárquicos, inclusive vice-presidentes, de empresas de diversos setores e tamanhos. No Brasil, 12% das empresas analisadas foram obrigadas a encerrar temporariamente algumas operações por falta de currículos. “As companhias brasileiras já percebem que quanto mais a força de trabalho amplia conhecimentos, mais eficiência ganha na execução de projetos complexos.”

Márcia Costa: “Universalizar o saneamento passa pela evolução de profissionais” — Foto: Gabriel Reis/Valor

Segundo o levantamento da Salesforce, habilidades ligadas à tecnologia da informação e comunicação (45%) e trabalho em equipe (44%) ocupam o topo da lista de prioridades para o aprimoramento dos quadros. “Capacitação gera oportunidades de negócios”, diz Papaiz.

É com essa premissa que a Aegea Saneamento, companhia de saneamento privado, tem acelerado ações de qualificações para a liderança. A necessidade aparece nos números de expansão: o serviço da empresa, de 12 mil funcionários, foi ampliado de 6 municípios em 2 estados, em 2010; para 171 cidades em 13 unidades federativas, em 2023. “O maior desafio não se restringe a [ocupar] uma vaga específica, mas desenvolver o funcionário no universo do setor [de infraestrutura]”, explica Márcia Costa, vice-presidente de gestão de pessoas da Aegea Saneamento. Nessa linha, foi criada uma “academia” de capacitação que oferece MBA e graduação em saneamento. Entre os empregados, 18% possuem ensino superior, completo ou em curso, em áreas como engenharia, RH e inovação.

Na academia, as aulas sobre liderança e competências técnicas, ligadas à gestão de concessões, não pararam nem durante a pandemia. Entre janeiro e dezembro de 2022, foram 194 mil acessos, com mais de 333 mil horas de treinamentos, sendo 80% no modelo on-line, detalha a executiva.

Em 2022, a unidade iniciou um programa chamado “Evoluir”, exclusivo para chefias e centrado nas demandas de universalização do saneamento e de ofertas de serviços. “Mais de 200 gestores estão sendo capacitados em treinamentos presenciais, entre diretores e gerentes. No segundo semestre, faremos a mesma jornada com coordenadores e supervisores”, diz.

Um ano antes, o treinamento dos líderes ganhou reforço com a oferta de um MBA em saneamento, desenvolvido com a Fundação Getulio Vargas (FGV) do Rio de Janeiro, para 35 funcionários. A empresa também investiu em um curso de graduação a distancia em gerenciamento com ênfase em saneamento, em parceria com o Centro Universitário de Jaguariúna (UniFAJ). A turma de 44 alunos foi indicada pelos superiores diretos e 75% deles já foram promovidos, para gerentes ou coordenadores. “O desafio de universalizar o saneamento, que ainda sofre com números [negativos] alarmantes, passa pela evolução de profissionais que compreendam as peculiaridades do setor e a realidade do país”, justifica.

Na Nestlé, uma das novidades é um programa piloto de preparação de chefias que começou em 2022 e envolveu 20 lideranças, entre diretores e gerentes executivos, cada um representando uma área da companhia, como fábricas, vendas e distribuição. Conhecido como Líder 360, o treinamento de três dias inclui conteúdos sobre autoconhecimento, gestão de pessoas e de negócios.

“Valorizamos as equipes e os caminhos que percorrem para assumir cargos estratégicos”, diz Izabel Azevedo, diretora da área de talento e cultura na Nestlé. “A maior parte das vagas de alta gestão é ocupada por nomes da empresa, amparados por planos de carreira e sucessão”. A preocupação com a formação de mais líderes não é de graça.

Levantamento da Gi Group Holding, multinacional italiana de soluções para o mercado de trabalho, aponta que o Brasil é um dos países mais propensos a implementar novas tecnologias da indústria 4.0 nos próximos anos – mas é o que mais sofre com a insuficiência de currículos especializados. O estudo descobriu que 88% das indústrias brasileiras têm dificuldade de encontrar mão de obra qualificada, índice superior à média global (66%). O relatório “Tendências globais de RH no setor de manufatura 2023” ouviu 240 tomadores de decisão, entre gerentes de fábricas e de produção, em seis países (Brasil, China, Alemanha, Itália, Polônia e Reino Unido).

De acordo com Azevedo, da Nestlé, o plano é realizar mais duas turmas do Líder 360 este ano, em junho e setembro, com 25 chefias em cada mês. “Esperamos que as lideranças transformem o treinamento em prática. Isso significa trazer mais inovação para o negócio e promover um ambiente de trabalho que possa extrair o melhor da equipe.”

A Nestlé anunciou em março que vai investir R$ 2,5 bilhões este ano no Brasil, seu terceiro maior mercado, atrás de Estados Unidos e China. O valor é quase o dobro do aplicado em 2021 e deve irrigar as operações de alimentos para cães e gatos, além de chocolates, biscoitos, lácteos e cafés.

Formar talentos “dentro de casa” é algo que vale a pena, segundo consultores de RH ouvidos pelo Valor. Dependendo do profissional procurado, o garimpo de currículos no mercado pode levar até um mês e a média de aumento salarial oferecido pelas empresas para laçar candidatos empregados pode variar de 20% a 35%, de acordo com a demanda. “Este ano, as áreas financeira e comercial ganharam destaque e geraram mais dificuldades para preencher vagas”, explica Cadu Altona, sócio fundador da EXEC, consultoria especializada em recrutamento de executivos. A empresa realiza cerca de 250 contratações ao ano, para níveis de gestão e conselhos.

Fonte: Valor Econômico
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