18 jun Índice de miséria dispara e é o maior em nove anos
Índice de miséria dispara e é o maior em nove anos
Desemprego é principal fator para alta de dado que inclui inflação.
O índice de miséria (indicador econômico calculado pela soma da taxa de inflação com a de desemprego) no Brasil atingiu em maio o maior nível desde 2012, pico da série estimada pelo economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale. Segundo ele, essa taxa ficou no mês passado em 23,4 pontos percentuais, pico histórico que, em seus cálculos, deve ser novamente superado neste mês, chegando a 23,7 pontos.
No fim do ano passado, esse indicador estava em 18,4 pontos e, em maio de 2020, 14,8 pontos. A partir de julho, contudo, Vale vê uma trajetória de melhora, mas encerrando o ano ainda acima de 20%, nível ainda bastante elevado, historicamente. Segundo ele, apesar da inflação alta, o principal fator para o índice de miséria recorde é o desemprego. Essa situação, explica o economista, ajuda a entender a queda de popularidade recente de Jair Bolsonaro.

“Devemos chegar no pico histórico ainda com a piora da taxa de desemprego neste primeiro semestre. E o interessante é que mesmo caindo ainda vai estar próximo do pico histórico anterior da época da [ex-presidente] Dilma [Rousseff]”, disse ao Valor. “Vale dizer que mesmo para 2022 esse número ainda vai ser elevado.”
Em sua visão, diferentemente do que ocorreu no governo Dilma, quando o problema maior era a inflação persistentemente alta, o vilão principal agora é o desemprego, que, para ele, é um problema mais difícil de solucionar do que a própria inflação.
Em maio, a inflação medida pelo IPCA chegou em 12 meses a 8,1% e o desemprego por ele estimado é de 15,3%. O dado efetivo mais recente de desemprego do IBGE é de março, quando estava em 14,7%. Nesse mês, o índice de miséria chegou a 20,8 pontos, empatando com o pico anterior da série, registrado em agosto de 2016.
“Esse número ajuda a explicar a baixa de popularidade do presidente e tende a impedir que ele suba para patamares muito maiores no ano que vem. O termômetro social vai estar contra o presidente. Não à toa a busca por um programa social robusto que justamente minimiza as perdas para a população em extrema pobreza, que também está sofrendo agora com a inflação”, salientou Sergio Vale.
O economista alerta que ter um programa social é importante, mas precisa se ter cuidado para que o desenho dele não tenha um componente político, como há indicações de que vai ocorrer. “Isso pode atrapalhar o desenho do programa, não só por ele mesmo, mas pelo que pode causar na estrutura de gastos públicos. A tendência é a pressão nos gastos manter o sentido de preocupação com a política fiscal nos próximos anos.”
A professora associada de economia da Universidade Federal Fluminense (UFF) Julia Braga explica que a alta da inflação é reflexo da desvalorização cambial que aconteceu até o início do ano combinada com a alta de commodities no exterior. “Isso impactou os custos ao produtor e teve algum repasse ao varejo”, disse também destacando a alta dos preços dos alimentos e a crise hídrica que elevou o preço da energia elétrica. Para a economista, a tendência nos próximos meses é de que a inflação arrefeça, com a atuação do Banco Central e a valorização recente do câmbio.
No caso do desemprego, ela vê um componente mais estrutural, decorrente de praticamente uma década de estagnação da economia brasileira. “O Brasil entrou na pandemia já com uma alta taxa de desemprego e subemprego, o que foi agravado pela pandemia”, disse, apontando que, mesmo com a retomada, a taxa de desemprego não deve cair porque deve haver um aumento na procura de trabalho por um contingente que hoje está desalentado. “A queda do desemprego é uma coisa mais complicada”, aponta.
Ela destaca que ainda tem uma situação social de miséria crescente no Brasil, que o programa Bolsa Família não tem dado conta de resolver, especialmente com a subida da inflação. “É preciso reforçar o programa social no curto prazo. No médio e longo prazo, o Brasil precisa de um planejamento, com volta de investimentos em infraestrutura, como está ocorrendo em todo mundo”, disse, citando exemplos como o da África do Sul. “O Brasil ainda está muito defasado nessa discussão”, completou.
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