07 nov Ganho recente mascara pressão sobre rendimentos
Ganho recente mascara pressão sobre rendimentos
Para economista, volume de salários pagos deve subir, mas individualmente valores ficarão contidos.
Apesar do aumento recente do rendimento médio das pessoas ocupadas, a perspectiva é que, a despeito da dissipação dos efeitos inflacionários, a renda do trabalho deve permanecer pressionada até o fim de 2022, afirma Lucas Assis, da Tendências Consultoria.
“Enquanto o rendimento real habitual deve seguir sem ganhos reais em 2022, a massa salarial real deve exibir forte avanço na média anual, após dois anos consecutivos em queda”, diz. “Para 2023, estimamos reajuste real do salário mínimo, após três anos sem ganhos acima da inflação, em linha com a regra contemplada no cenário básico para a expansão da despesa total”, continua.
Ele acrescenta ainda que a desaceleração da atividade econômica até o fim de 2023, que deve acompanhar o arrefecimento na demanda por serviços, combinada com a queda da demanda por bens de consumo, deve elevar a população desocupada e desacelerar o crescimento dos ocupados.
Daniel Duque, do FGV Ibre, prevê desaceleração dos serviços no início de 2023, embalada pelos efeitos do aumento dos juros. “A princípio, a tendência é haver menor expansão, mas em um nível muito melhor de desemprego, de modo que isso tende a manter salários pressionados”, diz Duque. “Não creio que veremos queda na renda. Mas, sim, uma desaceleração relevante desse aumento.”
O economista espera ainda que o “efeito composição”, caracterizado nessa retomada por mais pessoas trabalhando com melhores salários, fique estável no início de 2023. Além disso, afirma, a inflação deve voltar a acelerar, o que jogará contra a recuperação. “Acho que a composição vai ficar cada vez mais estável em termos de aumento de salário. A inflação vai dar uma prejudicada, com certeza, pesando contra. Mas em questão de salários nominais, o que a teoria prevê é que quando o mercado fica mais apertado, no sentido de menos desemprego e oferta de trabalho, isso tende a pressionar salários e reajustes para cima.”
Essa perspectiva é corroborada pelos dados do Boletim Salariômetro, da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). Após dois anos tentando recompor a inflação, a maior parte das negociações salariais conseguiu reajustes iguais ou acima da alta acumulada do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), indica o boletim. Em setembro, só 24,9% dos reajustes ficaram abaixo do INPC, menor marca desde junho de 2020.
Levantamento com 455 acordos e convenções mostra que os reajustes acima do INPC chegaram a 41,8% em setembro, proporção que cresce desde julho. Outros 33,3% empataram com o índice de inflação – alta de 8,8% em 12 meses até setembro – mesmo valor do reajuste nominal mediano.
Em outubro, segundo prévia do boletim com base em dados do Ministério do Trabalho e Previdência, a proporção de reajustes acima do INPC é de 65,9%. Os acordos que resultaram em reajustes abaixo do índice chegam a 29,4%. E os que se igualam ao INPC chegam a 4,7%.
Vitor Candido, economista-chefe da RPS Capital, prevê que a recuperação da renda do trabalho diminuirá com a “desaceleração contratada da economia” no médio prazo. “Não acho que existirá recuperação das perdas reais de forma completa, isso ainda deve demorar um bom tempo. A inflação ainda terá um caminho longo [para baixo].”
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