08 mar Homem divide mais, mas ‘jornada invisível’ sobrecarrega mulher
Homem divide mais, mas ‘jornada invisível’ sobrecarrega mulher
Mudar o quadro exige políticas públicas, como ampliação da licença paternidade, diz pesquisadora da FGV.
Rosilene Guarino mora na Brasilândia, bairro de classe C e D, na zona norte de São Paulo e sai de casa por volta das 7 horas da manhã. Às 9 horas, ela começa o trabalho de manicure em um salão de beleza na Vila Romana, zona oeste. Dependendo do movimento, a jornada pode começar mais cedo e terminar muito além das seis da tarde, quando costuma encerrar o expediente. Quando chega em casa, depois de pelo menos uma hora e meia de ônibus, a manicure veste o uniforme de dona de casa e inicia seu segundo turno.
Mãe de três filhos, com idades de 3, 12 e 16 anos, Guarino prepara o jantar, enquanto limpa a casa e cuida de lavar ou passar as roupas da família. O marido, diz ela, divide pouco as tarefas domésticas. “Não condeno porque ele foi criado assim, e tem um trabalho mais pesado que o meu”, afirma.

O cenário é bem diferente na casa de Carolina Cavenaghi, de 40 anos, e mãe de dois filhos, de 5 e 7 anos. Depois de 15 anos no mercado financeiro, com passagens por grandes instituições, tais como Bradesco, Itaú e Morgan Stanley, entre outros, em 2020 ela partiu para o empreendedorismo e fundou a Fin4She, uma plataforma de educação e formação financeira voltada exclusivamente para o público feminino. Empreender exige tempo, energia e disponibilidade.
“Mas foi só quando meu marido perguntou se as vacinas dos nossos filhos estavam em dia é que me dei conta da necessidade de ele saber essa resposta e, mais que isso, dividir comigo a responsabilidade de cuidar das crianças”, lembra ela. “Não quero abrir mão do meu papel de mãe, mas por que sou eu quem tem que parar o que está fazendo para levá-los ou buscá-los na escola?”
Hoje, Cavenaghi e o marido se revezam em todas as tarefas que envolvem os filhos e, não raro, o marido para o que está fazendo para atender a algum chamado da escola ou mesmo para buscar os filhos no colégio. “No começo ele não só estranhava como havia um certo constrangimento. Com o tempo, foi ficando mais normal, até para os outros executivos da empresa onde ele trabalha”, conta.
Não debater sobre a partilha de afazeres ou partir do princípio que o companheiro não sabe ou não pode compartilhar as tarefas domésticas, faz com que as mulheres tenham jornadas duplas, às vezes triplas, como mostra a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad). De acordo com o levantamento, em 2022, as mulheres gastaram 19,2 horas por semana com afazeres domésticos, como preparar refeições, cuidar das roupas, da casa e de pessoas da família, enquanto os homens dispenderam 11,3 horas com as mesmas demandas – uma diferença de 7,9 horas. Essa distância já foi maior – de 10 horas, em 2016, primeiro ano em que o estudo foi realizado, as mulheres gastavam 21,1 horas em afazeres domésticos, enquanto os homens, 11,1 horas. A diferença vem caindo ano a ano, mas em velocidade muito menor do que se deseja.
Em 2019 – último ano em que a pesquisa tinha sido realizada antes da pausa causada pela pandemia de covid -, eram 20,9 horas para mulheres e 10,9 horas para homens. A pandemia mostrou como as mulheres são sobrecarregadas com tarefas ligadas ao cuidado – e aqui entram desde afazeres como cuidar da casa e dos filhos, até um idoso ou familiar doente. E essa sobrecarga não anda sozinha, geralmente é acompanhada pela indiferença.
Basta lembrar a surpresa, e até o espanto, causados pelo tema da redação do Enem deste ano: desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil. “Fiquei surpresa e muito feliz quando vi que este era o tema da redação do Enem porque, finalmente, estamos jogando luz sobre um assunto que precisa ser tratado e resolvido”, afirma a presidente da Sociedade de Economia da Família e do Gênero (GeFam) e professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV RI), Lorena Hakak.
Por outro lado, acrescenta ela, trazer o tema à luz e debater a questão é importante, mas mudar o quadro exige políticas públicas. “A começar pela ampliação da licença paternidade (atualmente, fixada em cinco dias corridos, no Brasil). A experiência em países como Espanha, Suécia e Alemanha mostra que expandir a licença paternidade é um importante instrumento para promover maior divisão entre homens e mulheres”, afirma Hakak.
Ela própria teve de adiar o doutorado por sete ou oito anos, por conta dos cuidados com os filhos quando eram menores. “Embora meu marido sempre tenha sido muito parceiro, não dá para falar em equanimidade quando se trata de tarefas domésticas ou cuidados”, diz.
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