20 jan Greve contra reforma de aposentadoria paralisa a França
Greve contra reforma de aposentadoria paralisa a França
Sindicatos franceses convocaram nova paralisação para 31 de janeiro contra a proposta do presidente Emmanuel Macron.
Mais de um milhão de trabalhadores foram às ruas nesta quinta-feira (19) em toda a França, iniciando uma série de greves contra o plano do governo de elevar a idade de aposentadoria, que pode se converter numa longa batalha entre os sindicatos e o presidente Emmanuel Macron.
Paris amanheceu parada nesta quinta-feira quando professores, ferroviários e trabalhadores da saúde e do petróleo entraram em greve, provocando o fechamento de muitas escolas e creches. Vários museus, incluindo o Louvre, disseram que partes de suas coleções não seriam abertas. A circulação de trens, metrôs e ônibus foi severamente restringida e dezenas de voos foram cancelados. Mais de 10 mil policiais foram mobilizados em todo o país, incluindo 1,5 mil em Paris.
Os sindicatos franceses convocaram nova paralisação para 31 de janeiro. As greves vão determinar se a França pode ou não reformular seu sistema de aposentadoria baseado no bem-estar social, popular entre os eleitores, mas caro para o Estado. A proposta do governo de Macron é aumentar a idade de aposentadoria de 62 para 64 anos em 2030, argumentando ser a única maneira de preservar o sistema previdenciário sem aumentar os impostos ou elevar a dívida do país.
A França tem uma das taxas de pobreza mais baixas entre os idosos da Europa, mas gastou 13,8% de seu produto interno bruto em aposentadoria em 2021 – mais do que a maioria dos outros países europeus.
A mudança proposta tornou-se um símbolo do esforço de Macron para tornar a França mais competitiva. Os protestos marcarão o primeiro teste de sua capacidade para implementar sua agenda pró-negócios durante seu segundo mandato.
A idade de aposentadoria na França é menor do que na maioria dos outros países europeus. Os italianos podem parar de trabalhar aos 67 anos, enquanto os trabalhadores no Reino Unido se aposentam aos 66. Na Suécia, no entanto, a idade de aposentadoria é 62 anos.
Os sindicatos prometem travar uma grande batalha para impedir a adoção dos planos de Macron. Eles dizem que aumentar a idade de aposentadoria penaliza as pessoas que começaram a trabalhar cedo e aumentará o desemprego entre os trabalhadores mais velhos.
Alguns sindicatos do setor de energia estão ameaçando cortar o fornecimento de eletricidade aos legisladores que defendem a reforma previdenciária.
“Eu sugiro que eles também vejam as belas propriedades, os belos castelos de bilionários”, disse Philippe Martinez, secretário-geral da CGT, o segundo maior sindicato da França, na quarta-feira. “Seria bom se cortássemos a eletricidade deles para que eles pudessem se colocar, por alguns dias, no lugar das famílias francesas que não podem pagar suas contas”.
Uma pesquisa feita pela empresa de pesquisas de mercado Ifop mostrou que 68% dos franceses se opõem à reforma previdenciária proposta por Macron.
No final da década de 1950, a proporção de trabalhadores para aposentados na França era de quatro para um. Esse número foi reduzido para dois trabalhadores para um aposentado no início deste século e agora está em 1,7 trabalhador por aposentado, segundo Jean-Marc Daniel, professor de economia da escola de negócios ESCP Europe, com sede em Paris.
“Vai cair para 1,3 se não fizermos nada”, disse ele. “Se você aumentar a idade de aposentadoria, terá menos aposentados e mais trabalhadores”, acrescentou.
O governo de Macron quer reduzir seus gastos com aposentadoria para reduzir o déficit orçamentário do setor público do país. O objetivo é reduzi-lo para abaixo do teto da União Europeia de 3% da produção econômica em 2027, de 5% em 2022.
Para fazer com que os trabalhadores concordem com as mudanças, o governo está oferecendo melhores benefícios. Sob o novo plano, o governo pagaria uma pensão mínima de 85% do salário mínimo mensal francês, cerca de 1,2 mil euros, alta em comparação com o valor atual de 953,45 euros mensais. Trabalhadores com empregos fisicamente exigentes também podem se aposentar mais cedo por motivos médicos. As pessoas que começaram a trabalhar aos 20 anos ou antes – geralmente aqueles que não frequentaram a universidade – também poderão se aposentar aos 62 anos ou antes.
É improvável que essas medidas agradem aos sindicatos. Alguns dirigentes sindicais já estão convocando novas greves na próxima semana e em fevereiro.
A tentativa anterior de Macron de reformar o sistema previdenciário do país, em 2019, desencadeou a mais longa greve de transportes da história da França, paralisando o país por semanas. Ele foi forçado a arquivar seus planos quando o país entrou em lockdown devido à pandemia de covid-19.
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