Executivos preveem mais demissões nos próximos seis meses

Executivos preveem mais demissões nos próximos seis meses

Publicado em 17 de abril de 2023

Pesquisa da BTA com 197 gestores que fizeram layoffs e reduziram quadros recentemente mostra como os processos têm sido conduzidos e os planos para este ano.

As demissões em massa, que ocorreram nos últimos seis meses no Brasil, não devem parar este ano. Mais da metade (53%) das empresas que promoveram grandes cortes de pessoal nesse período afirmam que ainda pretendem reduzir seus quadros em 2023, sendo que 26,3% esperam enxugar entre 0,1% e 5% o seu número de funcionários e 21%, entre 5% e 10%. As contratações que estavam congeladas para 67% desde o ano passado, para 22% continuarão paradas.

Esses dados fazem parte da pesquisa “Desafios do negócio e de pessoas: demissões em massa, layoff”, realizada pela BTA a pedido do Valor , que investigou os planos, as motivações e a forma como as empresas estão conduzindo esses desligamentos no país. Foram ouvidos 197 executivos de 29 empresas que promoveram grandes demissões nos últimos seis meses, sendo 20% conselheiros, 13,4% presidentes e vice-presidentes, 26,7% diretores, atuando nos setores industrial (40%), serviços (40%), tecnologia (13,3%) e comércio (6,7%). “Um quadro bastante preocupante no curto prazo”, afirma Betania Tanure, fundadora da BTA. “O desafio para as companhias, agora, é entender como elas vão operar com essa força de trabalho tão reduzida.”

Os motivos que levaram essas empresas a demitir em massa, segundo a pesquisa, estão relacionados à mudanças no cenário econômico, redução de mercado, baixa na receita, readequação de custos e salários. Foram decisões de ordem financeira, mas com custos embutidos para o negócio que não estão diretamente relacionados ao caixa e, sim, à gestão de pessoas. O levantamento mostra que apenas 26,3% das companhias asseguraram, por exemplo, que as práticas e procedimentos de trabalho dos demitidos fossem bem documentados antes do desligamento. “As empresas no Brasil têm muita dificuldade em formalizar os processos, porque a estratégia aqui é mais relacional e depende muito das pessoas”, explica Tanure.

Na prática, isso pode significar que, quando alguém sai, quem fica nem sempre sabe como o outro realizava determinado procedimento, o que pode gerar uma perda de eficiência no curto prazo. A pessoa que acumulou uma nova tarefa precisa descobrir como deve realizá-la e pode levar um tempo até adquirir a mesma velocidade na sua execução. “Outro aspecto importante é que a sensação das pessoas que ficaram na empresa é de que elas estão incorporando o trabalho dos outros, mesmo quando já estão com a agenda super carregada e que não existe suporte para ajudá-las”, observa Tanure. E, provavelmente, elas não vão receber nada a mais por isso, afinal a empresa demitiu para cortar custos e não vai mexer na remuneração de ninguém.

Para atuar nessa nova configuração e aliviar essa insatisfação e a sensação de sobrecarga, as empresas terão que redesenhar os processos de trabalho, segundo Tanure. “É preciso se perguntar: o que pode d

Pesquisa indica que mais da metade (53%) das empresas que promoveram grandes cortes de pessoal nesse período afirmam que ainda pretendem reduzir seus quadros em 2023, — Foto: Pexels

eixar de ser feito? O que não faz mais sentido fazer?”, aconselha. Esse apoio na reflexão sobre essa reorganização do trabalho, para ela, vai além do treinamento técnico, citado por 79% dos pesquisados como uma ação voltada para quem permaneceu na empresa. “Mudar processos é muito mais desafiador, porque exige uma conversa clara que depende dos indivíduos”, afirma. E, em um primeiro momento, repensar a forma de realizar as tarefas pode dar mais trabalho.

Cuidar dos funcionários durante um layoff, segundo a pesquisadora, é também cuidar da saúde financeira do negócio. A pesquisa mostra, no entanto, que o investimento das empresas nesse sentido deixa a desejar, com 74% não oferecendo apoio psicológico aos demitidos e 21% não realizando ações de gestão de crise para minimizar o impacto das demissões. “Quando você não cuida dos que vão, os que ficam pensam ‘amanhã pode ser eu’”, diz Tanure.

É preciso lembrar que todo o processo de demissão é observado pelos funcionários, desde a forma como ela é comunicada. Na pesquisa, embora 73% dos desligamentos em layoffs tenham sido comunicados pessoalmente pelos líderes diretos, 13,4% foram informados por e-mails do presidente ou do RH ou então em reuniões virtuais pelo gestor direto ou presidente. “Mesmo sendo um percentual pequeno, ele nem deveria existir, porque a informação deve ser dada sempre pessoalmente”, diz Tanure. A pesquisa mostra também que 57,9% dos gestores diretos afirmam compartilhar com os demitidos as causas e os motivos da demissão, enquanto apenas 38,8% das empresas fazem isso de forma estruturada.

Quando os próprios presidentes das companhias se encarregam de comunicar as demissões pessoalmente, como citam 20% dos entrevistados, isso pode ser interpretado como um sinal de que eles “estão colocando a cara e se implicando com isso”, diz Tanure. “Isso geralmente acontece quando a empresa não tem intenção de promover outro corte em seguida. “O presidente precisa dizer que aquele é um ciclo, que acabou, isso vai trazer alguma paz para as pessoas”, ressalta.

Olhando para as ações previstas para os próximos seis meses e comparando com o que fizeram nos últimos seis meses, a pesquisa mostra que para 39% dos entrevistados o investimento este ano será voltado para a ampliação do negócio, antes esse percentual era de 11%. Já 12% disseram que vão investir em transformação digital, enquanto nos últimos seis meses 78% disseram ter feito isso. Outro movimento no radar, para 22% dos entrevistados, é a venda de unidades, antes esse percentual era de 44%. E 16% pensam em realizar fusões e aquisições nos próximos seis meses, com 26% tendo dito que fizeram isso nos últimos seis meses. Com relação ao futuro da empresa, o ânimo cresce quanto mais os executivos olham para frente, diz Tanure. Este ano, 38,9% disseram estar otimistas, um percentual que chega a 50% olhando para os próximos quatros anos.

Fonte: Valor Econômico
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