Home office permanente estimula executivos a saírem das grandes cidades

Home office permanente estimula executivos a saírem das grandes cidades

Publicado em 19 de maio de 2022

Com o trabalho remoto, já definitivo para alguns, lideranças buscam bem-estar e maior qualidade de vida em locais distantes da sede de suas empresas.

Entusiasta da vida agitada que São Paulo proporciona, com restaurantes e infinitas possibilidades culturais, Carlos Saavedra se viu angustiado quando perdeu tudo isso confinado em seu apartamento na capital. Começaram a aparecer até problemas no relacionamento com a esposa. “A gente teve um surto. Queríamos sair, mas, no começo, não podíamos nem ir ao parque”, lembra. Ele diz que com os dois trabalhando em casa, as reuniões eram difíceis. “Eu falo alto, a gente se atrapalhava.”

Em um momento de arrefecimento da pandemia, o casal foi convidado para um aniversário em Caraíva, na Bahia. As comemorações durariam uma semana e eles alugaram um espaço. Saavedra não estava de férias, então procurou um local onde pudesse trabalhar remotamente e curtir as festividades após o expediente. “Deu certo, e começamos a pensar na possibilidade de mudar para lá.” O executivo conta que a conexão encontrada nesse pequeno paraíso, com rio e mar perto, foi uma “natureza que chamava muito os dois”.

 A mudança se concretizou com uma casa alugada, e agora o casal está construindo a própria moradia. “É uma vida de rosa”, diz Saavedra, com seu sotaque colombiano e um português perfeito, de quem mora há cinco anos no Brasil. “A gente planta e colhe o próprio alimento, tem uma vida mais saudável, em contato permanente com a natureza.”

O dia do casal começa com o nascer do sol, por volta das 5h30. Saavedra parte para uma caminhada, às vezes sobe o rio de barco para meditar. Às 7h os dois se encontram para tomar o café da manhã juntos. “Compartilhamos o início do dia e umas 8h30 cada um começa a sua jornada [de trabalho]”, relata o executivo, que passa praticamente o dia todo em reuniões on-line. “Meu gestor está na Inglaterra, então, logo cedo [por causa do fuso horário] já tenho reuniões ou e-mails a responder.”

A pausa para almoçar é sempre reservada – até uma imposição da Mondelez, onde Saavedra trabalha como gerente de relações com o consumidor para a América Latina. O expediente termina umas 17h, e aí o executivo pratica beach tennis ou vai à vila de barquinho. “Sou fotógrafo amador também, e tenho encontrado espaço para curtir esse hobby com mais frequência do que antes.”

Saavedra relata que, antes da pandemia, não havia se dado conta da importância desse estilo de vida para ele. “A gente gostava da cidade”, diz. “E nunca imaginava essa possibilidade de morar na praia [por causa do trabalho]. Hoje vejo que posso me conectar com coisas que alimentam o meu espírito e o meu ser, além do trabalho, como a fotografia, aprender a plantar, contato com a natureza, que fazem parte de mim como indivíduo. Eu não tinha espaço para conectar com esse tipo de coisa.”

A multinacional onde Saavedra trabalha entendeu a necessidade de funcionários como ele, que optaram por morar fora dos grandes centros. A companhia adotou o modelo hibrido desde março deste ano para os 1.100 funcionários do administrativo. “Nosso modelo é totalmente flexível e damos autonomia para nossos colegas escolherem, junto ao gestor, os dias que irão ao escritório”, diz Betina Corbellini, vice-presidente de recursos humanos na Mondelez Brasil. “Não exigimos a quantidade de dias por semana. Incentivamos que, se confortáveis, possam escolher um dia para colaborar e trabalhar a criatividade em projetos ou encontros que promovam esses momentos em equipe.”

Saavedra está ciente que, eventualmente, terá que ir a São Paulo para uma reunião – e arcando com os custos do deslocamento -, mas isso ainda não aconteceu.

Corbellini acredita que a diversidade obtida com empregados vivendo em diferentes partes do Brasil é positiva para o negócio. “Pessoas de todas as localidades, com vivências diferentes, contribuem muito para o negócio, afinal estamos presentes em mais de 85% dos lares brasileiros e precisamos refletir isso no nosso time.”

Para que o modelo funcione, além de ferramentas e tecnologia, a Mondelez investiu na cultura de autonomia . “Nossos colegas são incentivados a serem protagonistas, simplificar o dia a dia, com metas claras e prioridades bem desenhadas e alinhadas entre todos da companhia”. Os momentos de feedback periódicos, que vão além de avaliações de desempenho e de conversas 1:1 entre equipes e gestores, também são uma recomendação. “É dessa forma que sabemos que esse modelo funciona, pois mesmo estando fisicamente longe, a integração e a cultura protagonista se mantêm.”

Fonte: Valor Econômico
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