Governo quer mudar regra de correção do mínimo

Governo quer mudar regra de correção do mínimo

Publicado em 24 de janeiro de 2020

Depois da confusão gerada no início do ano sobre a definição do salário mínimo para 2020, o secretário especial de Fazenda do Ministério da Economia, Waldery Rodrigues, disse ontem que o governo prepara uma mudança na regra de correção do piso de remuneração formal do país.

“Nós vamos alterar a sistemática de correção do salário mínimo. A conta [de referência] pode ser de dezembro de um ano até novembro do outro ano. O importante é entregar previsibilidade para a população”, disse o secretário, comentando que a ideia é manter a política de não dar reajuste acima da inflação.

Ele explicou que a eventual mudança na sistemática valerá para a correção que terá vigência em 2021 e pode durar até o fim do governo. “Será feita proposta ao Congresso”, informou, indicando que a intenção é enviar o projeto de lei até o fim de agosto, permitindo que a regra já seja considerada na tramitação do Orçamento. Ponderou, no entanto, que a rigor o governo tem a obrigação de definir a regra até 31 de dezembro.

Ele admitiu que o objetivo é evitar o que ocorreu neste ano, quando o governo teve que fazer dois reajustes do piso salarial por causa da surpresa da inflação em dezembro. “A busca será entregar na íntegra o poder de compra do salário mínimo”, disse. “Não é um cálculo complicado”, completou, ao ser questionado sobre como seria processada a mudança.

O salário mínimo para 2020 foi fixado em R$ 1.045. No fim do ano passado, uma medida provisória o havia colocado em R$ 1.039. Na lei orçamentária, sem alarde, o relator trabalhou com dois números, R$ 1.038 (para as despesas previdenciárias) e R$ 1.031 (para outras despesas atreladas ao piso). O valor final definido pelo governo representará uma despesa maior de R$ 3,3 bilhões ao previsto, o que pressiona por cortes de gastos.

Outra fonte de ajustes orçamentários deve ser a Eletrobras, reconheceu Waldery, embora tenha ressaltado que só será tomada em março a decisão definitiva de retirar ou não da conta essa receita de R$ 16 bilhões. Hoje, a tendência é fazer isso por precaução, dado que a arrecadação depende de o Congresso aprovar o projeto de privatização a tempo de a operação ser realizada neste ano.

O secretário ponderou que o tamanho do eventual contingenciamento deste ano, apesar dessas pressões, depende de outras variáveis, como projeções de receitas, administradas (de tributos) e não administradas, e dividendos. Isso é afetado, por exemplo, pela expectativa para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Ele disse que em março pode subir a previsão para 2020, hoje em 2,4%.

“O esforço fiscal permitiu que os juros da economia chegassem a níveis historicamente baixos, com a expectativa de inflação ancorada”, afirmou.

Waldery salientou que é preciso continuar o processo de ajuste fiscal. “Nem metade do esforço fiscal necessário para equilibrar as contas públicas foi realizada”, afirmou. “O dever de casa foi bem realizado, mas devemos continuar com a aprovação das reformas estruturais”, disse.

Ele afirmou acreditar que a agenda de reformas do governo – que inclui medidas já enviadas ao Congresso, como as propostas de emenda à Constituição (PECs) do Plano Mais Brasil, e outras a serem encaminhadas, como as reformas administrativa e tributária – pode ser aprovada ainda neste ano. Admitiu, no entanto, que o calendário é apertado devido às eleições municipais. Waldery disse ainda que as PECs do Plano Mais Brasil podem ser votadas ainda neste semestre.

O secretário afirmou que a relação dívida bruta/PIB encerrou 2019 em cerca de 77% do PIB ou até abaixo disso, com possibilidade de redução em relação ao verificado em 2018. Por causa disso, segundo ele, a trajetória da dívida prevista pelo ministério será revisada.

Ele ressaltou que o foco do governo está na redução do déficit nominal, que, projeta, ficou em torno de 5,9% do PIB no ano passado. Ele estima ainda que o déficit primário tenha encerrado 2019 em torno de 1% do PIB, ainda distante da meta de zerar o déficit anunciada pelo ministro Paulo Guedes quando assumiu o cargo.

Agora, o secretário diz não ter meta para o resultado antes dos juros, embora tenha dito ser possível zerar o déficit até o fim do governo. “Não colocamos meta para o primário, o cenário é de próximo de zero até 2022”, disse. “O resultado nominal é nosso objetivo central, será atingido pelas medidas que estamos encaminhando.”

Ele confirmou a estimativa de economia de R$ 417 bilhões com juros em relação ao cenário do início do governo até 2022. A conta foi antecipada pelo Valor.

Waldery disse ainda que o “cenário mais provável” é que os leilões dos campos de Sépia e Atapu, áreas do pré-sal que não receberam ofertas no leilão de novembro do ano passado, fiquem para o ano que vem, mas não descartou fazê-los ainda neste ano.

Fonte: Valor Econômico
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