Exclusiva: ‘Foi uma falha dolorosa; deveríamos ter sido mais diligentes’, diz Maurício Salton

Exclusiva: ‘Foi uma falha dolorosa; deveríamos ter sido mais diligentes’, diz Maurício Salton

Publicado em 13 de março de 2023

Em entrevista exclusiva ao Valor, o presidente da vinícola centenária gaúcha conta sobre os impactos vistos na repercussão do caso de trabalho análoga à escravidão de um fornecedor e as medidas que passarão a adotar daqui em diante.

Na quinta-feira (9), Maurício Salton, presidente da vinícola centenária Salton, e membro da quarta geração da família fundadora, passou 10 horas ao lado de representantes do Ministério Público do Trabalho e de outras duas companhias do mesmo setor, a Aurora e a Cooperativa Garibaldi, discutindo termos de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC). No acordo, divulgado nesta manhã de sexta (10), elas se comprometeram a pagar indenizações de
R$ 7 milhões para reparar danos de trabalho análogo à escravidão e aplicar mudanças em suas políticas de contratação e fiscalização da cadeia de fornecimento.

Logo após a notícia, Maurício Salton falou ao Valor com exclusividade sobre como a empresa vem enfrentando a situação, os impactos do caso nas vendas e reputação da companhia e deu detalhes dos próximos passos para evitar que casos do tipo se repitam. Esta é a primeira vez, desde a eclosão do caso, que um empresário de uma das três vinícolas fala à imprensa — até agora, a comunicação havia sido feita pelas empresas por meio de comunicados e cartas.

“Sabemos do nosso dever, sabemos que temos um dever moral com essas pessoas. Sabemos que temos que reparar os danos. Colocamos nesse acordo (TAC) nossos compromissos para trabalhar em cima da cadeia produtiva. Também reiteramos nossa intenção e nosso compromisso para nos tornarmos uma empresa que promova práticas cada vez melhores e demonstre integridade”, afirma o executivo, que está à frente da companhia desde maio de 2018.

As três vinícolas estão envolvidas em um escândalo revelado no dia 22 de fevereiro, quando mais de 200 trabalhadores contratados pela terceirizada Fênix Serviços Administrativos para ajudar nas atividades do período de colheita de uvas em Bento Gonçalves (RS), foram resgatados de um alojamento em condições precárias. As denúncias, depoimentos e averiguações no local deixaram claro que eram típicos casos de trabalho análogo à escravidão.

Quando perguntado se a empresa admite a responsabilidade social com o ocorrido, ele diz que sim, que a empresa não se omitiu da culpa e que vai trabalhar para que seja um episódio isolado em sua história. “Ocorreu uma falha; deveríamos ter sido mais diligentes. Vamos trabalhar para corrigir isso, honrar o compromisso”, diz Maurício.

Diante da ampla repercussão negativa sobre o caso, Maurício admite que poderá revisar a expectativa de faturamento do ano, prevendo que perca vendas. Mas adiciona que o maior impacto negativo, a seu ver, é a “mancha” na reputação da empresa familiar, fundada há 112 anos.

Valor: Nunca houve denúncia nem desconfiança de que o trabalho análogo à escravidão ou outras irregularidades acontecia?

Salton: Este foi o terceiro ano que contratamos a Fênix e tínhamos 14 trabalhadores prestando serviço de descarga de uvas nesta época de colheita de safra. Não desconfiávamos porque nunca tivemos ocorrência do tipo, nem nenhuma denúncia em nossos canais de denúncia que são abertos a qualquer um que queira fazer manifestações. Nos pegou de surpresa. Era uma empresa que atuava já há 10 anos em Bento Gonçalves. Mesmo sendo uma empresa de que tínhamos referências positivas, deveríamos ter sido mais diligentes no processo de contratação. Não é porque a empresa é de Bento , que deveríamos ter confiado em sua boa fé. Deveríamos ter sido mais diligentes.

Valor: Não tinham um sistema eficaz de monitoramento da cadeia?

Salton: Toda essa etapa de diligência legal para contratação a empresa cumpria, como registro dos trabalhadores, se a companhia tem capital suficiente, entre outros critérios que já tínhamos. Mas acabamos não sendo mais diligentes em conhecer o alojamento, as condições de trabalho, alimentação, salubridade, outros quesitos. Agora vamos adotar compromissos de realizar auditorias junto a prestadores de serviço. Já apresentamos para as entidades que nos procuraram um planejamento do cronograma de melhorias, que envolve auditorias para controle da cadeia, inclusive dos produtores de uva, e outros compromissos que se relacionam ao TAC.

Valor: Na nota divulgada nesta sexta sobre o TAC, vocês citam que não houve omissão sobre o fato, mas deixam claro que o acordo “não significa e não deve ser interpretado como assunção de culpa ou qualquer responsabilidade por parte das vinícolas pelas irregularidades constatadas na fornecedora”. Muitas pessoas criticaram a falta de comunicação de vocês sobre a responsabilidade com a cadeia. Você admite que a Salton tem responsabilidade solidária com o fato?

Salton: O termo de assunção de culpa e responsabilidade foi escrito pelo Ministério Público do Trabalho. Não tentamos, em nenhum momento, nos omitir do compromisso. Sabemos do nosso dever, sabemos que temos um dever moral com essas pessoas. Sabemos que temos que reparar os danos. Colocamos nesse acordo (TAC) nossos compromissos para trabalhar em cima da cadeia produtiva. Também reiteramos nossa intenção e nosso compromisso para nos tornarmos uma empresa que promova práticas cada vez melhores e demonstre integridade. Temos que demonstrar isso colocando em prática novas ações.

Valor: Vocês já haviam contratado uma consultoria de práticas ESG para mudar processos e estratégias internas e, é sabido que o cuidado com a cadeia de fornecedores é um ponto sensível nas relações de trabalho. Por que ações de controle da cadeia ainda não haviam sido implantadas?

Salton: A gente vem evoluindo nas boas práticas ESG nos últimos cinco anos, buscando parcerias e assessorias especializadas para tratar de diversos temas. É algo que está sempre em construção e desenvolvimento. Não somos senhores da razão e palavra. A Salton está disposta a aprender e construir trabalhos desse tipo. Vínhamos focando no aspecto ambiental, tínhamos frente muito interessantes na parte social que vínhamos desenvolvendo com parcerias. Na parte de governança, a consultoria nos ajudou a fazer uma revisão estratégica e a montar um planejamento estratégico. Fizemos uma auditoria de ESG na empresa, foram elencadas as fragilidades, as condições de melhoria em segurança de trabalho, e essa etapa terminou justamente no fim do ano passado. Este ano demos início à implementação das mudanças. Se tivéssemos feito um ano antes, talvez não estaríamos passando por esse pesadelo.

Valor: Daqui pra frente, o que farão para que o caso não se repita?

Salton: Zelar pelos compromissos assinados com o Ministério Público, reparar os danos causados aos trabalhadores e nos tornar uma empresa cada vez melhor. Não vamos fazer vista grossa diante dessa situação. Vamos assumir sim o compromisso e trazer para o nosso setor práticas que transformem nossa cadeia produtiva.

Valor: Em termos práticos, que tipo de processo deve mudar para contratação de fornecedores?

Salton: Para fornecedores vamos trabalhar em diversas frentes. Uma delas é o compromisso de verificação de alojamentos, alimentação, se os trabalhadores têm água fresca, se não estão trabalhando além do regime de horas legal. Vamos contratar uma auditoria externa para ajudar com isso. Isso para todos os fornecedores, inclusive produtores de uva. Nesta segunda (13), em nossa reunião anual com os principais fornecedores, quando falarmos dos resultados do ano anterior, vamos apresentar a eles mudanças na diligência de contratos. Essa é outra ação: vamos ser mais rigorosos na solicitação de documentos e informações.

Valor: Que tipo de documentos vão passar a pedir, por exemplo?

Salton: Termos de ciência e compromissos para que não se repitam os fatos que ocorreram. Os compromissos vão exigir diferentes coisas dependendo do porte e da situação econômica da empresa. Vamos também verificar se há pendências trabalhistas não resolvidas, checar antecedentes das empresas e dos sócios, ou seja, fazer um escrutínio legal de forma mais abrangente. Não que a Salton não atuasse já de maneira diligente, mas acrescentamos agora situações para mitigar riscos e faremos as visitas de averiguação. Diferente de outras cooperativas, os produtores não são exclusivos nossos, mas, mesmo assim, prestamos assessoramento técnico ao longo do ano e agora assumimos o compromisso de sensibilização e conscientização, com seminários e divulgação em mídias.

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Valor: E para reparar os danos causados aos trabalhadores que estavam sendo submetidos a trabalho análogo à escrividão, o que farão?

Salton: Os reparos aos trabalhadores estão associados ao TAC que assinamos na quinta. Uma parte da verba de R$ 7 milhões que as três vinícolas vão pagar será direcionada aos trabalhadores. E o TAC prevê ainda outra parte para fundos sociais e entidades que o Ministério Público do Trabalho determinar, que sejam ligadas à reparação dos danos sociais.

Valor: Estão passando pente-fino nos outros fornecedores? Chegaram a apurar alguma outra irregularidade?

Salton: Sim. Temos mais uma empresa que terceirizamos contratação de mão de obra temporária para a descarga de uva, mas foi fiscalizada e está regular.

Valor: O caso afetou fortemente a reputação da empresa. Como reverter a crise de imagem e reconquistar a confiança do consumidor?

Salton: Fica, certamente, uma mancha que nunca será esquecida. Enquanto a empresa seguir, teremos a mancha e a lembrança. Como vamos demonstrar integridade e boa fé para as pessoas a partir de agora? Nossas próximas ações vão demonstrar o quanto vale a pena dar o voto de confiança para a empresa. Foi uma falha dolorosa, não poderia ter acontecidoA empresa não se omitiu disso, mas queremos fazer o melhor daqui em diante. Podemos fazer mais pela sociedade do que só gerar empregos e pagar impostos. Na área ambiental, também temos um trabalho para diminuir emissões de gases de efeito estufa. Esse é um exemplo de atitude que não é uma decisão econômica. Não olhamos friamente para números e lucro. Se fosse legado de equilíbrio entre financeiro e outros aspectos. Mas acredito que o tempo trará a resposta se os nossos consumidores voltarão a confiar na gente. Esse julgamento não cabe a mim fazer, é uma percepção de cada um.

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Valor: Na semana passada o Centro de Indústria e Comércio (CIC) de Bento Gonçalves divulgou um comunicado em que traz para a discussão política o ocorrido, ao apontar que a falta de mão de obra para trabalhar local nas vinícolas está relacionada a desincentivos por conta de programas assistencialistas. O que vocês acharam desse posicionamento?

Salton: Não abarcamos essa narrativa do CIC. Houve mobilização para tentar contar a história e trazer fatos, mas algumas informações foram infelizes. Não são condizentes e corretas e naturalmente a gente não chancela. Isso não significa que as intenções das entidades não sejam de trazer uma pauta positiva. Com o ocorrido, formamos um colegiado composto por diferentes empresas e segmentos e atores públicos para listar medidas imediatas que podem ser feitas. Uma das ações é a criação de um centro de apoio, que entre outros papéis, vai dar apoio ao trabalhador e apurar denúncias. Também terá iniciativa de estimular a qualificação de trabalhadores da região, independente da cadeia do vinho. A escrita do documento do SIC foi infeliz, mas existem várias ações genuínas e que assumem responsabilidade com o fato.

Valor: Já vimos um caso de supermercado que deixou de comprar produto envolvido no escândalo e as pessoas também reagiram nas redes sociais pedindo boicotes aos vinhos e ao turismo em Bento Gonçalves. Isso tudo está afetando as vendas de vocês?

Salton: Nossa cadeia produtiva é extensa e temos recebido apoio das empresas com as quais nos relacionamos. Nós fomos transparentes em dizer que erramos. Não passamos a vida sem falhar, somos humanos. Mas algumas falhas são de maior gravidade e nos fazem crescer e assumir compromissos de melhorar. Mas não é só a nossa palavra que importa, mas colocar em prática as mudanças. As empresas entenderam e vêm nos apoiando, inclusive construindo conosco nossos compromissos daqui em diante.

Valor: Mas vocês tiveram impacto nas vendas e cancelamentos de contratos, inclusive internacionais, já que são grandes exportadores de espumantes?

Salton: O que fizemos foi diminuir nas últimas semanas nossa agenda ativa de vendas, deixando que ela flua de forma orgânica. Nossa decisão foi esperar para esclarecer a todos o que aconteceu e firmar o acordo com o ministério público antes, para demonstrar nosso compromisso.

Valor: É esperado que o caso todo afete a previsão de faturamento neste ano?

Salton: A gente vai fazer revisões de vendas sobre possível impacto. Ano passado nosso faturamento bruto foi de cerca de R$ 500 milhões e nossa previsão inicial para este ano estava em R$ 600 milhões. Podemos revisá-la sim. Isso faz parte, é um momento difícil para a empresa, de crise. O que importa é que vamos sim equilibrar e deixar a empresa economicamente saudável e equilibrada. Estamos vindo de bons anos. Mas, acima de tudo, o que queremos é preservar o legado que construímos nos últimos 112 anos. Queremos mostrar quem é a Salton, porque vale a pena acreditar na empresa e que vamos honrar nossos compromissos. Entendermos que isso passa por demonstrar boa fé, diligência, responsabilidade econômica com os stakeholders. Temos uma História a honrar e um futuro novo. Sempre somos sinceros: ocorreu uma falha e deveríamos ter sido mais diligentes, mas trabalharemos para corrigir isso e honrar nosso compromisso.

Fonte: Valor Econômico
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