21 jul Investir nas mulheres negras pode mudar as empresas e a sociedade
Investir nas mulheres negras pode mudar as empresas e a sociedade
Salários e ocupação em cargos de liderança não acompanham maior presença da mulher na sociedade, dizem especialistas.
Investir na diversidade e inclusão de mulheres negras no mercado de trabalho é possível e pode transformar tanto as empresas como a sociedade. Esse é o cenário que apontam Daniele Jesus, head de RH da agência de publicidade Wieden Kennedy -SP, e Carola Oliveira, gerente de estratégia de ativação da Globo, convidadas que participaram ontem da Live do Valor + Valor Social – área de responsabilidade social da Globo – sobre “Mulheres negras na liderança”.
Nos últimos dez anos, o número de mulheres no país ocupando a função de responsável da família cresceu, segundo dados da FGV/Ibre, mais de 70%. Porém, o rendimento salarial e a ocupação em cargos de liderança não acompanham, proporcionalmente, esse crescimento.
“Tenho a convicção de que as mulheres não avançam por conta da estrutura patriarcal que vivemos”, diz Daniele. Mas ela projeta que as mulheres terão papel fundamental no futuro das organizações. “Pensando na próxima revolução do trabalho, da sensibilidade, o cuidado será olhado como essencial para os negócios e as mulheres já fazem isso.”
As empresas que têm investido em diversidade e inclusão, muitas vezes, fazem isso para ter o selo ESG (do inglês Enviromental, Social and Governance) de quem adota práticas com essas preocupações. “Se for honesta a intenção dessas empresas que têm esse selo ESG de deixar como legado um mundo mais diverso e confortável, para que pessoas de várias realidades sejam escutadas, a gente consegue garantir que a inclusão aconteça ao mesmo passo da diversidade”, diz.
A head de RH lembrou que, atualmente, estudos de instituições sérias confirmam que a diversidade impacta no resultado financeiro das companhias. “Quanto mais pessoas diferentes dentro de uma empresa, mais ela consegue conectar o propósito de marca com essas pessoas e afetar a sociedade como um todo”.
Um dos meios para se chegar a esse resultado é a adoção da metodologia do “currículo oculto” para recrutamento e seleção, desenvolvida por Daniele. “Quando eu tive sucesso de trazer para empresas os talentos que elas precisavam é quando vi o que não está no currículo formal”, explica.
Na prática, trata-se de enxergar e considerar, as habilidades desenvolvidas nas vivências de cada pessoa, como poder de adaptação, criatividade e o talento para fazer conexões. Na Wieden, ela lidera um programa que levou para trabalhar na agência dez jovens da periferia, sendo oito mulheres, a maioria preta, e a seleção foi feita por meio do currículo oculto.
A diversidade nas equipes também incentiva a criatividade. É o que se vê na novela da Globo “Vai na fé”, cujas personagens principais são mulheres pretas microempreendedoras. “Nessa novela a gente vê protagonistas negros e uma leitura de mobilidade racial”, diz Carola. “A gente tem um profissional negro líder de advocacia, um dono de estabelecimento, trazendo as narrativas que refletem o país, que quer se enxergar e quer sonhar”, acrescenta.
A diretora da novela, Rosane Svartman, traz isso desde fora das telas. “Até para a construção ser genuína, ela tem autores LGBT, negros, pessoas de diversos Estados, regiões e o núcleo de diretores também traz esse reflexo social e regional”, diz Carola.
A publicitária ganhou três Cannes este ano, um deles relacionado à pouca visibilidade de mulheres chefes de cozinha. “Nesse projeto, desenvolvido quando eu ainda estava em uma agência de publicidade, tínhamos o objetivo de lançar luz sobre as principais barreiras que faziam com que chefes femininos não tivessem tanto espaço como chefes masculinos”, explica. “Às vezes, elas são arrimo de família, têm dupla jornada, nem sempre conseguem fazer curso e, sem investimento externo, vendem para pagar a produção, como a Sol e a Bruna da novela”, diz.
Nesse projeto liderado por Carola, dez chefes mulheres como Bel Coelho, Katia Barbosa e Bela Gil criaram um menu com pratos que traziam essas discussões para a mesa, por meio de nomes provocativos como: Lagostim da prosperidade, Nem tudo são flores, Beleza oculta, Baião de todas, Mousse quebrando as barreiras e Escada da resistência. Ela ganhou na categoria que premia projetos de marca capazes de gerar impacto na sociedade.
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