05 maio Escolaridade e pandemia no mercado de trabalho
Escolaridade e pandemia no mercado de trabalho
Os menos educados perderam mais empregos e os mais educados perderam mais em rendimentos.
O Brasil é conhecido pelas desigualdades de todos os tipos encontradas no país. Nos últimos meses preparamos três artigos publicados no Valor Econômico mostrando como a pandemia da covid 19 atingiu diferenciadamente a população ao longo dos últimos dois anos. Os jovens, os pretos/pardos e as mulheres foram, em geral, mais prejudicados no mercado de trabalho do que os adultos, os brancos e os homens, respectivamente. Neste quarto e último artigo sobre o tema será analisada a questão do impacto da pandemia segundo o nível de escolaridade dos trabalhadores.
A questão da baixa escolaridade é um dos maiores entraves no mercado de trabalho brasileiro. Em geral, o nível médio de instrução da força de trabalho é baixo comparativamente ao padrão internacional, contribuindo para a redução da produtividade da economia. Além disso, os desníveis de escolaridade da população ocupada representam um fator adicional para a má distribuição da renda do trabalho e, consequentemente, para as desigualdades de renda em geral.
Os menos educados perderam mais empregos e os mais educados perderam mais em rendimentos.
Num momento de crise econômica é de se esperar que os trabalhadores menos escolarizados sofram mais que os demais, estando mais sujeitos a demissões e ao desemprego. Por outro lado, seu retorno ao mercado de trabalho no período de recuperação da atividade deve apresentar mais dificuldades. Será que isso ocorreu durante a pandemia? É exatamente essa e outras questões relacionadas que pretendemos abordar neste artigo a partir dos dados da Pnad Contínua do IBGE.
Para desenvolver a análise escolhemos três momentos – o último trimestre antes do início da pandemia (4T/2019); o terceiro trimestre de 2020 (3T/2020), que representa o ponto de maior intensidade dos efeitos da crise; e o último trimestre de 2021 (4T/2021) quando a economia praticamente retorna aos níveis pré-pandêmicos. Para facilitar a análise dos resultados escolhemos três níveis de escolaridade – fundamental incompleto; médio completo; e superior completo. Tais grupos representavam, no final de 2021, 23%, 34%, e 21% da população ocupada, respectivamente. Ou seja, pouco menos de 80% dos ocupados.

No auge da crise (3T/2020), os menos escolarizados haviam perdido 17% dos postos de trabalho, enquanto o grupo de ensino médio completo havia sido reduzido em 15% e os com o superior completo, 7%. Tomando em conta o período de recuperação, nota-se que no final de 2021 (4T/2021) os trabalhadores com o fundamental incompleto ainda se encontravam 2,5% abaixo do nível de emprego de 4T/2019, enquanto aqueles com o médio completo estavam 0,8% abaixo e os de nível superior haviam voltado ao nível pré-crise (0,5% acima). Portanto, confirma-se que os menos escolarizados teriam sido mais atingidos com a perda do emprego no período da crise assim como na recuperação.
A situação mais precária dos menos escolarizados pode ainda ser confirmada, por exemplo, com os dados de informalidade no mercado de trabalho. Eles mostram que as taxas de informalidade são muito mais elevadas para os menos escolarizados. No último trimestre antes da pandemia (4T/2019), tais taxas atingiam 62% para aqueles com fundamental incompleto, 35% para o médio completo e 22% para o superior completo. Após terem caído no auge da crise – diferentemente de outras crises o setor informal foi mais atingido que o formal na crise da pandemia -, as taxas de informalidade voltaram a subir e encontravam-se, no final de 2021, pouco acima do nível inicial pré-crise para os três grupos de escolaridade – 63%, 37% e 23%, respectivamente.
Os dados de desemprego são ilustrativos da situação precária dos grupos de escolaridade média e baixa. Uma característica do mercado de trabalho brasileiro são as taxas de desemprego mais elevadas para os níveis intermediários de escolaridade, que apresentam o formato da letra U invertida. Isso também foi confirmado durante a pandemia. Em 4T/2019, as taxas de desemprego eram respectivamente 10,6% para os menos escolarizados, 12,2% para aqueles com ensino médio completo e 5,6% no superior completo. Os três grupos sofreram forte impacto com grande aumento do desemprego no auge da crise. Em 4T/2021, os dois primeiros grupos ainda possuíam taxas de desemprego mais elevadas do que no período pré-crise – 10,9% e 12,6% -, enquanto aqueles com o superior completo haviam se recuperado e caído para 5,2%, mostrando o maior prejuízo dos dois grupos de menor escolaridade.
A Pnad Contínua permite ainda a análise de diversas estatísticas do mercado de trabalho usualmente menos utilizadas, mostrando a situação mais precária dos trabalhadores menos escolarizados como no desalento, na subocupação por insuficiência de horas de trabalho e na subutilização total da força de trabalho. Qualquer que seja a variável considerada a situação dos menos escolarizados se mostra sistematicamente pior do que a dos mais escolarizados antes, durante e no final do período.
Passando-se à análise do rendimento médio, as diferenças são grandes entre os distintos níveis de escolaridade. No final de 2019, antes da crise, ter concluído o ensino médio permitia ganhar o dobro daqueles que não tinham concluído o ensino fundamental e quase cinco vezes mais na comparação com o ensino superior completo. Mas foi o grupo intermediário o que mais perdeu. Em 4T/2021, seu rendimento médio real foi 12% menor do que seu nível dois anos antes. Já no caso dos menos instruídos a queda foi de 6%. Surpreendentemente, os mais instruídos foram aqueles que experimentaram o maior declínio (-15%).
Diferentemente dos três artigos anteriores dos autores (segundo a idade, a cor da pele e o sexo), onde as categorias mais desfavorecidas no mercado de trabalho (jovens, não brancos e mulheres) sofreram mais ao longo da pandemia, a situação é mais complexa segundo o nível de escolaridade. Os menos educados perderam mais empregos, mas os mais educados são os que perderam mais em termos de rendimento. O choque foi mais forte para os primeiros, e em contrapartida a fase de recuperação mais rápida. Finalmente, todas classes de educação foram atingidas pela crise da covid e o diploma não foi suficiente para proteger seus titulares. Enquanto isso, as desigualdades permaneceram elevadas.
João Saboia é professor emérito do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE/UFRJ), e-mail: saboia@ie.ufrj.br.
François Roubaud e Mireille Razafindrakoto são pesquisadores sênior do Institut de Recherche pour le Développement (IRD) de Paris e pesquisadores visitantes do IE/UFRJ.
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