15 mar Governo tenta turbinar consignado ao setor privado com bloqueio de parte do saldo do FGTS
Governo tenta turbinar consignado ao setor privado com bloqueio de parte do saldo do FGTS
Os ministros Haddad e Marinho, no entanto, divergem sobre acabar com o saque-aniversário.
Dentro da orientação de buscar agendas positivas para o governo, os ministérios do Trabalho e Emprego (MTE) e o da Fazenda trabalham para fechar, nas próximas semanas, uma proposta para turbinar os empréstimos consignados para trabalhadores do setor privado. A ideia é que parte do saldo do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) seja bloqueado na conta do trabalhador no momento em que empréstimo é contratado. Assim, estaria resolvido um problema da fragilidade da garantia contra inadimplência, um dos fatores que tornam esta linha cara.
As discussões, porém, ocorrem em meio a uma forte divergência entre as duas pastas em torno do fim do saque-aniversário do FGTS e dos empréstimos consignados que o utilizam como garantia, segundo o Valor ouviu de fontes envolvidas nas discussões. O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, quer acabar com essas duas medidas. Já o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, considera que o consignado do FGTS é uma forma barata para o trabalhador tomar empréstimo. O fortalecimento do mercado de crédito é um pilar do programa de trabalho de sua pasta.
A divergência é inconciliável e deverá ser submetida à arbitragem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo fontes a par das negociações, Marinho já teria feito progressos no trabalho de convencer o presidente.
O Ministério da Fazenda também vê preocupações no ambiente de crédito com o fim imediato das medidas relacionadas ao FGTS – a antecipação do saque-aniversário concedeu R$ 30 bilhões em créditos em 2023, ante somente R$ 18 bilhões do consignado privado. Desde 2020, quando foi instituído, a antecipação do saque-aniversário foi responsável por injetar R$ 75,3 bilhões na economia, a uma taxa de 1,79% ao mês.
Assim, a equipe de Haddad já trabalha numa espécie de “plano B”: pedir um período de transição, para que se verifique se as mudanças que estão sendo discutidas para o consignado do setor privado tornarão a linha tão atraente quanto o consignado do FGTS. Só então, propõe o ministro da Fazenda, Marinho poderia seguir com o plano de acabar com o saque-aniversário.
As estratégias diferentes se refletem na forma defendida por cada pasta para fazer as mudanças. A Fazenda defende que sejam por projeto de lei, para que possam ser debatidas com mais tempo. O Trabalho quer que ocorram por Medida Provisória (MP), para vigorar imediatamente.
A rigor, não há relação direta entre consignado privado e saque-aniversário. Nos planos da Fazenda, melhoras no consignado do setor privado são parte da agenda de crédito e atacam um segmento que funciona abaixo de seu potencial. Na visão do Ministério do Trabalho, o consignado privado é a alternativa ao fim do saque-aniversário.
Marinho e sua equipe têm críticas ao saque-aniversário por diversas razões. Por exemplo: ele reduz o saldo do FGTS, que serve para financiar habitação popular e saneamento. Um dos argumentos usados no debate com a Fazenda é que, fortalecido, o FGTS reduz a pressão sobre o Tesouro Nacional para bancar tais investimentos.
Dados da Caixa mostram, porém, que o saque-aniversário não reduziu o saldo do Fundo. Em 2020, quando começou a operar, o saque-aniversário movimentou R$ 10 bilhões e o saldo do FGTS era de R$ 424 bilhões. No ano passado, o saque-aniversário atingiu R$ 38 bilhões, enquanto o saldo chegou a R$ 570 bilhões.
Os bancos mapearam 40 pontos de dificuldade no consignado do setor privado. Desses, havia dois principais. O primeiro era a porta de acesso: para tomar o consignado, o trabalhador precisava que sua empregadora fizesse convênio com um banco. É algo que pode não ser difícil para grandes empresas, mas o é para as micro e pequenas empresas.
Na visão do mercado, esta dificuldade foi superada com o FGTS Digital. A ideia é que os trabalhadores formais possam tomar empréstimos consignados diretamente com as instituições financeiras, sem a necessidade de autorização do empregador. Atualmente, trabalhadores com carteira assinada precisam da anuência do empregador para tomar esse tipo de empréstimo.
A autorização do empregador não será mais necessária porque o FGTS Digital terá as informações de todos os envolvidos nos empréstimos. O Conselho Curador do FGTS se prepara para aprovar mudança.
A segunda dificuldade é a garantia: como o banco poderia assegurar que continuaria a receber as parcelas mesmo se o trabalhador fosse demitido. É esse ponto que se quer superar, com o bloqueio de parte do saldo do FGTS.
O Valor apurou que os bancos são contra o fim do saque-aniversário e o consignado do FGTS. Trata-se do empréstimo mais barato que o trabalhador pode acessar. Além da taxa de 1,79% ao mês ante 5,68% do crédito pessoal, segundo dados do Banco Central.
Procurados, os ministérios da Fazenda e do Trabalho e Emprego não responderam até o fechamento desta reportagem.
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