Excesso de vigilância reduz produtividade

Excesso de vigilância reduz produtividade

Publicado em 1 de julho de 2021

Especialistas recomendam substituir autoridade por confiança no home office.

Um dos aprendizados do home office para a gestão de pessoas foi que trabalhar de casa não supõe estar disponível dia e noite para a empresa. E, igualmente importante, a tecnologia não deve ser usada como uma espiã que invade o espaço do colaborador para controlar, por exemplo, a carga de trabalho.

Depois que a pandemia impossibilitou o convívio presencial nos escritórios, novas regras tiveram de ser criadas para nortear as relações de trabalho. Mais do que suscitar escaramuças e queixas, os excessos – vigilância e demandas abusivas passaram a desmotivar e ameaçar a produtividade.

Muitas empresas arregaçaram as mangas para dar orientações de boas práticas no teletrabalho e, grandes ou pequenas, em sua maioria resgataram limites importantes como horário de almoço, férias e fim de semana livre.

Segundo Márcio Camargo, consultor do Great Place to Work e coordenador do curso de liderança de gestão de pessoas da Fundação Vanzolini, o atributo confiança deve substituir a autoridade no trabalho remoto. “As lideranças precisam se preocupar em manter uma conexão emocional empática com os times, estabelecer contato diário para expressar sentimentos e focar no resultado, não na jornada de trabalho”, explica. Para tanto, a mudança de atitude requer mais do que nunca habilidades de soft skills.

Em termos práticos, na Itausa, onde hoje cerca de cem funcionários da holding trabalham remotamente, isso significa “tratar o adulto como adulto”, resume Claudia Meirelles, head de RH. Rejeitando ferramentas de comando-controle, como os softwares espiões, ela avalia que “onde já havia dificuldade para gerir equipes no presencial, a situação se agravou no home office”. Para restabelecer a harmonia, orienta, “é preciso investir em comunicação, organizar a governança da equipe de acordo com o perfil e o momento de cada um, estar atento à ergonomia e restabelecer rituais para desestressar, como as datas especiais”.

Na Willis Towers Watson, empresa de consultoria global com 850 funcionários em todo o país, as medidas para refrear os excessos, depois de uma escuta atenta dos trabalhadores, levaram ao bloqueio da agenda dos colaboradores nos horários indevidos. “Não se marcam mais reuniões fora do expediente”, explica Nancy Quintela, responsável pelo RH. E mais: “elas devem ter pelo menos dez minutos de intervalo entre uma e outra, para permitir uma pausa”.

Na Atento, empresa de contact center com 70 mil funcionários no Brasil, no manual de home office, a orientação também é trabalhar respeitando intervalos e o horário de almoço. “Combine e realize reuniões virtuais periódicas entre os integrantes da equipe, mas não se esqueça: não convoque uma pessoa para uma chamada de vídeo sem avisar com antecedência”, lê-se ainda na cartilha.

Segundo Aline Cata Preta, gerente de talent acquisition global na empresa, a mensageria interna, que permite ver quem está conectado e a partir disso fazer novas demandas, deve ser usada com muito critério: “Não se deve normatizar os excessos”, afirma, explicando que recorrer às pesquisas de pulso, anônimas, que permitem levantar expectativas e identificar ruídos pode ser uma boa opção.

Segundo Sergio Caliani, diretor de RH da Invillia, empresa de tecnologia que conta com mais de 800 colaboradores conectados em sete países, por mais que as ferramentas digitais facilitem o trabalho remoto, há algumas que “dão a sensação à pessoa de estar sendo vigiada”. É o caso das câmeras abertas, recurso que mais provocou reclamações no meio. “Por isso, na Invillia, ela não é obrigatória e, em seu lugar, orientamos trabalhar por entrega, dentro de um clima de sinergia.”

Fonte: Valor Econômico
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