02 jun Fim da jornada 6×1 pode ter impacto negativo no PIB, mas não é ‘palavra final’, diz Santander
Fim da jornada 6×1 pode ter impacto negativo no PIB, mas não é ‘palavra final’, diz Santander
Mecanismos para reduzir o choque, como ganhos de produtividade e sustentação de horas, podem alterar o cenário, segundo economista.
A redução da jornada de trabalho aprovada no Brasil tem custo mecânico negativo para o Produto Interno Bruto (PIB) do país no curto prazo de cerca de 2,5%, estima o Santander. Esse cálculo, no entanto, não precisa ser a “palavra final”, já que há mecanismos para reduzir o choque, como ganhos de produtividade e sustentação de horas.
É o que aponta estudo do economista Henrique Danyi. “Nossa visão central é que um cenário em que o impacto no PIB seja próximo de zero – ou até levemente positivo – é economicamente plausível, mas não está garantido”, afirma.
O Congresso aprovou a redução do limite constitucional de horas semanais de trabalho no Brasil para 40h, de 44h, sem cortes salariais e com a garantia mínima de dois dias de descanso por semana.
A partir de microdados da Pnad Contínua, do IBGE, de 2025, Danyi estimou que a mudança na jornada provocaria uma redução, de forma mecânica, nas horas trabalhadas de 5,1% este ano. Isso seria equivalente ao impacto negativo cumulativo de 2,5% no PIB.
A proposta aprovada prevê duas etapas: redução para 42h nos 60 dias após a promulgação da regra e para 40h semanais nos 12 meses seguintes. O Santander calculou que o impacto mecânico sobre a economia seria maior na primeira etapa, com a redução de 3,7% do volume de horas trabalhadas gerando um efeito negativo sobre o PIB de 1,8%. Na segunda fase, haveria redução de 1,4% nas horas e impacto e -0,7% no PIB.
Varejo, alojamento/serviços de alimentação e transporte/armazenamento são os três setores mais expostos, segundo o Santander. Mas a indústria também tem exposição alta, por causa de trabalhadores em turnos contínuos.
O impacto negativo de 2,5% no PIB, no entanto, é um teto, pondera Danyi, e não é visto como cenário central. Segundo ele, evidências internacionais sugerem que empresas e trabalhadores, normalmente, se ajustam por meio de ganhos de produtividade, mudanças de escala, persistência de horas extras, informalidade e, em alguns casos, aprofundamento de capital.
“A proposta era tentar ver se as discussões atuais em relação à reforma vão dar início a uma revisão nas projeções de PIB deste ano e do próximo. Esse 2,5% é um teto, mas nem tudo vai ficar constante. Tem possibilidade plausível de que uma combinação de fatores aconteça e a gente não veja gatilho para revisões”, diz Danyi.
O Santander defende que a neutralidade da medida para o PIB é “plausível”, porém não automática. Para isso, as simulações do banco indicam que a mudança precisaria ser acompanhada de ganhos na Produtividade Total dos Fatores (PTF) e que as horas excedentes fossem compensadas por meio de outros canais, que o Santander chamou de “avoiders”, isto é, trabalhadores e empregadores contornando o novo limite de horas.
Isso poderia acontecer, por exemplo, com trabalhadores formais convertendo-se para arranjos informais (como autônomos); com empregadores incentivando trabalhadores a se registrarem como Microempreendedores Individuais (MEI); com o pagamento de horas extras não oficiais, particularmente em setores com fiscalização fraca; ou com trabalhadores adicionando empregos de meio período para compensar as horas perdidas. “Parte desses ‘avoiders’ é também a contabilização de que, talvez, eu possa estar superestimando o efeito. Se as horas a mais em relação ao contrato já são horas extras, muito provavelmente, esse indivíduo não vai ser tão afetado”, explica Danyi.
Se o ganho adicional acumulado de produtividade for de 2,5%, nenhum desses “canais alternativos” precisaria ser acionado, estima o Santander. Mas Danyi reconhece que um ganho de PTF de 2,5% em dois anos é “ambicioso”.
Por outro lado, se ao redor de 30% das horas excedentes forem recuperadas por meio desses canais, a necessidade de mais PTF para não afetar o PIB cairia para a faixa de 1,5% a 2%, o que, na avaliação do Santander, é “alcançável”.
Experimentos do tipo recentes em Islândia, Japão e Reino Unido documentam ganhos de eficiência que compensam parcialmente a redução de horas, observa Danyi. “Devemos observar a produtividade respondendo, pelo menos no curto prazo”, afirma.
O ganho de produtividade pode ocorrer se a eficiência do trabalhador aumentar – funcionários mais descansados poderiam entregar maior produção por hora – e/ou se o tempo livre adicional permitir ao trabalhador investir em educação, gerando acúmulo de capital humano. “Ver isso se concretizando no curto prazo é relativamente mais difícil. Mas é uma possibilidade que não dá para descartar”, diz Danyi.
Há riscos para esse cenário em ambas as direções, aponta. Se, por exemplo, as empresas – particularmente micro e pequenas, que enfrentam maiores custos de ajuste – arcarem com o custo sem se reorganizarem, a perda do PIB se aproximaria da pior projeção.
Custos unitários de trabalho (CUT) mais altos também podem ser repassados aos consumidores, erodindo os salários reais e compensando os benefícios de demanda, observa Danyi.
Um estudo da 4intelligence aponta que, no primeiro trimestre de 2026, o CUT total no Brasil subiu 8,7% ante o mesmo período de 2025, sendo que o CUT da indústria avançou menos que a média (4,9%), mas o dos serviços tem rodado acima de 9%.
A partir da experiência internacional, o Santander conclui que modelos estimando perda mecânica do PIB com a mudança de jornada parecem “muito pessimistas”, mas que ganhos também não são automáticos. As evidências mostram manutenção da produção em setores selecionados, não aceleração garantida em toda a economia, diz Danyi. “O sucesso dependerá fortemente de políticas complementares, capacidade de fiscalização e da qualidade dos acordos coletivos”, afirma.
A evidência estrangeira mostra ainda que o gradualismo melhora a viabilidade da mudança. O Santander observa que a adoção da nova jornada em etapas no Brasil reflete reformas graduais no Chile (45h para 40h, de 2024 a 2028) e no México (redução de 48h para 40h, de 2027 a 2030). Danyi pondera que essas experiências em países mais comparáveis, porém, ainda são muito recentes, o que exige cautela nas projeções.
Além disso, o faseamento no Brasil é mais curto. Para Roberto Secemski, economista-chefe para Brasil do Barclays, essa “transição rápida” pode aumentar as pressões inflacionárias de curto prazo, especialmente nos serviços. Em uma avaliação preliminar, ele estima que cerca de 30% do componente de serviços do IPCA, ou cerca de 11% da cesta total, poderá ser afetado, em graus variados.
O Congresso também discute medidas para ajudar os MEIs, incluindo aumento no teto de receita para enquadramento na categoria e a possibilidade de contratar mais de um funcionário. Como o MEI tem isenções fiscais, sua ampliação representa custo para o governo, além de o aumento das contratações levar a uma deterioração adicional do déficit da Previdência, afirma Secemski.
Sua preocupação, diz, é menos pela redução da jornada em si e mais por fatores como a transição acelerada e o momento da implementação, com mercado de trabalho aquecido e medidas expansionistas aumentando riscos inflacionários.
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