28 set Maior inclusão de mulheres no mercado elevaria crescimento
Maior inclusão de mulheres no mercado elevaria crescimento
Estudo mostra que baixa presença feminina na força de trabalho afeta o desempenho da economia.
A menor presença feminina no mercado laboral, em comparação à masculina, faz com que a força de trabalho no país esteja aquém do potencial. Segundo o FGV Ibre, se as mulheres em idade para trabalhar estivessem incluídas no mercado, haveria a tendência de ganho de produtividade e maior crescimento do PIB.
Estudo da economista Janaína Feijó mostra que a disparidade de gênero ocorre na taxa de participação – a parcela da população em idade de trabalhar que está empregada ou em busca de emprego – e no rendimento. Mas também impacta ocupações com melhor remuneração. A taxa de participação das mulheres foi de 51% no 2º trimestre de 2012 para 53,2% no 2º trimestre de 2022, enquanto a dos homens passou de 74,2% para 72,6%. Na pandemia, porém, as mulheres foram mais atingidas. “Com a retomada da economia, a trajetória dos homens voltou para sua tendência; a das mulheres, não”, diz Janaína.
Filhos também afetam projeção profissional
Participação feminina no mercado de trabalho cai para 22% no primeiro ano após a maternidade, mostra levantamento.
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As diferenças entre homens e mulheres no mercado de trabalho são marcadas por normas sociais e culturais a respeito de papéis que homens e mulheres devem desempenhar, afirma Janaína Feijó, economista do FGV Ibre. Elas se somam a eventos como a maternidade, que afetam a inserção, a permanência e a promoção das mulheres no mercado laboral.
Dados do levantamento “Diferenças de Gênero no Mercado de Trabalho”, feito por Feijó com base nos microdados da Pnad Contínua do último trimestre de 2021, mostram que, dentre casais que não têm filhos, a taxa de participação das mulheres no mercado laboral é de 48%, e a dos homens, de 70%.
No momento em que esse casal tem um filho, a taxa de participação da mulher cai ainda mais para 22% no primeiro ano de vida da criança, quando a dos homens sobe para 71%. “Isso é entendido, porque se trata do primeiro ano da criança, quando ela precisa de mais cuidados. Mas o que se observa é que, mesmo com a criança crescendo, a taxa de participação não vai voltando ao que era antes de ela ter filho. A participação do homem, por sua vez, praticamente não se altera”, diz a economista. A maternidade pode ter efeito prolongado para a mulher, afirma.
Segundo Feijó, mesmo após o 6º ou 7º ano da vida da criança, a taxa de participação das mulheres no mercado de trabalho segue baixa. Somente quando a criança completa 8 anos e precisa de menos cuidados, a participação começa a retornar ao patamar de 43%, 44%.
“E quanto mais tempo a mulher passa fora do mercado trabalho, maior a depreciação do capital humano e as barreiras para voltar para o mercado são acentuadas”, diz Feijó, ao acrescentar que muitas optam por não retornar ao trabalho.
Ela afirma ainda o que chama de “efeito maternidade” sobre salários, que pode ocorrer antes mesmo de a mulher sair de licença para ter filho. “Os empresários podem internalizar custos que terão com a maternidade de mulheres [que empregam] em algum momento e optam por não ofertar posições de maior maiores salários ou que são estratégicas dentro da empresa. E isso tende a repercutir na questão salarial”, afirma.
A economista argumenta que a questão da maternidade está inserida em um conjunto de normais sociais e culturais sobre papéis de gênero e responsabilidade dentro da família que acabam recaindo mais nas mulheres. “Isso torna difícil conciliar trabalho remunerado e não remunerado”, observa. Além da “penalidade” que o mercado muitas vezes impõe às mulheres pela maternidade, a presença de crianças e idosos no domicílio pode acabar sobrecarregando-as ainda mais, acrescenta.
Para que esse quadro seja revertido e a inserção das mulheres no mercado seja fomentada, especialistas apontam serem necessárias iniciativas na esfera de políticas públicas e no âmbito empresarial.
Uma delas seria provisão de maior número de creches, fundamental para aumentar a taxa de participação das mulheres no mercado de trabalho, diz Silvia Matos, economista do FGV Ibre.
“Nós, como economistas, vemos a necessidade de maior acesso a creches. Percebe-se que, para as famílias mais pobres, o custo de não ter uma creche é ter de pagar uma pessoa [para cuidar da criança]. Isso torna o custo tão alto que, muitas vezes, não vale a pena [para a mulher] participar [do mercado de trabalho]”, diz. “Isso tem efeitos na taxa de participação por diferentes estratos de renda.”
Ligia Fabris, professora da FGV Direito Rio, observa que uma mudança importante seria no estabelecimento da licença parental, de modo que pai e mãe pudessem dividi-la e administrá-la com maior equidade.
“Como podemos mudar a cultura e desenhar incentivos legislativos [nessa direção]? Há muitas pesquisas que mostram os homens encarando a licença como um período livre, no qual vão contratar alguém para cuidar da criança e poderão fazer o que quiserem, enquanto a mãe não”, diz.
“Na Noruega e na Alemanha tem-se instituído um tempo mínimo para homens tirarem licença parental. Como antes as mulheres tiravam todo o período, e os homens, nenhum, instituiu-se um ou dois meses obrigatórios para homens. Em alguns lugares, se o homem e a mulher tiram de maneira equitativa, ganham dois meses adicionais. O objetivo é distribuir a função de cuidado igualmente.”
Ela argumenta que as empresas têm papel protagonista na redução da desigualdade de gênero, tanto na busca por salários e cargos equitativos quanto ao não “punir” as mulheres pela licença-maternidade. “A licença-maternidade não necessariamente protege as mulheres pois muitas são demitidas após o cumprimento dela. Então, não demitir a mulher que saiu de licença-maternidade é algo que as empresas podem fazer”, afirma.
Janaína diz que a flexibilidade no emprego também é importante para manter mulheres no mercado. “Quando se tem uma criança em casa, é preciso uma jornada mais flexível. O trabalho híbrido pode ajudar a mulher a conciliar o trabalho não remunerado com o remunerado”, afirma.
“A empresa precisa olhar para produtividade, e não necessariamente requerer que a mulher esteja ali nas oito horas de jornada. Olhar o resultado seria uma forma de incentivar as mulheres a permanecerem no trabalho sendo produtiva. Pode ser, por exemplo, que de manhã ela não consiga fazer o trabalho, mas, como a criança dorme cedo, ela conseguirá fazer à noite. Então, não necessariamente, precisa ter essa jornada tão rígida.”
A economista observa, contudo, que é preciso cuidado quando se fala em flexibilizar, pois pessoas que não têm empregos formais ou não estão sob o guarda-chuva de uma empresa podem acabar sendo prejudicadas.
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