IA está provocando mais demissões do que as empresas querem admitir

IA está provocando mais demissões do que as empresas querem admitir

Publicado em 9 de fevereiro de 2024

Além de reduzir pessoal, os cortes visam economizar recursos para usar na contratação de qualificados na tecnologia.

As maiores demissões na United Parcel Service (UPS) em seus 116 anos de história foram possíveis, em parte, por novas tecnologias que incluem a Inteligência Artificial (IA). A afirmação foi feita pela presidente-executiva da companhia, Carol Tomé, na semana passada. Citando um exemplo, ela disse que o aprendizado de máquina permite aos vendedores elaborar propostas sem precisar pedir a orientação de especialistas em formação de preços.

 A UPS faz parte de um número crescente de empresas que enfrentam uma espécie de IA em duas etapas: mostrar aos investidores como a IA ajuda a fazer mais com menos, evitando ao mesmo tempo estimular o medo que surge ao se ligar diretamente a tecnologia aos cortes de empregos. Um porta-voz da UPS disse posteriormente que a IA não está substituindo trabalhadores, e que os executivos não fizeram uma ligação explícita entre a IA e as demissões permanentes na teleconferência de resultados da companhia.

No mês passado, a BlackRock disse que iria demitir cerca de 600 funcionários. Em um memorando interno, o presidente-executivo Larry Fink e o presidente do conselho de administração Rob Kapito apontaram para mudanças dramáticas no setor “e talvez o mais sério: as novas tecnologias vão transformar nosso setor – e todos os outros setores”.

Embora Fink tenha falado abertamente sobre sua crença no potencial da IA para turbinar a produtividade, a nova tecnologia não foi citada como motivo dos cortes. A gestora de ativos ainda espera ter uma equipe maior até o fim do ano, uma vez que está ampliando certas partes de seus negócios, afirmou o memorando.

Os especialistas estão se esforçando para obter um quadro mais exato sobre quantos empregos estão sendo eliminados com os avanços rápidos da IA. Desde maio, as empresas dos EUA anunciaram mais de 4.600 demissões, a fim de liberar recursos para contratar pessoal com experiência em IA, ou porque a tecnologia substituiu tarefas, diz a empresa de recolocação Challenger, Gray & Christimas. Mas essa estimativa “certamente está subestimando” o total real, disse o vice-presidente sênior Andrew Challenger em uma entrevista.

“Provavelmente já existam mais empregos na economia que estão sendo cortados por causa da IA, do que os que estão sendo atribuídos a isso. Cada vez que uma companhia menciona isso, ela recebe as manchetes em todos os meios de comunicação por um mês”, disse Challenger. “Elas preferem passar despercebidas na maioria das vezes.”

No segundo trimestre, a IBM ganhou as manchetes no mundo todo quando o presidente-executivo Arvind Krishna disse à Bloomberg que a companhia planejava dar uma pausa nas contratações que ela acredita que poderão ser substituídas em breve pela IA. Um porta-voz da IBM disse que a empresa não está congelando as contratações e que pretende manter o nível de pessoal este ano.

Johnny Taylor, presidente-executivo da Society for Human Resource Management, concorda que muitos desses cortes acontecerão silenciosamente. “A IBM foi uma líder e tornou isso público, e foi duramente criticada”, disse Taylor em uma entrevista em dezembro. “Então, o restante delas disse ‘não vamos anunciar [os cortes], vamos simplesmente fazer. Vamos reduzir nosso número de funcionários.”

Muitas empresas poderão fazer isso desacelerando significativamente as contratações, disse ele. “Acordaremos daqui a três anos e veremos organizações bem mais enxutas. Eles terão substituído você sem fazer um grande anúncio.”

Até agora, a maioria dos cortes relacionados à IA ocorreram no setor de tecnologia, segundo o cálculo da Challenger. Alguma empresas, como o site de ajuda em lições de casa Chegg e o site de ajuda a programadores Stack Overflow, demitiram funcionários depois que seus negócios foram diretamente prejudicados por produtos de IA. Outras companhias, como o serviço de armazenagem de arquivos Dropbox, correram para redirecionar o foco para a nova tecnologia, dispensando funcionários para abrir caminho para novas contratações com habilidades em IA.

Depois da IBM, apenas um punhado de companhias ligou explicitamente a IA a demissões ou congelamentos de contratações.

Em dezembro, a companhia sueca de e-commerce Klarna disse que iria congelar as contratações, uma vez que ferramentas como o ChatGPT da OpenAI reduziram os tempos necessários para certas tarefas. “Precisamos de menos gente para fazer as mesmas coisas”, disse o presidente-executivo Sebastian Siemiatkowski ao “Telegraph”. “A coisa certa para nós é simplesmente dizer: ‘não vamos contratar agora, vamos ver como as coisas se desenrolam”. Um porta-voz da Klarna não quis fazer mais comentários.

Em janeiro, a Duolingo, uma empresa de softwares de aprendizado de idiomas, optou por não renovar cerca de 10% seus prestadores de serviços. “Simplesmente não precisamos mais de tantas pessoas para fazer o tipo de trabalho que alguns desses prestadores de serviços estavam fazendo. Parte disso pode ser atribuído à IA”, disse um porta-voz à Bloomberg, acrescentando que a Duolingo não está congelando as contratações e que vem recrutando ativamente para uma série de funções. A companhia disse que nenhum funcionário em tempo integral foi afetado e que a redução dos empregos não é uma “substituição direta” de trabalhadores pela IA, uma vez que muitos de seus funcionários de período integral e prestadores de serviços usam a tecnologia em seus trabalhos.

No setor de tecnologia, alguns altos executivos alertaram que a IA poderá eliminar certos empregos, com Elon Musk chegando ao ponto de afirmar que “haverá um momento em que nenhum emprego será necessário”. Mas para as empresas que no momento estão apresentando a IA aos seus funcionários, muitas vezes há uma visão otimista.

 “A grande coisa que ouviremos as empresas dizer é que elas não estão focadas na eliminação, e sim no acréscimo – tentando tornar as pessoas mais eficientes e produtivas”, disse a Challenger. “Mas é claro que existem muitos cenários no momento em que uma pessoa poderia fazer o trabalho de quatro ou cinco com a ajuda da IA, de uma maneira que isso não era possível um ano atrás. Isso está acontecendo in loco, mesmo que não ouçamos sobre isso nos grandes anúncios das organizações.”

Fonte: Valor Econômico
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