IPCA-15 surpreende, e apostas são de inflação de até 9,8% em 2021

IPCA-15 surpreende, e apostas são de inflação de até 9,8% em 2021

Publicado em 27 de outubro de 2021

Indicador tem maior alta para outubro desde 1995.

Mais instituições financeiras preveem que a inflação acumulada de 2021 ficará acima de 9% ou, segundo alguns analistas, perto de dois dígitos. A nova rodada de revisões foi desencadeada ontem após o Índice de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) de outubro ter frustrado as expectativas de leve acomodação. O índice subiu 1,2%, a maior taxa para outubro desde 1995, e agora avança 10,35% em 12 meses.

A alta mais forte da prévia da inflação foi ajudada pelos serviços, que aceleraram mais do que se previa, embora em boa parte devido à alta de passagens aéreas, de quase 35% no mês. O reajuste do item já está “contratado”, uma vez que parte da coleta do IPCA-15 é reaproveitada no IPCA, que é a inflação oficial do país.

“Itens como aluguel, passagem aérea, hospedagem e cabeleireiro apresentaram reajustes de preços bem maiores do que o esperado”, afirma Tatiana Nogueira, economista da XP Investimentos. A inflação de serviços subiu, em média, 1,03% em outubro, após alta de 0,73% em setembro, e chegou a 4,87% em 12 meses, de 1,43% há um ano.

“Nos últimos meses, estávamos vendo uma inflação muito concentrada em alimentos e bens industriais, enquanto os serviços subiam em ritmo bem controlado. De lá para cá, alimentos e bens industriais seguem sem mostrar sinal de descompressão, enquanto a parte de serviços subiu mais do que estava sendo previsto”, diz Daniel Silva, economista da Novus Capital.

Os preços dos bens industriais, embora tenham desacelerado de 1,1% para 0,98%, também vieram acima da expectativa, diz Tatiana. “[O IPCA-15] confirma a leitura desafiadora da inflação, pressionada tanto pelos repasses em curso dos elevados custos de produção quanto pelo efeito da aceleração dos preços dos serviços.”

As surpresas desfavoráveis, no entanto, foram amplas e incluem alimentação em casa (1,54%, de 1,51% em setembro) e fora do domicílio (0,97%, de 0,69%), vestuário (1,32%, de 0,54%), despesas pessoais (0,77%, de 0,48%) e habitação (1,87%, de 1,55%) – este último, puxado pela energia elétrica, que subiu 3,91% e foi o maior impacto individual no IPCA-15.

Essa combinação de aumentos mais intensos do que o previsto gerou alteração nas estimativas de ao menos 12 casas, que agora apontam o IPCA fechado do ano entre 9,1% e 9,8%, sendo oito estimativas de 9,5% ou mais. Para outubro, a maioria das estimativas indica que o IPCA deverá ficar ao redor de 1%, ainda próximo do patamar de setembro.

“São dois fatores, o IPCA-15 e o relatório Focus, do Banco Central (BC), que também mostrou alta um pouco mais forte das expectativas não apenas para 2022. Então, esse ambiente inflacionário e o risco de perda do controle das expectativas, além de toda a turbulência política e fiscal, vão demandar ação mais forte do BC”, diz Silva, da Novus Capital, que passou de 9,1% para 9,4% a projeção para o IPCA de 2021.

Hoje, o BC decide a nova taxa básica de juros, a Selic, atualmente em 6,25% ao ano. Com as informações mais recentes sobre a inflação e a incerteza sobre o teto de gastos, o mercado espera aceleração no ritmo de alta da Selic, para 1,5 ponto percentual.

A média dos cinco núcleos de inflação acompanhados pelo BC, medida para expurgar os itens mais voláteis, acelerou levemente no IPCA-15 entre setembro e outubro, de 0,80% para 0,82%. A expectativa, diz Silva, era de desaceleração para o nível de 0,6%.

Na ponta mais pessimista do mercado, está o Credit Suisse, que reajustou o IPCA fechado do ano de 9,1% para 9,8%, creditando o movimento também ao reajuste dos combustíveis anunciada nesta semana pela Petrobras. Pela mesma razão, a JF Trust reajustou o IPCA fechado do ano de 9,3% para 9,87%, estimando mais duas altas de 5% da gasolina.

Anteontem, a estatal anunciou a segunda alta nos preços dos combustíveis em apenas duas semanas, totalizando um aumento de 14,4% na gasolina no nível de produtor apenas neste mês.

“Observamos que, apesar do ritmo acelerado de reajuste da Petrobras, os preços da gasolina ao produtor doméstico ainda estão cerca de 15% abaixo da paridade internacional, sugerindo que outra rodada de aumentos ainda deve ocorrer nas próximas semanas”, diz Roberto Secemski, economista-chefe para o Brasil do Barclays, para quem a inflação terminará o ano em 9,5%, de 9,1% na estimativa anterior.

Os economistas entendem que a dinâmica inflacionária segue desfavorável em meio às incertezas sobre a política fiscal e ao risco de reajustes adicionais em itens com forte impacto na economia, como a já citada gasolina. Isso pode, inclusive, contaminar a inflação de 2022, que pode ser igual ou maior do que 5% para alguns analistas.

Fonte: Valor Econômico
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