06 jun Inflação menor, alta do mínimo e benefícios puxam renda em 2023
Inflação menor, alta do mínimo e benefícios puxam renda em 2023
Massa real de rendimentos deve ter crescimento de 4% a 5,6% no ano, mas impacto da ocupação será ‘modesto’ para o resultado final, aponta consultoria.
Com o recuo da inflação e o aumento do salário mínimo, a massa real de rendimento do brasileiro deve crescer de 4% a 5,6% em 2023 sobre o ano anterior, projetam economistas. A ocupação terá efeito “modesto” nessa conta, visto que a alta do indicador para o ano é estimada entre 0,5% e 0,6%, segundo fontes ouvidas pelo Valor – as projeções do Bradesco indicam estabilidade ante 2022.
O volume de pessoas ocupadas nos mercados formal e informal, adicionado à média dos salários, deverá resultar em uma massa real de rendimento de R$ 289 bilhões mensais em 2023, segundo cálculo da consultoria MacroSector. A conta não inclui benefícios governamentais.
Se incluído o Bolsa Família, o principal benefício pago pelo governo federal, a soma mensal chega aos R$ 300,4 bilhões. No ano serão R$ 3,6 trilhões circulando na economia. “É massa salarial expressiva em um país com R$ 10 trilhões de PIB”, disse o economista Fabio Silveira, sócio da MacroSector.
“Não é muito apropriado fazer essa comparação, se considerada a forma de cálculo do PIB”, ressalva. “Mas o paralelo mostra que é massa de renda importante para que a economia avance, ou não.”
Após um período de recuos anuais seguidos, em 2020 e 2021, devido à desaceleração econômica causada pela pandemia, a massa real de rendimento se recuperou no ano passado. Se observados apenas os salários, cresceu entre 6,6% e 7% – e varia conforme a fonte de informação.
“O valor do Bolsa Família basicamente triplicou num curto espaço de tempo [desde 2022], e o número de beneficiários aumentou quase 50%. Isso turbina o consumo no curto prazo, não necessariamente da forma mais saudável”, pondera Alberto Ramos, diretor do grupo de pesquisas macroeconômicas para América Latina do Goldman Sachs.
Foi um crescimento significativo de renda que trouxe efeitos para o consumo em alimentos, bens e serviços, mesmo com a inflação incomodando o brasileiro. “Tem uma questão individual [por causa] da pandemia: vimos um episódio de demanda reprimida por serviços que não puderam ser consumidos em 2020 e 2021 por causa das restrições de circulação de pessoas”, avalia o economista Bruno Imaizumi, da LCA Consultores.
“E ainda há resquícios desse consumo no ano de 2023”, continua Imaizumi. Em outras palavras, mesmo em um país inflacionado, o consumidor gastou. A massa real de renda subirá um pouco menos em 2023, mas ainda está em recuperação, devido principalmente à valorização dos patamares de renda média – e menos pelos efeitos do crescimento da ocupação.
“O [salário] mínimo é referência para outros rendimentos, e os dois reajustes feitos em 2023 acabam beneficiando também os trabalhadores informais”, diz Lucas Assis, analista da Tendências Consultoria. A alta do salário mínimo surte efeito na base de cálculo dos programas sociais, aposentadorias e pensões. Também houve reajuste para servidores públicos, desoneração dos combustíveis e recuo da inflação, todos com impacto positivo para a massa de renda das famílias.
Alguns economistas, contudo, avaliam que o impacto do aumento da renda sobre o consumo pode esbarrar nos juros altos nos próximos meses. “[O consumo das famílias] Vai continuar crescendo, só que com desaceleração ao longo dos meses. Esperamos crescimento de 2,5% para 2023, que é menor que o dos anos anteriores (3,7% em 2021, e 4,3% em 2022)”, cita Imaizumi.
Silveira destaca que “as famílias só podem se endividar uma vez” e, com o atual patamar de juros, a velocidade de expansão do crédito cai. “Isso já está ocorrendo. A inadimplência do crédito pessoal, que tem uma parcela significativa dentro do crédito ao consumidor, subiu”.
Na visão de Ramos, certa “restritividade” no panorama do crédito não pode ser vista como um fator ruim para a economia. “No curto prazo é [ruim], mas depois disso traz algo positivo que é inflação e juro mais baixos e crescimento sustentável”, opina.
Dado o patamar de juros, o Bradesco esperava uma desaceleração maior do consumo das famílias, ou talvez uma queda, no começo do ano. “Mas os dados do PIB não mostraram isso. Há uma desaceleração gradual”, avalia Myriã Bast, economista do banco. Segundo ela, o segundo trimestre do ano ainda refletirá o incremento da massa de renda.
“Mas o efeito da política monetária deve se sobressair no segundo semestre, quando esperamos uma desaceleração mais forte do consumo das famílias, pois os outros efeitos [reajuste do mínimo, benefícios do governo, recuo da inflação etc.] vão se dissipando.”
Passado o momento de retomada no período pós-pandemia, o avanço anual da massa de rendimento do brasileiro tende a voltar a patamares anteriores ao de 2020. São projetadas altas de 2,5% a 3% ao ano nesta década.
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