Habilidades digitais: brasileiros se sentem preparados para o futuro do trabalho

Habilidades digitais: brasileiros se sentem preparados para o futuro do trabalho

Publicado em 25 de abril de 2022

Otimismo não reflete necessariamente o que será importante para a trajetória profissional, indica estudo em 19 países.

Os profissionais brasileiros se sentem preparados em termos de habilidades digitais, embora essa percepção não esteja necessariamente conectada ao que o futuro do trabalho exigirá em termos de expertise, conhecimento e competências. Em um estudo realizado pela Salesforce com 23 mil funcionários, de 19 países, 60% dos entrevistados acreditam que não estão preparados com as habilidades digitais necessárias para as empresas hoje. No Brasil, onde foram entrevistados 1,4 mil profissionais, esse percentual é de apenas 32%. Ou seja: 68% dos brasileiros se sentem preparados hoje. Além disso, 63% acham que têm as competências necessárias para o mundo digital nos próximos cinco anos – na média global, esse percentual é de somente 34%.

Entre as habilidades listadas no estudo – avaliadas com notas de 1 a 3 – que os brasileiros disseram se destacar mais estão: administração digital (2,18), tecnologia colaborativa (2,08), comércio eletrônico (2,04), marketing digital (2,00) e tecnologia de vendas (1,96). Considerando as competências digitais “do dia a dia”, apontadas no estudo como as necessárias para realizar o trabalho hoje, o nível de percepção de preparo dos brasileiros é alto. Principalmente em termos de navegação de web (71% se consideram avançados), redes sociais (67%) e uso de programas de produtividade (51%).

Essa boa percepção levou o Brasil a ocupar a segunda posição do Global Skills Index, o ranking originado a partir do estudo. Ficando atrás apenas da Índia e à frente de países como Estados Unidos, Cingapura e Coreia do Sul. A mensuração do estudo é feita a partir de uma autoavaliação dos entrevistados e não de uma investigação ou teste sobre o nível real de qualificação. Mesmo assim, o que explica o otimismo dos brasileiros com relação às competências digitais necessárias para o trabalho em um país que sofre com escassez de profissionais qualificados?

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Fábio Costa, diretor geral da Salesforce no Brasil, aponta uma primeira hipótese. “Há uma perspectiva de uso pessoal da tecnologia, e de que isso qualifica para o trabalho no mercado, e os brasileiros estão muito acostumados a usar as redes sociais e também ferramentas de colaboração”. Não à toa, afirma Costa, o brasileiro se acha muito bom em navegação da web e comunicação digital. Mas se sente menos preparado em tecnologia inteligente (aplicações que usam inteligência artificial) e análise de dados, segundo o estudo. Nessas duas habilidades, a maioria dos brasileiros entrevistados diz estar em nível iniciante ou intermediário de conhecimento: 63% e 72%, respectivamente.

 Outra hipótese, segundo Costa, é que em países mais avançados tecnologicamente, a percepção do que é estar preparado para as habilidades digitais do futuro é mais crítica. “O brasileiro tem uma autopercepção positiva em relação ao mundo digital, sobre a capacidade dele de estar neste cenário seja como usuário, seja como profissional. Mas podemos ter a pessoa mais positiva sendo a menos preparada. Há culturas com autocrítica maior, principalmente considerando competências mais técnicas, que vão achar que não estão preparadas”, afirma o executivo.

O que esse otimismo brasileiro traz de alerta, na visão de Costa, é que os profissionais do país precisam estar atentos às competências que de fato farão diferença na carreira e no mundo do trabalho – e que não são necessariamente aquelas utilizadas no dia a dia, em plataformas, no trabalho remoto ou virtual.

“A navegação na web e redes sociais já são consideradas habilidades ‘dadas’, não são relevantes pensando em competitividade. O que faz diferença é a capacidade de análise de dados e de criação e entendimento de soluções com inteligência artificial – e isso tem várias gradações, do nível mais simples ao complexo, dependendo da função e atuação”, afirma. Estudar mais como um e-commerce funciona e desenvolver competência para vendas on-line também é fundamental para abrir oportunidades profissionais, defende Costa.

O ponto positivo do otimismo do brasileiro é que esse comportamento o aproxima mais do que o afasta das habilidades digitais necessárias para o futuro do trabalho, na visão de Costa. “Quando falamos de transformação digital, o maior desafio está no processo, em mudar a forma como as pessoas trabalham e a percepção delas sobre como devem realizar algo. Esse positivismo do brasileiro acaba se refletindo em uma cultura mais aberta a mudança e para o aprendizado”. No estudo, 79% dos trabalhadores brasileiros estão planejando aprender novas habilidades, seja para crescer na própria carreira ou em busca de um novo caminho profissional.

Fonte: Valor Econômico
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