09 fev Massa de rendimentos sofre com vaga informal e inflação
Massa de rendimentos sofre com vaga informal e inflação
Indicador registra taxas negativas nos últimos três resultados.
A massa de rendimentos real no país – que soma as remunerações de todos os trabalhos – registra taxas negativas nos últimos três resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, frente ao trimestre imediatamente anterior.
O atual patamar – de R$ 227,032 bilhões, do trimestre encerrado em novembro – é inferior ao do período mais intenso do início da pandemia, dos trimestres concluídos em junho, julho e agosto (inteiramente afetados pelas restrições nas atividades pela situação sanitária).
Parte desse movimento é reflexo de uma reação do mercado de trabalho nos últimos meses pautada por vagas de menor rendimento, especialmente nos postos informais, mas também nos informais. Há mais trabalhadores, mas ganhando menos. Por isso, a soma dos rendimentos sem crescimento. Mas a inflação também influencia, além do desemprego ainda elevado que dificulta as negociações salariais, apontam especialistas.
As projeções para 2022 são de expansão dessa massa de rendimentos dos trabalhos, mas sem magnitude para compensar as perdas de anos recentes. A Tendências Consultoria estima aumento de 2,5% este ano, após perdas de 3,7% em 2020 e de 2,4% em 2021 (também estimativa). Já a LCA Consultores espera taxa de 0,7% em 2021 e 4,3% em 2022.
“A massa de rendimentos está andando de lado porque tem avanço da ocupação com queda do rendimento médio, o chamado efeito composição”, diz o economista da Tendências Consultoria Lucas Assis. “Mas também há impacto da inflação alta. Combinada à ainda elevada taxa de desocupação, tem restringido o poder de barganha dos trabalhadores nas negociações salariais e fez com que muitos deles tenham reajustes negativos.” Assis não vê perspectiva de melhora nos próximos meses.

No trimestre encerrado em novembro, a massa real de rendimentos de todos os trabalhos caiu 1%, frente ao trimestre anterior, após quedas de 0,1% em setembro e 1,1% em outubro. Pela classificação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são variações que dentro da margem de erro estatístico e por isso classificadas como estabilidade. O que os números apontam é que não há força para que a massa de rendimentos avance, afirma Bruno Imaizumi, da LCA Consultores.
“Essa estagnação ou queda da massa de rendimentos mostram uma volta da população ocupada que não vem atrelada com aumento de renda. Não tem força para essa massa crescer”, diz ele.
Com um olhar mais otimista, o professor da PUC-Rio e economista-chefe da Genial Investimentos, José Márcio Camargo, acredita que, se confirmado um cenário sem novas medidas de restrição social e de desaceleração da inflação, haverá continuidade da geração de postos de trabalho, com alguma reação de salários reais no segundo semestre, o que ajudaria a massa de rendimentos.
“Se a pandemia ceder, a geração de vagas deve continuar positiva e o desemprego em queda. Se a inflação realmente cair como o mercado espera, os salários reais devem começar a subir no segundo trimestre de 22022 e, com eles, a massa salarial. (…) Ela tende a ser beneficiada pela inflação, diferente do que ocorreu em 2021”, diz.
O economista ressalta a importância de uma reação “significativa” do mercado de trabalho e a redução da taxa de desemprego de 14,9% no primeiro trimestre de 2021 para 11,6% no trimestre encerrado em novembro, apesar de reconhecer a redução do rendimento médio e seu efeito na massa de rendimentos.
“A reação do mercado de trabalho tem sido bastante positiva, com quase 10 milhões de vagas em 2021, mas com postos de baixa remuneração. Os setores mais prejudicados na pandemia são os de menor produtividade e que agora estão retomando, como os serviços prestados às famílias”, diz ele, que relativiza a situação atual. Para ele, é melhor “um mercado que gera ocupação apesar da queda do rendimento médio do que um mercado que não permite o recuo do rendimento real, mas também não gera ocupação suficiente para reduzir a taxa de desemprego”.
Uma das principais preocupações em relação à evolução da massa salarial é seu impacto na demanda e no crescimento da economia. Sem expansão dessa massa, ressalta Assis, o poder de compra das famílias fica limitado.
“Há um ciclo. Se a massa de rendimentos não cresce, as famílias consomem menos, o que afeta o Produto Interno Bruto (PIB). Ao mesmo tempo, esperamos 0,3% para o PIB em 2022, ou seja, uma economia estagnada, o que também não ajuda o mercado de trabalho”, diz o economista da LCA.
Outro impacto é sobre o endividamento. Bruno Imaizumi aponta que as famílias tanto têm dificuldade para honrar com o pagamento de suas dívidas, como acabam tendo que se comprometer com novos empréstimos. “Temos registrado mês a mês recordes no endividamento das famílias. A maior parte da renda vai para pagar alimentação e contas”, afirma.
Camargo não acredita que a estagnação da massa de rendimentos esteja provocando queda da demanda agregada. Na sua avaliação, o fato de que há novos postos de trabalho sendo criados é um sinal de aumento de demanda.
“Quando a massa de rendimentos cai, há queda na demanda agregada, o que tende a gerar menos crescimento. E aí se tem o efeito cumulativo, com menor geração de postos de trabalho. Por enquanto, há um processo de estabilidade da massa de rendimentos, de alguma forma compensada pelo crédito. Não me parece ter efeito sobre a demanda, o fato de estar gerando vagas é sinal de que a demanda está aumentando”, justifica o economista-chefe da Genial Investimentos.
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