Fôlego do emprego diminui, mas renda real sinaliza alta

Fôlego do emprego diminui, mas renda real sinaliza alta

Publicado em 17 de março de 2023

Ocupações mais qualificadas e saída de informais da força de trabalho elevam rendimento médio.

Após a forte recuperação iniciada ainda em 2021 e que se estendeu por 2022, o mercado de trabalho dá sinais de perda de tração e, para analistas, deve voltar a mostrar neste início de ano crescimento da taxa de desemprego. Apesar disso, as projeções para o rendimento médio real – descontada a inflação – mostram que esse indicador deve se descolar do emprego e seguir com alguma força ainda durante alguns meses ou até trimestres, ainda que em ritmo mais moderado que o observado na reta final do ano passado.

Dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domícílio (Pnad) Contínua apontam desemprego no fim do quarto trimestre de 7,9%, baixa de 0,2 ponto ante o trimestre anterior e o menor nível desde fevereiro de 2015. O recuo no entanto, ocorreu principalmente devido à queda na taxa de participação no mercado de trabalho, uma vez que a população ocupada permaneceu estável no período. Já o rendimento médio real habitual dos trabalhadores cresceu 1,9%, para R$ 2.808.

Na XP Investimentos, o cálculo mensalizado e dessazonalizado da taxa de desemprego apontou alta já em dezembro, de 8,3% para 8,5%. Apesar disso, a XP estima que a renda real do trabalho deve permanecer em trajetória altista até o segundo trimestre. Isso porque o mercado de trabalho, ainda que em desaquecimento, estaria “apertado”, ou abaixo da chamada taxa de desemprego neutra (Nairu, na sigla em inglês), que a casa estima estar ao redor de 8,5% no Brasil.

“Isso significa que o poder de barganha dos empregados está maior que o dos empregadores, seja nas renegociações salariais, seja no salário requerido por quem busca vaga”, diz o economista Rodolfo Margato, da XP. “A pressão salarial é maior porque o desemprego corrente é maior que o de longo prazo. Não à toa, a gente tem observado taxas de variação real dos rendimentos bastante positivas, que surpreenderam muitos analistas.”

Visão semelhante tem o Santander, que estima o desemprego de equilíbrio do Brasil perto de 10%, ou seja, bastante abaixo da atual taxa, que está em 8,5%, no ajuste sazonal feito pelo banco. “Obviamente, isso conversa bastante com o cenário de rendimentos crescendo de maneira expressiva desde meados de 2022. Mas também ajudou o fato de que a inflação em 12 meses desacelerou bem”, lembra o economista Gabriel Couto. Ele pondera que, mesmo descontando esse efeito, o crescimento da renda surpreendeu, em especial nos últimos meses do ano.

Couto nota que essa dinâmica tem fôlego para persistir, ainda que em menor intensidade, até o terceiro trimestre. Já o desemprego pode voltar a subir nas próximas leituras – por causa de dificuldades envolvendo a realização do Censo, o IBGE atrasou a divulgação da Pnad Contínua e deve divulgar os resultado de janeiro apenas hoje. Os dados de fevereiro saem no próximo dia 31.

Um ponto de interrogação sobre esse cenário é a taxa de participação na força de trabalho. Após o tombo na pandemia, ela se recuperou e chegou a 62,7% no terceiro trimestre de 2022, mas desde então voltou se retrair, em uma dinâmica que alguns analistas têm associado ao aumento do valor do Auxílio Brasil para R$ 600. No quarto trimestre, a participação no mercado de trabalho voltou a 62,1%, se distanciando da média histórica pré-covid, de 63,5%.

É justamente essa menor participação na força de trabalho que permitiu novas quedas da taxa de desemprego nos últimos meses, uma vez que a população ocupada estagnou ou passou a cair há alguns meses, segundo algumas estimativas dessazonalizadas.

Caso esse movimento se reverta em 2023, isso significará um contingente de trabalhadores voltando ao mercado e, diante da atividade econômica bem menos aquecida que nos últimos dois anos, uma provável alta do desemprego.

Este não é o cenário-base do Itaú Unibanco. A equipe de economia do banco estima que a taxa de participação deve permanecer relativamente estável, o que significaria aumento apenas gradual do desemprego ao longo do ano – nas contas do banco, ela deve voltar a apresentar variações positivas em fevereiro, de acordo com o indicador proprietário da casa, o Idat-emprego. O Itaú espera que a taxa chegue ao último trimestre de 2023 em 8,6%, ainda abaixo do que estima ser o desemprego de equilíbrio no Brasil, algo entre 9% a 9,5%.

“Isso significa uma pressão adicional em termos de salários. Mas existe esse risco ligado à participação que precisa ser monitorado”, diz a economista Natália Cotarelli. Ela pondera ainda que, assim como os rendimentos demoraram a reagir à recuperação do emprego na saída da crise da covid, seria razoável supor que o inverso ocorra neste momento: a melhora da renda tenha mais fôlego que a da ocupação.

“Se olharmos o salário real efetivo de todos os trabalhos, ele ainda segue 0,7% abaixo de fevereiro de 2020”, diz Cotarelli. O Itaú estima que o rendimento real dos salários deve fechar o ano em alta de 1,2%.

Existe, ainda, um efeito composição que pode “ajudar” a empurrar a variação da renda real. Nas últimas divulgações da Pnad, economistas têm notado que a maior parte do recuo da taxa de participação ocorre pela queda na ocupação de trabalhadores informais. “O número de empregados formais cai há duas divulgações, mas o de informais cai há seis. E sabemos que os informais têm rendimentos inferiores aos formais. Logo, a média sobe”, explica Caio Napoleão, economista da MCM Consultores.

“Aconteceu no começo da pandemia, e também pode acontecer agora, mas não necessariamente significa que as pessoas estarão ganhando mais”, diz. Napoleão estima que o desemprego trimestral volte a subir nas próximas leituras, alcançando 9,3% ainda no primeiro trimestre, antes de voltar a 7,9% no fim do ano. Já o rendimento pode continuar a crescer, esgotando essa trajetória perto do último trimestre de 2023.

Outro fator pode dar gás aos rendimentos, esse externo à dinâmica do mercado. Após três anos apenas recompondo a inflação, o governo oficializou em janeiro um aumento do salário mínimo para R$ 1.302, um aumento de aproximadamente 7,4%, acima dos 5,8% registrados Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) em 2022. Existe ainda uma promessa de nova elevação do mínimo, para R$ 1.320, ou alta de 8,9%.

“O salário tem apresentado forte alta na margem e, neste ano, deve ser beneficiado também por essa valorização do mínimo. Isso acaba ampliando poder de barganha dos trabalhadores nas negociações salariais e deve impulsionar o rendimento este ano”, diz o economista Lucas Assis, da Tendências Consultoria.

Somando este ao fator ao efeito composição ele crê em crescimento do rendimento real habitual de 5% em 2023, mas muito também por causa da base de comparação comprimida: o indicador apresentou queda de 7% em 2021 e 1% em 2022. Já o desemprego deve voltar a subir nos próximos meses, o que fará a taxa de desemprego chegar a 8,2% no quarto trimestre.

Dado que a dinâmica salarial é um dos fatores por trás da inflação de serviços, é possível que surpresas nesse sentido possam pressionar a inflação mesmo com atividade desacelerando – em uma espécie de repeteco do que ocorreu entre 2015. Margato, da XP, avalia que esse cenário merece atenção, mas é menos provável. “É sim um risco altista, mas, olhando para a inflação de serviços de três meses ou seis meses, ela gradativamente vem recuando, parece ter passado do pior momento”, nota. “Mas, se houver reaceleração dos serviços, parte disso pode estar atrelada à pressão salarial maior que imaginávamos.”

Fonte: Valor Econômico
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