Estudos questionam melhora do mercado de trabalho

Estudos questionam melhora do mercado de trabalho

Publicado em 20 de junho de 2023

A existência de 67,2 milhões de pessoas fora do mercado de trabalho é um indicador preocupante.

Os dados positivos do mercado de trabalho vêm contrariando as previsões de deterioração neste início de ano e intrigam os especialistas. A mais recente taxa de desemprego informada pelo IBGE, referente ao trimestre móvel terminado em abril, ficou em 8,5%, o menor percentual desde os 8,4% de junho de 2015. É bem verdade que a economia também cresceu acima do esperado neste início de ano. O Produto Interno Bruto (PIB) surpreendeu com aumento de 1,9% no primeiro trimestre na comparação com os três meses anteriores. Mas ele foi puxado pela arrancada de 21,6% da agropecuária, que emprega pouca mão de obra, responsável pela geração de apenas 3,2% das vagas criadas em 2022. Enquanto isso, o setor de serviços, o maior empregador, com quase 60% do total, cresceu apenas 0,6%; e a indústria encolheu 0,1%.

Dois novos estudos lançam uma luz sobre esse quadro. Um deles, do FGV Ibre, mostra a redução da taxa de participação no mercado, liderada por jovens, menos escolarizados e de baixa renda. O outro, da LCA, detalha que a maioria dos que deixaram a força de trabalho recebiam algum benefício do governo. A elevação do Auxílio Brasil em 2022, renomeado de Bolsa Família neste ano, teria influenciado os que deixaram de procurar emprego.

Segundo o FGV Ibre (Valor, 12/6), a queda na taxa de participação no mercado de trabalho observada desde o último trimestre de 2022 pode estar atrapalhando as análises e sugerindo uma melhora que não está ocorrendo em realidade. A taxa de participação mostra quanto da população em idade de trabalhar, ou seja, da força de trabalho, está ocupada ou buscando emprego.

Depois do pico de 63,8% em 2019, a taxa de participação foi de 63,4% antes da pandemia, em fevereiro de 2020, e despencou para 56,7% no trimestre terminado em julho daquele ano, quando muitos desistiram de procurar emprego pela certeza de que não encontrariam em consequência do isolamento social. A taxa se recuperou com a flexibilização do distanciamento, com a retomada dos serviços presenciais, que emprega mais mão de obra, e atingiu 62,7% em setembro de 2022. Mas, voltou a cair desde então, e marcou 61,4% no trimestre móvel terminado em abril.

A queda na taxa de participação pode indicar taxa de desemprego menor sem que o mercado esteja efetivamente melhor caso o número de pessoas ocupadas esteja estável e diminua o percentual dos que buscam emprego. Pode ser o que está acontecendo agora, de acordo com os pesquisadores do FGV Ibre. Se a taxa de participação estivesse no patamar médio verificado em 2018 a 2019, de 63,4%, com 3,4 milhões de trabalhadores buscando trabalho, o desemprego seria, na verdade, de 11,4%.

Para reforçar argumento, os especialistas do FGV Ibre chamam a atenção para a queda do nível de ocupação, medido pela relação entre a população ocupada e a em idade de trabalhar. O nível de ocupação está em queda desde o terceiro trimestre de 2022, quando estava em 57,2%. O pico dessa taxa é de 58,5%, registrado em 2013. Durante a pandemia, chegou a cair para 48,5% entre junho e agosto de 2020.

Na pesquisa da FGV Ibre, as pessoas de baixa escolaridade e de faixas de renda menor foram as que mais deixaram o mercado. A saída mais intensa desses grupos, registrada principalmente a partir do fim de 2022, pode estar ligada ao aumento do valor real do Bolsa Família, apontam.

A suspeita é reforçada pelo estudo da LCA. Avaliando dados da Pnad Contínua Anual 2022, a LCA constatou que três em cada dez pessoas que deixaram a força de trabalho em 2022 recebiam o Auxílio Brasil, quatro tinham aposentadoria ou BPC/Loas, e outros três não recebiam outro tipo de rendimento. Para a consultoria, o aumento do Auxílio Brasil às vésperas das eleições e os registros irregulares feito às pressas no Cadastro Único estimularam a saída do mercado de trabalho. Isso ficou evidente na explosão do número das famílias unipessoais.

Pode estar relacionado a esse fenômeno o aumento do percentual dos jovens que nem estudam nem trabalham, verificado recentemente. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua Educação 2022 do IBGE mostram que 20% dos jovens entre 15 e 29 anos está fora da sala de aula e do mercado de trabalho, ou seja, 9,8 milhões do total de 49 milhões de jovens dessa faixa etária.

Há também especialistas que veem na demografia a explicação para esse quadro em que a demanda por emprego não cresceu como costuma ocorrer em início de ano, ao mesmo tempo em que houve estabilidade no número de desempregados, aumento da população fora da força de trabalho e queda no número de desalentados – aqueles que nem procuram vaga porque acham que não terão sucesso.

Os próximos meses deverão fornecer mais informações que vão contribuir para esclarecer o quadro. A existência de 67,2 milhões de pessoas fora do mercado de trabalho é um indicador preocupante: são 38,5% do total de 174,4 milhões da força de trabalho. A situação tem repercussões na educação e na produtividade. O diagnóstico correto pode levar também à melhor calibragem dos programas de benefícios à população.

Fonte: Valor Econômico
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