Inflação pesa mais sobre os pobres em 2022, diz Ipea

Inflação pesa mais sobre os pobres em 2022, diz Ipea

Publicado em 17 de março de 2022

Tarifas de energia, gás de botijão e alimentos em domicílio ajudam a explicar a diferença.

A inflação acelerou para todas as seis faixas de renda acompanhadas pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em fevereiro. Ainda assim, no acumulado do ano ou em 12 meses, a alta de preços penaliza mais a faixa de renda “muito baixa”, disse o Ipea.

No mês passado, as famílias de renda domiciliar alta – acima de R$ 17,7 mil – assistiram à maior aceleração da inflação, que passou de 0,34% em janeiro para 1,07% em fevereiro. A segunda maior inflação no mês é dos mais pobres do país, em domicílios com renda total abaixo de R$ 1,8 mil. Para estes o indicador avançou de 0,63% para 1% na passagem de janeiro para fevereiro. Nos dois primeiros meses de 2022, as famílias mais pobres do país encaram a maior inflação da pirâmide, 1,63%.

Em 12 meses, mostrou o Ipea ontem, o quadro se repete: mais pobres enfrentam alta de 10,9% no preço da cesta de consumo, 1,2 ponto percentual acima do índice acumulado dos mais ricos (9,7%).

A inflação em 12 meses para famílias de renda mais baixa se deve às altas do grupo habitação, em razão dos reajustes acumulados de 28,1% das tarifas de energia elétrica e de 27,6% do gás de botijão. Pesa, também, a alta dos alimentos em domicílio – de 8,6% das carnes, 19,6% de aves e ovos, 43,8% do açúcar e 61,2% do café. Alimentos têm peso de 22,3% na cesta dos mais pobres e, por isso, impactam mais a inflação desse grupo na comparação com os mais ricos, que comprometem apenas 7,1% de seus ganhos com esses produtos.

Especificamente em fevereiro, pesaram para os muito pobres os aumentos de preço dos alimentos in natura, como batata (23,5%) e cenoura (55,4%). A economista do Ipea Maria Andreia Lameiras atribui o movimento ao excesso de chuvas nas regiões produtoras do Brasil, pior do que de costume. Lameiras destaca, ainda, os reajustes de cereais e farináceos, como milho e trigo, que subiram na esteira da valorização das commodities agrícolas e especulações que anteciparam os efeitos da guerra na Ucrânia sobre esses gêneros, exportados pelos países em conflito. “Com isso, o esperado arrefecimento da inflação aos mais pobres não se concretizou”, diz.

Para as famílias de renda mais alta, em 12 meses, a maior pressão inflacionária vem do grupo transportes, refletido pelos aumentos de 32,6% da gasolina, de 36,2% do etanol e de 27,7% do transporte por aplicativo. Em razão de novos reajustes neste mês, os três itens vão experimentar novos picos de inflação em março. Em fevereiro, para as faixas de renda mais alta, também se destacaram os reajustes de 6,7% das mensalidades escolares e de 3,9% dos cursos extracurriculares.

Para o Ipea, a inflação dos mais pobres deve ser alcançada pela dos mais ricos, a ser alimentado pela alta dos combustíveis e do transporte por aplicativo no curto prazo, além de reajustes para serviços em geral no médio prazo. O Ipea projeta arrefecimento da inflação acumulada para todos os grupos a partir de maio, quando os meses “mais carregados” de 2021 deixam a medição. Mas eventual continuidade da guerra na Ucrânia, diz Lameiras, anularia essa tendência, ao incentivar altas nos preços internacionais do petróleo e commodities agrícolas, o que impactaria o mercado doméstico.

Também ontem, a Fundação Getulio Vargas (FGV) divulgou o Índice Geral de Preços – 10 (IGP-10), que desacelerou de 1,98% em fevereiro para 1,18% em março. Mas o indicador, cuja taxa menor foi favorecida por recuos em itens de peso como minério de ferro (-2,57%), não representa mais o momento da inflação, segundo o economista da FGV Matheus Peçanha. O índice, que antecipa como será a evolução dos Índices Gerais de Preços (IGPs) no mês, não contempla impactos da guerra no Leste Europeu nos preços domésticos.

Fonte: Valor Econômico
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