03 jan Mais jovens chineses rejeitam o trabalho exaustivo e priorizam a espiritualidade
Mais jovens chineses rejeitam o trabalho exaustivo e priorizam a espiritualidade
Em um novo desafio para Pequim, cada vez mais jovens chineses deixam seus empregos em busca da espiritualidade e uma vida diferente da dos seus pais.
O Partido Comunista da China quer que os jovens do país sejam ambiciosos, trabalhem duro e estejam preparados para as adversidades. Só que Li Jiajia quer apenas ganhar na loteria. Desanimados com a perda de força da economia, empregos pouco gratificantes e um Estado paternalista, jovens chineses, como Li, querem encontrar formas de escapar da vida cuidadosamente planejada que seus pais desejam para eles, o que os acaba colocando em conflito com as prioridades do país.
Depois de mudar-se de sua cidade natal no Sudeste da China para Pequim em abril, a jovem de 24 anos achou seu novo emprego como criadora de conteúdo em uma startup de tecnologia pouco inspirador. Ela diz não ter o desejo de subir na hierarquia empresarial, uma vez que o número de empregos bem remunerados na área de tecnologia vem encolhendo.
A onipresença do Estado na vida diária é limitadora, diz Li. Embora sonhasse em ser jornalista no ensino médio, desistiu ao perceber o quanto o governo censura a mídia. Ela sabe que dificilmente vai ganhar na loteria, mas quando joga, pelo menos pode sonhar com uma vida melhor – mais provavelmente no exterior.
“Quero sair daqui e viver a vida que eu quero”, diz Li. “Não vai acontecer da noite para o dia, mas por enquanto a emoção de raspar bilhetes de loteria me dá uma pequena animada.”
Desde a repressão do governo chinês aos estudantes descontentes na Praça da Paz Celestial em 1989, a maioria dos jovens, cujo início da idade adulta chegou em meio a uma era de forte crescimento econômico e de aumento da riqueza, fez o que se esperava deles – e foi recompensada por isso.
Estudaram com afinco para entrar em universidades prestigiadas, trabalharam horas exaustivas em empresas de rápido crescimento e seguiram as expectativas tradicionais de carreira e família, aproveitando a onda de sucesso material da China.
Muitos ainda percorrem esse caminho. Mas há um número cada vez maior da população urbana de classe média na faixa de 20 e 30 anos na China que começa a questionar essa trajetória, ou até a rejeitá-la completamente, diante das menores perspectivas de ascensão.
O período de mais de dois anos de rígidos controles do Estado contra a covid-19 deixou algumas pessoas se perguntando sobre o papel do Partido Comunista e de outras autoridade em suas vidas, ou mesmo sobre o significado da vida e quem aspiram a ser – perguntas que até então muitos nunca haviam contemplado.
O desemprego recorde entre os jovens, que em 2023 ultrapassou os 21%, abalou ainda mais a confiança em seguir os caminhos tradicionais para o sucesso na China. Alguns, como Li, também estão frustrados com outros problemas, como a violência contra as mulheres na China ou os esforços do governo para impedir o acesso das pessoas a aplicativos estrangeiros como Twitter ou Instagram.
Muitos abandonam seus empregos e recorrem à meditação e a outras formas de espiritualidade. Alguns se mudam para longe das megacidades da China, para começar uma nova vida em lugares como Dali, uma cidade do Sudoeste famosa na China como um centro para nômades digitais e pessoas que deixaram os estudos.
Outros lotam barracas de videntes e templos budistas em áreas montanhosas, ou se voltam a filósofos e escritores chineses e ocidentais, de Laozi a Hermann Hesse. Alguns promovem “festas de desistência”, com faixas celebrando a redescoberta da liberdade.
“Ficar deitado é o oposto de ser passivo – é um caminho para assumir o controle da própria vida.”
“Esta geração teve muitos recursos investidos nela”, diz Sara Friedman, professora de antropologia e estudos de gênero na Universidade de Indiana, que estuda a sociedade chinesa. “Eles trabalharam muito duro. Foram realmente muito pressionados. E para então dizer ‘Estou saindo dessa corrida insana, estou optando por não participar’, é uma decisão bastante radical a ser tomada.”
As discussões nas redes de relacionamento social on-line sobre temas como visitas a templos e ansiedade – uma grande preocupação para muitos jovens chineses – dispararam em 2023, segundo a firma de análises BigOne Lab.
Cerca de 34% dos entrevistados na faixa dos 20 anos estavam deixando ou considerando deixar empregos em empresas de internet voltadas ao consumidor na China – setor que é grande empregador de jovens – no primeiro semestre de 2023, de acordo com a Maimai, uma plataforma social e de busca de empregos da China.
Jogar na loteria tornou-se especialmente popular entre pessoas na faixa de 20 e 30 anos, o que ajudou a impulsionar as vendas de apostas para US$ 67 bilhões de janeiro a outubro, um aumento de 53% em comparação ao mesmo período de 2022 e uma média de US$ 48 por pessoa na China.
Frases de efeito que descrevem esse clima têm se incorporado ao discurso cotidiano. Primeiro, em 2020, surgiu o termo sociológico esotérico “neijuan” (involução, em chinês), que se refere a situações em que as pessoas trabalham duro e competem sem que ninguém consiga progredir.
Depois, veio o termo “pescar peixe”. A frase, emprestada de um provérbio chinês, refere-se a levar a cabo pequenas rebeliões no trabalho, como fazer longas pausas no banheiro, compras on-line ou ler romances no escritório.
Em seguida, foi a vez do termo “ficar deitado”, uma forma comum de resistência que envolve procrastinar as tarefas no emprego ou sair completamente da força de trabalho. Em 2022, veio a disseminação do termo “deixar apodrecer”, para descrever jovens que desistem completamente de tudo.
Uma pesquisa feita pela firma de análises Tsingyan Group em 2022 constatou que cerca de 96% dos quase 6.000 consultados na China conheciam em suas vizinhanças alguém que era, em algum grau, da turma do “fique deitado”. O conceito exercia maior atração para pessoas entre 26 e 40 anos, segundo a pesquisa.
“É uma forma de resistência bem passiva”, disse Silvia Lindtner, etnógrafa da Universidade de Michigan. “É de fato um momento muito difícil, mas também poderia ser um momento esperançoso, no qual, em certos aspectos, há pressão sobre a liderança.”
De certa forma, a apatia é parecida ao fenômeno da “renúncia silenciosa” nos EUA da pós-pandemia – ou, voltando ainda mais atrás no tempo, à rejeição das normas sociais pelos jovens do mundo ocidental nos anos 60.
Naquela época, uma sequência de 20 anos de rápido crescimento econômico e riqueza generalizada deu aos jovens de então mais opções do que as de gerações anteriores. Muitos responderam contestando o estilo de vida dos pais.
Na China, onde protestos abertos raramente são possíveis, os jovens agora vêm se rebelando de outras maneiras.
“‘Ficar deitado’ é uma forma de resistência latente à chantagem moral da sociedade”, disse Amy Yan, moradora de Shenzhen de 27 anos que já trabalhou na área de compras da empresa de exportação da família. Quando o negócio quebrou em 2022, após os pais terem perdido os ativos em um golpe financeiro, isso reforçou a convicção dela de que deveria dar prioridade à sua espiritualidade.
Mesmo antes da quebra, ela havia decidido que aceitar a rotina do mundo empresarial e atender às expectativas tradicionais de casamento e filhos interferiria em seu desejo de explorar a espiritualidade.
Após a crise familiar, ela investiu suas economias de US$ 27 mil para apoiar um pequeno “ashram” taoísta que ela criou com alguns colegas praticantes.
Há tempos, os líderes do PC chinês temem que os jovens possam ser fonte de agitação, como fizeram em 1989. O partido precisa que os jovens se alinhem com as prioridades de Pequim, não apenas para manter a economia bem engrenada e evitar instabilidades, mas para ajudar a tornar o país mais forte em uma era marcada pela competição das grandes potências: China e EUA.
Em 2022, em um discurso no Congresso do Partido Comunista bastante citado na imprensa chinesa, o líder Xi Jinping apresentou o que espera dos jovens. Conclamou-os a ter “ideais, coragem, disposição para suportar dificuldades e dedicação para se esforçar”, para ajudar a “construir um país socialista modernizado”.
Em um artigo de 2021 publicado na principal revista do partido, a “Qiushi”, Xi fez alertas específicos contra o “ficar deitado”. No mundo on-line, discussões sobre o fenômeno frequentemente são alvo de censura.
Se todos os jovens que abandonaram a força de trabalho na China e que dependem financeiramente dos pais fossem contabilizados, a taxa real de desemprego entre os jovens na China poderia ser de até 46,5%, de acordo com cálculos de um professor da Universidade de Pequim no início deste ano.
A Liga da Juventude Comunista da China – com mais de 70 milhões de membros – publicou um comentário em sua conta oficial no WeChat criticando universitários por serem orgulhosos demais. Os que procuram emprego “não deveriam se recusar a entrar no mercado de trabalho em razão da dificuldade de encontrar uma vaga nem escolher ‘ficar deitado’ por medo de ‘involução’”, dizia o artigo.
Até recentemente, o progresso econômico da China parecia inabalável. Em 2022, a renda per capita subiu para cerca de US$ 13 mil, em comparação aos menos de US$ 1.000, em 2000, de acordo com o Banco Mundial.
O crescimento econômico, contudo, tem se desacelerado. Muitos economistas temem que a China possa ficar presa na “armadilha de renda média”, em que o progresso de um país avança até certo ponto, sem conseguir chegar à riqueza. A renda per capita nos EUA foi de cerca de US$ 76 mil em 2022.
Pesquisas acadêmicas mostram uma estagnação na mobilidade social de muitos grupos na China, sinal de que se tornou mais difícil para pessoas sem conexões conseguirem progredir.
Muitos empregadores para os quais os jovens se voltavam, como Alibaba, Tencent e ByteDance, têm demitido funcionários em meio ao crescimento menor e às restrições do governo ao setor privado. Os salários na área de tecnologia diminuíram nos últimos três anos, segundo a Maimai, e as oportunidades de ganhar grandes boladas em ofertas públicas iniciais de ações desapareceram, deixando muitos que costumavam trabalhar em horários “996” – das 9h às 21h, seis dias por semana – se perguntando qual era o sentido de tanto esforço.
Também é verdade que hoje, mais do que em eras anteriores, muitos jovens de classe média – especialmente aqueles sem filhos e créditos imobiliários a honrar – podem se dar ao luxo de sair da “corrida insana”.
Alguns planejam deixar do país: a emigração da China em termos líquidos, que caiu para 125 mil pessoas em 2012, quando a economia do país estava em alta, saltou para mais de 310 mil nos primeiros 11 meses de 2023, de acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU). Outros querem ficar – mas em seus próprios termos.
Huang Xialu deixou seu emprego – altamente estressante – como gerente de produto em uma das maiores empresas de streaming de vídeo da China em abril para poder se dedicar mais a retiros espirituais. Antes de sair, a mulher de 33 anos disse que ficou se digladiando por muitos anos com a sensação de falta de propósito.
“Eu tinha uma sensação muito premente de que, se não ouvisse minha intuição e desse uma pausa para explorar o que realmente queria fazer neste mundo, seria tarde demais”, disse.
Nos meses seguintes depois de ter se demitido, Huang viajou para Dali, onde trabalhou em uma banca de leitura de tarô, fez um curso de treinamento em “coaching” de vida e aprendeu a fazer cerâmica.
De acordo com Huang, “ficar deitado” é o oposto de ser passivo – é um caminho para assumir o controle da própria vida ao atravessar um terreno incerto, disse.
Agora, ela se tornou uma coach de vida, com certificação, e ajuda pessoas que se sentem tão confusas quanto ela a encontrar um caminho à frente. Sua renda passou a ser menos estável. Mas “não me arrependi nem por um segundo de ter desistido”, disse. (Tradução de Sabino Ahumada)
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