13 fev Mais do que contratar: novas metodologias ajudam na inclusão efetiva de grupos minorizados
Mais do que contratar: novas metodologias ajudam na inclusão efetiva de grupos minorizados
Ferramentas auxiliam na contratação de PCDs e fornecem apoio para o crescimento desses profissionais nas empresas.
A diversidade entrou na agenda corporativa, mas ainda há muito a ser feito para que a inclusão – de gênero, etnia, orientação sexual, condições socioeconômicas e de pessoa com deficiência – seja de fato efetiva. Estudo feito pela consultoria Mckinsey, com mais de cinco mil pessoas, mostra que apesar de 65% dos participantes esperarem que as companhias se envolvam com o tema, só 20% dizem que essa questão é pauta em suas empresas. As promoções também acontecem em menor escala nesses grupos. As pessoas entram normalmente em cargos operacionais (55%), mas ocupam apenas 8% dos cargos no nível executivo. Algumas startups têm atuado para transformar esse cenário. É o caso da Avulta, que criou uma ferramenta científica para contratação de PCDs. A empresa desenvolveu, em parceria com a Cia de Talentos, a ANA – Avaliação Neuropsicológica Avulta, metodologia gamificada baseada em neurociência que mapeia a funcionalidade de até 10 habilidades cognitivas. O intuito é identificar o quão hábil a pessoa está para executar tarefas que envolvem competências como percepção, raciocínio e foco.
“Muitas vezes, as pessoas ocupam vagas que não aproveitam suas capacidades e experiência, pois são mal avaliadas”, diz Emmanuelle Fernandes, fundadora e CEO da Avulta. Ela explica que o objetivo é alocá-las em uma posição que utilize melhor suas competências. A ANA está disponível em duas versões. A primeira avalia as habilidades atuando em conjunto e, desde setembro de 2022, já foi aplicada em 30 mil pessoas que participaram de processos seletivos em empresas como a Vale.
“Por ser uma ferramenta que considerou questões de acessibilidade e suas diferentes necessidades durante a construção, contribui muito para que a seleção seja mais inclusiva”, afirma Danilca Galdini, sócia-diretora da Cia de Talentos. Isso porque as pessoas podem participar de todas as etapas, aumentando a chance de uma contratação plural e inclusiva. Há também uma ferramenta cuja função é avaliar as habilidades cognitivas de forma isolada, que começará a ser utilizada este mês para 30 vagas na Coca-Cola Femsa, e uma plataforma de autogestão de processos inclusivos.
Outra startup que atua nesse segmento é a Semearhis, que se autodenomina o Tinder da empregabilidade das pessoas com deficiência. A ideia da empresa é fazer o “match” entre o candidato e as necessidades do negócio. “Para que a escolha não tenha nenhum viés e leve em consideração apenas as competências do candidato até o segundo ‘match’, a empresa não sabe qual a deficiência do profissional”, explica Letícia Francisco, CEO da Semearhis.
Segundo ela, isso foi pensado para que o primeiro olhar seja voltado ao mais importante: o quanto aquele profissional se encaixa no que a companhia busca. “A deficiência deve estar em terceiro plano”, diz. Ela lembra de um caso em que a companhia gostou de um profissional e só na terceira etapa soube que se tratava de um profissional com deficiência auditiva e se preocupou. “Aquilo poderia ter barrado a contratação logo de cara, por exemplo. Mas como o ‘fit cultural’ veio antes, deu certo”. Porém, para a especialista ainda há muito a ser feito. “A maioria passa anos sem projeção de carreira e o pedido costuma ser ‘quero um cadeirante que ande, um cego que enxerge e um surdo que escute’”.
Na visão de Ana Minuto, fundadora da Minuto Consultoria Empresarial & Carreira, de nada adianta iniciar um programa de inclusão se o foco é sempre nos cargos de entrada. “Essas iniciativas são importantes, mas os profissionais precisam se desenvolver para alcançar cargos de liderança”, diz citando um dado do Instituto Ethos que mostra que pessoas negras são 57,5% dos aprendizes nas empresas, mas só 6,3% chegam a cargos de gerência. Parte essencial da inclusão, explica, é investir em programas de mentoria e coaching para pessoas negras e de outros grupos sub-representados. Minuto recomenda, para iniciar uma ação de inclusão, o mapeamento da composição da força de trabalho “O que eu não enxergo, não resolvo”, diz.
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