IA pode afetar 37% dos trabalhadores brasileiros

IA pode afetar 37% dos trabalhadores brasileiros

Publicado em 26 de maio de 2026

Estudo aponta que impacto irá desde amplificar capacidades humanas até substituir completamente os profissionais.

A inteligência artificial (IA) tem transformado a atividade laboral em todo o mundo e seus efeitos tendem a ser ainda mais profundos no Brasil, que pode ter até 37% de seus trabalhadores impactados pela tecnologia. É o que revela o estudo “IA no Mercado de Trabalho: Quem Ganha, Quem Perde – e Quem Fica para Depois”, produzido pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio), em parceria com as Fundações Grupo Volkswagen e Arymax.

O levantamento, baseado em aproximadamente 100 estudos nacionais e internacionais, analisou como a IA afeta os postos de trabalho de dois modos: automação, quando substitui o esforço humano completamente, e complementação, quando amplifica as capacidades humanas por meio de ferramentas analíticas. Além disso, o estudo aponta que a tecnologia está influenciando na demanda por trabalho, na oferta de talentos, e na experiência no ambiente profissional.

João Victor Archegas, coordenador no ITS Rio e articulador do estudo, diz que os dados acerca da repercussão da IA exigem cautela diante do pensamento que chamou de “tecno-otimista”. “A ideia de que o progresso tecnológico beneficia a todos ‘no fim das contas’ é historicamente frágil e ignora desigualdades estruturais”, afirma. “A IA impacta diferentes ocupações de maneira distinta. A tecnologia tem potencial de automação majoritariamente nos trabalhos de baixa qualificação”, explica.

Para ele, com a expansão dessa tecnologia no mercado de trabalho se impõe uma formação contínua às pessoas, pois, conforme aponta a pesquisa, a obsolescência das habilidades profissionais caiu de 30 para 7 anos, “e a tendência é cair ainda mais com o passar dos anos”, diz.

Contudo, o desafio da educação no país é estrutural e começa na base. A pesquisa revela, fundamentada em um levantamento da Anatel, que apenas 21,3% dos brasileiros possuem nível agregado básico de habilidades digitais, ou seja, sabem enviar um e-mail. “Essa realidade pode limitar o acesso às oportunidades geradas pela IA”, diz Vitor Hugo Neia, diretor geral da Fundação Grupo Volkswagen. “Olhando esse cenário, não dá para fugir da educação. Precisamos, portanto, de um plano nacional de qualificação e requalificação profissional, que não seja homogêneo, mas considere as diferentes realidades nacionais.”

Neia ainda destaca que o advento da IA despertou a sociedade para a importância das competências socioemocionais e para a plena atividade profissional. “Aquele que quer se manter no mercado e evitar a competição homem versus máquina precisa desenvolver o pensamento analítico e a criatividade a fim de usar a IA como complemento do trabalho e evitar a substituição.”

Na mesma linha, Piero Franceschi, CEO da escola de negócios StartSe, acredita que a chegada da IA convoca para a “reumanizacão” do trabalho, em que se deve focar naquilo que o ser humano é melhor. “Isto é, precisamos enfatizar o que está ligado às nossas competências essenciais que foram apagadas por um excesso de produtividade”, diz.

“A humanidade se encontra consigo mesma no trabalho, que é uma atividade proeminentemente coletiva, pois não se constrói nada sozinho ou só com máquinas, apenas se fará reprodução”, diz ele, que é autor do livro “O trabalho de ser humano”, pela editora Gente.

Segundo Franceschi, há uma narrativa que afirma ser possível substituir o trabalhador por IA a fim de se obter maior ganho produtivo, contudo “essa crença de que a tecnologia é sinônimo de eficiência nem sempre se comprova na atualidade e nem ao longo da história”.

“A ideia de que o progresso da tecnologia beneficia a todos ignora desigualdades estruturais”

Em relação à substituição do trabalho humano, Neia, da Fundação Grupo Volkswagen, recorda que é um debate sempre posto, desde o início da Revolução Industrial com a máquina a vapor. “Nesse momento, devemos ter a IA como extensão e complemento da inteligência humana, e não como substituição”, diz.

Acerca da gestão algorítmica e da vigilância digital, o especialista afirma que há um significativo impacto na maneira que a pessoa vai desempenhar suas tarefas, pois “o estudo mostra que trabalhadores submetidos à chefia automatizada, como os trabalhadores de aplicativos, se sentem pressionados a trabalhar mais, e a consequência é o comprometimento da saúde mental”.

Gustavo Oliveira, gerente de programas e impacto da Fundação Arymax, defende que o Brasil carece de investimentos na área de infraestrutura a fim de treinar a população e desenvolver modelos avançados de IA, “como esses que são lançados a cada semana no mercado pelos Estados Unidos e China”.

“É preciso uma IA nacional que converse com a realidade brasileira e que possa endereçar problemas que são enfrentados pelo nosso mercado de trabalho e que talvez não existam em outros lugares”, diz.

Apesar dos desafios, a pesquisa destaca que a IA também apresenta oportunidades relevantes. Estudos analisados indicam que a tecnologia pode aumentar a produtividade em até 14%, especialmente entre trabalhadores menos experientes, “o que sugere potencial de democratização, desde que haja investimento em capacitação. Sendo assim, a IA pode até ser uma aliada da inclusão produtiva e do desenvolvimento econômico”, diz Oliveira.

O estudo revela, inclusive, boas práticas internacionais que podem inspirar o Brasil. Alemanha, Portugal e Austrália, por exemplo, apostam em parcerias público-privadas, trilhas personalizadas de capacitação para a população e forte investimento em infraestrutura digital.

Entre as propostas do estudo, destacam-se a criação de um observatório nacional sobre IA e trabalho, com dados desagregados para orientar políticas públicas baseadas em evidências, e investimentos em conectividade e acesso digital, especialmente em regiões mais vulneráveis.

Já para o setor privado, o plano enfatiza a importância de estratégias que priorizem a complementação, em vez da substituição do trabalho humano. Além da criação de programas contínuos de qualificação e códigos de conduta para o uso responsável da IA.

Fonte: Valor Econômico
No Comments

Sorry, the comment form is closed at this time.