Expectativa é que melhora do emprego vai perder fôlego

Expectativa é que melhora do emprego vai perder fôlego

Publicado em 1 de dezembro de 2023

Pela 1ª vez, país tem mais de 100 milhões de trabalhadores ocupados, mas nível de ocupação é menor que antes da crise 2015-16.

O mercado de trabalho mostrou sinais de resiliência maiores que o esperado no trimestre móvel terminado em outubro, com queda do desemprego e alta de rendimentos. Esse fôlego, contudo, tende a diminuir nos próximos meses, em compasso com o arrefecimento da atividade, afirmam economistas.

A taxa de desemprego caiu para 7,6% no trimestre móvel encerrado em outubro, abaixo do verificado no trimestre móvel anterior, encerrado em julho (7,9%) e ao mesmo período de 2022 (8,3%), segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, divulgada ontem pelo IBGE.

Trata-se da menor taxa de desemprego para o trimestre encerrado em outubro desde 2014, quando estava em 6,7%. No trimestre encerrado em setembro, a taxa desemprego estava em 7,7%.

O número de trabalhadores ocupados no país ultrapassou pela primeira vez a marca de 100 milhões, resultado das altas de 0,9%, em relação ao trimestre anterior (mais 862 mil pessoas), e 0,5%, frente a igual período de 2022.

Os dados mostram estabilidade estatística da população ocupada, na variação trimestre móvel terminado em outubro ante o anterior, mas recorde do número de ocupados na série histórica.

Apesar da marca acima de 100 milhões, o nível de ocupados ficou abaixo da pré-crise de 2015 e 2016, afirma Lucas Assis, da Tendências Consultoria. “O nível da ocupação em 57,2% manteve-se abaixo do vigente antes da crise do biênio 2015-16”, diz, ao lembrar que o percentual era de 58,3% na média entre 2012-2014 para o mesmo trimestre.

A pesquisa mostrou também que o país tinha 8,3 milhões de desempregados – pessoas de 14 anos ou mais que buscaram emprego, mas não conseguiram encontrar-, uma retração de 3,1% frente ao trimestre móvel anterior. Esse é o menor contingente de desempregados desde abril de 2015.

A força de trabalho – pessoas ocupadas ou em busca de emprego com 14 anos ou mais – foi estimada em 108,5 milhões, 0,6% mais que no trimestre móvel anterior. Já a população fora da força de trabalho é de 66,6 milhões.

A renda média dos trabalhadores avançou 1,7% para R$ 2.999. Ο rendimento médio real habitual dos trabalhadores considera a soma de todos os trabalhos. Na comparação com o mesmo trimestre de 2022, houve alta de 3,9%.

A massa de rendimentos – a soma da renda de todos os trabalhos – atingiu volume recorde de R$ 295,7 bilhões, alta de 2,6% frente ao trimestre anterior e de 4,7% ante igual trimestre de 2022.

“Haverá uma estagnação ou até mesmo uma pequena piora”

Os números da Pnad Contínua trazem sinais positivos e negativos sobre o mercado de trabalho, afirma Rodolfo Margato, economista da XP. “Os resultados desagregados foram mistos, tendo em vista a virtual estabilidade da população ocupada e o crescimento adicional dos rendimentos reais do trabalho”, disse em nota a clientes.

De um lado, afirmou, a população ocupada parece vir perdendo força. De outro, os rendimentos reais do trabalho seguem trajetória de alta.

No trimestre encerrado em outubro, o número de trabalhadores no setor privado com carteira assinada cresceu 1,7% para 37,6 milhões, na variação trimestral. É o maior contingente desde o trimestre encerrado em junho de 2014.

Já o número de empregados sem carteira no setor privado avançou 0,7% frente ao trimestre anterior e atingiu 13,3 milhões. O número de trabalhadores por conta própria, por sua vez, cresceu 1,3% para 25,6 milhões.

“O contingente de ocupados vem expandindo, acompanhado do aumento da formalidade e de rendimento. Não se tratam apenas de números positivos sobre o contingente do mercado de trabalho, mas de uma expansão com qualidade”, afirmou Adriana Beringuy, coordenadora das pesquisas por amostras de domicílio do IBGE.

Segundo Daniel Duque, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), o mercado de trabalho continuará vendo desaceleração da taxa de desemprego neste ano, como era esperado. Em 2024, contudo, o cenário será diferente. “Haverá estagnação [do mercado de trabalho] ou até mesmo uma pequena piora, decorrente do contágio da economia para o emprego.”

O FGV Ibre prevê que o desemprego encerre 2023 em 7,6%, e que a taxa média para o ano seja de 8%.

Movimento semelhante é previsto para o rendimento.

“Esperamos que os salários continuem crescendo. Estamos vendo o transbordamento do mercado informal para o formal”, argumenta Natália Cotarelli, economista do Itaú BBA. “Mas esse crescimento do rendimento deve desacelerar para algo em torno de 0,2% ao mês, ao longo de 2024.”

A XP espera arrefecimento do emprego nos próximos meses, em linha com o ritmo da atividade. “Projetamos taxa de desemprego em 7,8% no fim de 2023 e 8,4% no fim de 2024”, diz Margato, ao lembrar que a XP espera crescimento de 2,8% do PIB em 2023 e de 1,5% em 2024.

Fonte: Valor Econômico
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