Jovens e menos escolarizados lideram alta do salário em 2023

Jovens e menos escolarizados lideram alta do salário em 2023

Publicado em 11 de janeiro de 2024

Pretos e pardos receberam ainda menos do que brancos em 2023; produtividade e ganhos concentrados reduzem salários no agro.

 Contrariando o que poderia ser a intuição, jovens e pessoas com menor instrução foram os grupos proporcionalmente mais beneficiados pelo aumento dos rendimentos médios em 2023. Brancos, trabalhadores dos setores de serviços e comércio e empregados sem carteira assinada também concentraram ganhos. Em sentido contrário, os mais velhos, pessoas que estudaram até o ensino fundamental e que têm carteira assinada conseguiram surfar menos na onda de valorizzação dos salários – inclusive, alguns registraram perdas, como trabalhadores da agropecuária.

O rendimento médio mensal real efetivamente recebido no trabalho principal registrava avanço de 5,3% em setembro de 2023, último dado disponível da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Trimestral (Pnad Contínua Trimestral), do IBGE, ante igual período de 2022 e estava 3,1% acima do equivalente ao pré-pandemia (terceiro trimestre de 2019).

Com os números sobre fluxos de emprego desafiando a compreensão de economistas, o Banco Central chegou a sinalizar que a autoridade monetária estava mais de olho no comportamento dos salários.

“Os dados do mercado de trabalho são intrigantes. O rendimento médio subiu rapidamente depois da pandemia”, diz Hélio Zylberstajn, professor da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e coordenador do Projeto Salariômetro. Na última Pnad mensal, no trimestre até novembro de 2023, o rendimento médio efetivamente recebido se aproximava de R$ 3.000, enquanto no fim de 2021 rodava perto de R$ 2.700, nota o professor. “Em quase dois anos, cresceu mais de 10% em termos reais.”

Para jovens de 14 a 24 anos, no entanto, o avanço do salário no terceiro trimestre de 2023, ante 2022, rondava 6,5% e estava mais de 10% acima do pré-covid. Para quem tinha 60 anos ou mais, por outro lado, o rendimento médio crescia 2,3% e estava apenas 0,2% acima do patamar anterior à pandemia.

Com a emergência sanitária e um esforço, em 2022, do governo à época para zerar a fila da aposentadoria, em meio à corrida eleitoral, muitas pessoas acima de 60 anos, especialmente aquelas que estavam no mercado formal, saíram do mercado em direção à inatividade, contribuindo para um crescimento menor do salário médio do grupo, aponta Lucas Assis, economista da Tendências Consultoria.

No caso dos jovens, que costumam ter mais dificuldade de ingressar no mercado de trabalho, é possível que haja um “efeito composição”, diz Assis, com a saída do mercado daqueles que ganhavam menos aumentando a média salarial do grupo. A população ocupada com 14 a 17 anos caiu 15% no terceiro trimestre de 2023, ante 2022, enquanto os empregados com 18 a 24 anos reduziram 2%, pela mesma base de comparação.

Além disso, observa Assis, muitos desses jovens acabaram encontrando uma fonte de renda nas plataformas digitais de serviços de entregas, por exemplo. Uma pesquisa do IBGE mostrou que 21% dos trabalhadores por meio de aplicativos no setor de transporte para entregas de comidas e produtos tinham de 14 a 24 anos, enquanto na população ocupada em geral essa representação não chega a 15%. Isso também pode ajudar a explicar, segundo Assis, o ganho salarial do trabalhador por conta própria, que foi de 8,6% no terceiro trimestre de 2023, ante 2022, enquanto o do empregado tradicional foi de 4%.

Por grau de instrução, o crescimento salarial foi concentrado entre aqueles com menos de um ano de estudo (12,5%) e também foi mais expressivo na ponta contrária, entre quem tem ensino superior completo (4,7%). Entre os menos instruídos, no entanto, o rendimento médio está 22% acima do pré-covid, enquanto para os mais instruídos, estava 5,5% abaixo.

“Sabemos que algum grau de descompasso é inevitável no mercado de trabalho, mas, no Brasil, esse fenômeno de ter, de um lado, adultos qualificados enfrentando baixa demanda e, de outro, empresas que lutam para encontrar trabalhadores com as competências específicas, se intensificou depois de dois choques negativos, com a recessão de 2015-2016 e a da covid”, diz Assis.

Ele acrescenta ainda que, na pandemia, trabalhadores com menos anos de instrução também encontraram demanda e puderam se alocar em atividades de serviços como de transporte de passageiros ou entregas. “Ao mesmo tempo, há uma evolução cada vez mais rápida da inteligência artificial, do ‘big data’ e toda essa digitalização que pode afetar significativamente o emprego de quem tem maior qualificação”, afirma Assis.

“Rendimento médio subiu rapidamente depois da pandemia”

O avanço salarial de homens e mulheres foi semelhante à média nacional e entre si no terceiro trimestre de 2023: 5,3% para eles e 5,2% para elas, na comparação com igual período de 2022. O rendimento médio das mulheres, no entanto, estava 4% além do pré-pandemia, enquanto o dos homens estava 2,6% acima. Ainda assim, as mulheres seguem ganhando menos de 80% do que ganham os homens.

Por cor, pretos e pardos ganharam, proporcionalmente, ainda menos do que os brancos em 2023. No terceiro trimestre, o salário médio dos pretos e pardos estava 5,6% e 6,8%, respectivamente, acima do pré-pandemia, enquanto o dos brancos estava 1,3%. Mas os trabalhadores que se autodeclaram brancos observaram um aumento de 6% no seu rendimento, ante o terceiro trimestre de 2022, um pouco acima dos pardos (5,6%) e bem acima dos pretos (3,3%). Assim, o salário de trabalhadores pretos, que em 2022 equivalia a cerca de 59% dos ganhos dos brancos, representava 57,6% em 2023.

Por grupamento ocupacional no trabalho principal, os maiores ganhos salariais foram para diretores e gerentes (11,2% no trimestre até setembro de 2023, ante igual período de 2022), mas trabalhadores dos serviços, comércio e mercados também tinham um avanço de 7,5% no seu rendimento médio. No subsetor de alojamento e alimentação, que faz parte de serviços, o ganho salarial foi de 14%.

“Isso se dá pela recuperação tardia desse segmento. Setores que dependem muito de interação social foram os últimos a se recuperar dos efeitos da pandemia. Isso acaba contribuindo para os salários envolvidos nessas atividades. O estoque de empregos formais em turismo, por exemplo, ainda nem recuperou o patamar pré-covid”, diz Assis.

Ainda assim, o salário de um empregado do grupamento de serviços, comércio e mercados equivalia a cerca de um quarto daquele de diretores e gerentes.

Com o setor de serviços marcado pela informalidade, não é de se estranhar também que, por posição na ocupação, o maior ganho salarial tenha sido entre trabalhadores do setor privado sem carteira assinada: 8,4%, ante 2,7% para trabalhadores registrados, sempre na comparação entre terceiros trimestres de 2023 e de 2022.

No setor de agricultura e pecuária, o rendimento médio efetivo caiu 5,2% no terceiro trimestre de 2023, ante 2022, enquanto por grupamento ocupacional, trabalhadores qualificados desse setor ganharam 9,6% menos.

“Por mais que o agro tenha puxado a economia, é um setor muito mecanizado, são poucas pessoas e os ganhos não são tão distribuídos”, diz Bruno Imaizumi, economista da LCA Consultores, observando também que o grupo inclui a agricultura familiar, menos rentável.

Assis, da Tendências, aponta ainda que a supersafra do início de 2023 pode ter levado à maior contratação de temporários, que tendem a ter salários mais baixos, o que contribuiria para reduzir a média dos rendimentos no setor.

Olhando à frente, a evolução dos rendimentos em geral até pode continuar positiva, mas de forma mais lenta, diz Imaizumi.

O Boletim Salariômetro, da Fundação Instituto de Pesquisas Econõmicas (Fipe), mostra que, com a queda da inflação entre 2022 e 2023, mais negociações salariais conseguiram reajustes acima da inflação. Em 2023, 78,5% dos reajustes foram acima do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC); em 2022, foram apenas 27,4%.

O INPC deve continuar desacelerando nos próximos meses, ficando abaixo de 3% até meados de 2023, de acordo com o boletim. Mas a proporção de reajustes acima do INPC em novembro de 2023, de 67,6%, já foi a menor desde abril, segundo o relatório.

“Não devemos observar mudanças expressivas desses rendimentos médios, deve ser uma evolução mais comedida, até porque a expectativa de crescimento para a economia é bem menor”, afirma Imaizumi. “O que pode ajudar é a nova política de reajuste do salário mínimo”, pondera.

Com menor pressão inflacionária e expansão consistente do trabalho, o rendimento médio deve apresentar alta de 5% em 2023, após dois anos de queda, projeta a Tendências. Para 2024, a expectativa é de um crescimento de 1,5%. “Seria uma forte desaceleração, mas, na média do ano, ainda deve apresentar variação positiva”, diz Assis.

Fonte: Valor Econômico
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