24 jan Greve na Argentina pode determinar futuro das reformas de Milei
Greve na Argentina pode determinar futuro das reformas de Milei
Em meio à resistência no Congresso para aprovar suas reformas, Casa Rosada tenta reduzir efeitos de greve geral convocada por sindicatos.
O governo do presidente argentino, Javier Milei, que tomou posse há pouco mais de um mês, enfrenta hoje o primeiro grande teste na disputa com a oposição que se opõem às duras reformas econômicas que pretende implementar.
Enquanto os sindicalistas prometem demonstrar força com uma decisiva greve geral maciça de 24 horas e com a adesão de várias categorias, a Casa Rosada se esforçava ontem para esvaziar o movimento, com ameaças de punir responsáveis por bloqueios de vias e a obstrução da entrada de empregados em seus locais de trabalho. A queda de braço ocorre no momento em que o governo de ultradireita de Milei encontra resistência no Congresso e entre governadores – mesmo de partidos com os quais mantém mais diálogos – para aprovar suas reformas.
O partido La Libertad Avanza (LLA), de Milei, tem uma bancada de apenas 41 entre os 257 deputados na Câmara e de 7 do total de 72 membros do Senado. Em razão disso, necessita do apoio di grupo de direita Juntos por el Cambio (JxC) para levar adiante suas iniciativas nas duas casas do Congresso.
Na véspera, Milei alterou algumas medidas da sua Lei Ônibus, que reúne a maior parte das reformas, para tentar aprová-las no Legislativo – entre elas a que suspendia o reajuste das aposentadorias pelo índice da inflação e a que acelerava a venda de estatais como a petrolífera YPF. “As apostas dos dois lados são de que o resultado da greve geral definirá o futuro não só das votações no Congresso, mas também do próprio governo”, disse uma fonte próxima à Casa Rosada que pediu anonimato.
“Será importante verificar como o argentino comum vai reagir à paralisação”, disse a fonte. “O governo se comprometeu a adotar seu protocolo antipiquetes, que proíbe sindicatos de impedir o direito de ir e vir dos cidadãos, determinou o funcionamento de parcelas mínimas dos serviços essenciais e instituiu um disque-denúncia para evitar violações.”
“Uma insatisfação geral poderia levar mercado a rever suas estratégias”
“Para ter algum efeito, do ponto de vista da oposição, a greve geral terá de ser significativa”, disse o analista Dante Moreno, da EPyCA Consultores. “A Central Geral dos Trabalhadores [CGT, uma das maiores centrais sindicais da Argentina] já conseguiu, pela via judicial, bloquear a proposta de reforma trabalhista, limitando as ações do governo”, disse Moreno. “Se conseguir colocar um número significativo de manifestantes na rua – algo em torno de 500 mil, por exemplo – vai acender um alerta não só para o governo, mas também para o grupo de governadores e parlamentares da oposição mais propenso a um diálogo com o governo Milei”, afirmou.
A marcha de hoje terá apoio de sindicatos que representam pelo menos 40% dos trabalhadores formais da Argentina – incluindo motoristas de ônibus, ferroviários, metroviários, empregados do comércio, professores e aeroportuários, além de aposentados e trabalhadores informais. Na segunda-feira, companhias brasileiras cancelaram voos programados para hoje com destino à Argentina.
“Uma demonstração de insatisfação por parte dos cidadãos em geral deve ser acompanhada de perto pelos mercados, que tomarão a temperatura do atual contexto sócio-político para reavaliar os objetivos políticos e econômicos, pelo menos no curto prazo”, disse.
Para Sergio Berensztein, da consultoria que leva seu nome, porém, o protesto contra o governo recém-empossado deve ter pouca sucesso. “Isso se dá num momento em que Milei mantém uma popularidade alta, ao contrários da CGT, que tem grande rejeição”, disse.
O enfrentamento entre governo e oposição pressionou o câmbio. A cotação do dólar paralelo (blue) igualou ontem o recorde de 1.255 pesos. A diferença para a cotação oficial ficou em 52,67%.
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