Fadiga de reuniões on-line permanece no modelo híbrido

Fadiga de reuniões on-line permanece no modelo híbrido

Publicado em 29 de agosto de 2022

A sensação de fadiga com a sobrecarga de interações virtuais está alta, mostra estudo, com relatos de desconfortos que vão desde dores no pescoço até a inutilidade de reuniões, e já leva profissionais a considerarem sair de seus empregos em busca de maior bem-estar.

O modelo híbrido de trabalho não está conseguindo minimizar um problema que profissionais experimentaram, durante a pandemia, com relação ao excesso de reuniões on-line. A sensação de fadiga com a sobrecarga de interações virtuais permanece alta, com relatos de desconfortos que vão desde dores no pescoço até a inutilidade de reuniões, e já leva profissionais a considerarem, inclusive, sair de seus empregos em busca de maior bem-estar.

É o que indica uma pesquisa, encomendada pela Cisco, que ouviu 1.408 executivos de várias empresas no mundo (sendo 12% da América Latina, incluindo brasileiros), e que utilizam plataformas diversas para reuniões virtuais.

No estudo, 95% dos executivos relataram sentir fadiga de videoconferências – sendo que 93% deles afirmaram passar pelo menos duas horas em vídeos todos os dias e um terço com metade do seu dia de trabalho consumido por chamadas de vídeo. Essa forma de trabalho e interação tem um custo, indica o estudo: oito em cada dez entrevistados disseram terminar o expediente com dores e desconfortos. As principais queixas são dores no pescoço e nos ombros (37%), dores de cabeça e visão embaçada (31%), tensão muscular (22%), zumbido nos ouvidos (12%), e rouquidão na voz (11%).

Há vários fatores que estão levando a essa fadiga, analisa o estudo. E o primeiro deles é um aspecto técnico. “Cerca de 70% dos entrevistados que participam de reuniões o fazem apenas através do notebook, o que pode forçar a pessoa a trabalhar em uma posição não recomendada e causar dores”, afirma Marcelo Moreira, líder de engenharia de colaboração da Cisco na América Latina. Menos da metade dos entrevistados, aliás, afirma ter o suporte tecnológico necessário para trabalhar remotamente.

Fadiga de reuniões permanece no híbrido — Foto: Imagem Valor Econômico

Outro aspecto é em relação ao ambiente no qual essas reuniões ocorrem. Executivos se mostram frustrados por não conseguirem realizar networking no formato não presencial (42%), mas se sentem incomodados com o barulho de fundo (37%), má qualidade do som (34%) e da definição da imagem (32%). Há ainda um terceiro fator que envolve cultura organizacional e o questionamento de quantas reuniões são necessárias para o trabalho ser realizado e ser produtivo. O professor, PhD e médico psiquiatra Roberto Aylmer acredita que cabe aos líderes considerar intervalos sem reuniões. “A primeira pergunta a ser feita é: ‘a reunião é boa para a empresa ou apenas para o chefe?’”

A Ingredion, fornecedora de soluções para ingredientes para a indústria, diz que vem orientando os funcionários para eliminar reuniões no horário de almoço, bem como refletir sobre a real necessidade dos encontros virtuais, seu tempo de duração e objetividade. “Estamos procurando melhorar a comunicação no modelo híbrido para encontrar soluções por meio de e-mails ou chats”, afirma Viviane Gaspari, vice-presidente de RH da empresa para América do Norte e do Sul. Em 2021, a empresa implementou uma política de sexta-feira sem reuniões para os cerca de 800 funcionários administrativos em nome da saúde mental. Mas Gaspari reconhece que essa prática só funciona se a liderança der o exemplo. “Pedimos que os líderes sejam intencionais no seu comportamento: os heads de área não devem convocar reuniões e devem declinar chamados para as sextas-feiras.”

A prática de ter um ou mais dias sem reuniões foi apontada por 27% dos executivos no estudo como solução para reduzir a fadiga. Garantir pausas entre as reuniões, mesmo que de cinco minutos, e reduzir o número de reuniões gerais foram outras iniciativas apontadas por 33% e 42% dos entrevistados, respectivamente.

“Internamente, nós orientamos que cada funcionário organize sua agenda de forma a intercalar pausas e atividades que lhe tragam bem-estar. Alguns times na vão além, criando acordos que podem ser de um dia sem reuniões”, afirma Daniela Glezer, líder de recrutamento da Cisco na América Latina. Estabelecer o que faz sentido para cada área, equipe e profissional se sentir menos sobrecarregado com reuniões, considerando que o pano de fundo de muitas empresas é aprender a executar um novo modelo de trabalho, híbrido, é um desafio de gestão de pessoas hoje, analisa Camilla Boneli, gerente de bem-estar e experiência do colaborador da fabricante de produtos químicos Basf. “Como time de bem-estar, temos trabalhado muito a questão de fadiga e cansaço acumulado pós-pandemia, e as reuniões são um dos fatores que continuam influenciando”, afirma.

Desde que implementou oficialmente um modelo híbrido e que engloba flexibilidade de um a quatro dias trabalhando remotamente, a Basf vem criando ações e orientações específicas. Uma delas foi um guia para reuniões híbridas, com dicas práticas que garantam reuniões inclusivas, mas também produtivas para quem está no escritório ou no home office. A outra é ressignificar o que é produtividade pós-pandemia, diz Bonelli. “Tem funcionário que hoje pode achar que é desperdício se deslocar até o escritório porque ele não consegue fazer reuniões nesse intervalo. Mas isso não é saudável. Agora não estamos mais isolados no home office e precisa ser normal não estar mais o tempo todo conectado”, afirma.

Além disso, o time de bem-estar realiza intervenções específicas em áreas, ao lado de profissionais do RH, para implementar ações personalizadas. “Não faz sentido para nós, como empresa global, criar uma política de um dia sem reuniões porque as áreas têm agendas com outros países, mas após a pandemia, por exemplo, muitos times bloquearam as agendas de reuniões antes das 9h e depois das 16h para focar no que é produtivo e hoje seguem assim.”

Repensar o impacto das reuniões na produtividade, mas principalmente em bem-estar, pode se tornar uma necessidade, inclusive, da estratégia de atração e retenção de talentos. Segundo o estudo da Cisco, 42% dos executivos planejam sair do atual emprego nos próximos dois anos e um dos motivos está relacionado aos hábitos das videoconferências na empresa.

Para os profissionais que têm sofrido com o estresse causado pelo excesso de trabalho, especialistas afirmam que é preciso saber negociar. “Coloque limites para horários de reuniões, por exemplo. O encontro não pode passar de 30 ou 45 minutos”, sugere Nat Gaia, especialista em produtividade e alta performance. “Identificar reuniões que poderiam ser e-mails é uma forma de reduzir o excesso de convocações.”

Fonte: Valor Econômico
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