Josué Gomes é destituído da presidência da Fiesp

Josué Gomes é destituído da presidência da Fiesp

Publicado em 17 de janeiro de 2023

Por 47 votos a favor, um contra e duas abstenções, conselho extraordinário decide pela saída do empresário.

Em uma assembleia lotada e marcada por muita tensão, os representantes de sindicatos da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) decidiram nessa segunda-feira (16) pela destituição do empresário Josué Gomes da Silva da presidência da entidade. A decisão ocorre pouco mais de um ano após ele ter sido eleito para o cargo em chapa única, apoiada pelo então presidente Paulo Skaf. Procurado, Josué não respondeu ao pedido de entrevista feito pela reportagem.

Por 47 votos a favor, 1 contra e 2 abstenções, o conselho extraordinário de representantes da Fiesp votou pela destituição de Josué. Conforme o estatuto da entidade, assumirá interinamente o vice-presidente mais velho, até que a diretoria se reúna em novo encontro para definir o dirigente. De acordo com os critérios estatutários, a presidência interina da Fiesp poderá ser ocupada pelo empresário do setor têxtil Elias Miguel Haddad, de 95 anos. A chapa que elegeu Josué contava com três vice-presidentes numerados, sendo Haddad o mais velho deles.

No entanto, a decisão da assembleia extraordinária deve ser judicializada por Josué. O advogado dele, Miguel Reale Júnior, afirmou a um interlocutor próximo que avaliou a decisão como ilegal e que recorrerá à Justiça para derrubá-la.

A reunião que teve como desfecho a destituição de Josué começou às 14h30, no 15 andar do prédio da Fiesp, localizado na Avenida Paulista, e terminou mais de cinco horas depois. O encontro foi marcado por discussões acaloradas entre representantes de sindicatos e Josué, que presidiu a mesa, segundo afirmaram fontes que estavam presentes e que foram ouvidas pelo Valor.

A plateia estava cheia, chegando a concentrar 86 votantes na primeira etapa, que terminou com o placar de 62 contra 24 decidindo que não concordavam com os argumentos apresentados por Josué. A partir daí o número de presentes diminuiu, porque apoiadores de Josué decidiram não permanecer na sala à medida que o quadro contrário ao empresário foi se confirmando. Josué deixou a reunião, às 19h04, sem encerrar a assembleia. Por isso, advogados dos dissidentes deram sinal verde para que a destituição fosse colocada em votação.

Uma fonte explicou à reportagem que, na visão do grupo, a destituição do empresário vai contra o estatuto da entidade e dá margem para que o tema seja judicializado. Nem mesmo a manifestação pública de apoio conferida a Josué pelo vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), recém-empossado no Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, foi capaz de afiançar a permanência do empresário na presidência da Fiesp. Após participar da primeira reunião da diretoria da entidade depois do recesso, Alckmin disse que o tema da destituição de Josué é um assunto interno da entidade, mas destacou seu “apreço ao empresário e grande liderança” do setor industrial.

Um diretor de sindicato que votou pela saída de Josué avaliou que a vinda de Alckmin à Fiesp no dia em que se decidiria sobre a destituição do empresário da presidência da Fiesp pode ter se convertido em um tiro pela culatra. De acordo com essa fonte, a Fiesp é independente e não deve se subordinar a governos, nem tampouco fazer oposição a eles.

Depois de se preparar para os questionamentos que já sabia que receberia, Josué deu explicações por cerca de uma hora e meia e leu suas considerações feitas por escrito. Ele abordou um a um os pontos enviados pelos sindicatos. Depois, o espaço foi aberto para as falas dos representantes dos sindicatos filiados. A decisão que ocorreu depois foi a de votar se a justificativa de Josué seria aceita. A votação, contudo, resultou em um placar contrário a Josué. Logo depois, os associados entraram com um pedido de nova votação, dessa vez para decidir sobre a destituição em si.

Ao longo da semana passada, sindicalistas próximos de Josué conversaram com parte dos associados rebelados e a visão tinham uma visão mais otimista sobre o desfecho da assembleia. Segundo o estatuto da entidade, a que o Valor teve acesso, a perda de mandato pode ocorrer em apenas cinco situações: malversação ou dilapidação do patrimônio social, grave violação do estatuto, abandono do cargo, aceitação de transferência (saída do Estado de São Paulo) ou conduta incompatível com a ética. Na votação os dissidentes entenderam que Josué violou o estatuto e manteve conduta incompatível.

A assembleia foi convocada por Josué por meio de um edital publicado em dezembro, após uma série de pedidos partindo de 86 dos 112 sindicatos filiados à entidade. No centro da pauta da reunião estava um pente fino sobre a gestão do empresário, que dedicaria pouco tempo às demandas dos sindicatos e seria centralizador, alegam os dissidentes. Um caso que se tornou público e que gerou descontentamento do grupo de oposição a Josué, entre outros pontos, foi a assinatura do manifesto em prol da democracia, no ano passado.

Fonte: Valor Econômico
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