Melhora do emprego não deve durar

Melhora do emprego não deve durar

Publicado em 29 de janeiro de 2021

Cenário mais otimista visto no fim de 2020 fica mais longe com pandemia e sem auxílio emergencial.

A taxa de desemprego ficou em 14,1% no trimestre encerrado em novembro, com um salto de 4,8% no número de pessoas que encontraram uma ocupação, na comparação com o período terminado em agosto, o maior aumento da série da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua, iniciada em 2012. Os dados divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostraram que 95% das pessoas que entraram no mercado encontraram trabalho no período.

Do aumento de 3,912 milhões de vagas criadas no trimestre, 2,445 milhões (66%) foram no setor informal. Houve alguma reação do setor formal, com 895 mil posições a mais. Também divulgados ontem, dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostraram que o país fechou 2020 com saldo positivo de 142,7 mil empregos com carteira, ante 644,1 mil em 2019. As expectativas no início da pandemia eram de saldo muito negativo.

A despeito da forte criação de vagas, a Pnad, que engloba mercado formal e informal, apontou que o número de desempregados (14 milhões) continuou um dos mais altos da série e o contingente de ocupados (85,6 milhões) ainda é 8,8 milhões menor que em igual período de 2019. Para o economista Tiago Cabral, do Instituto iDados, o recrudescimento da covid-19 pode frear a melhora vista até agora. Sendo uma média móvel trimestral, o resultado de novembro ainda está diluído pelo efeito dos meses anteriores, quando se observava queda nos casos e incremento da atividade, diz.

O fim do auxílio emergencial deve provocar um retorno maciço de pessoas à força de trabalho, pressionando a taxa de desemprego. Também no mercado medido pelo Caged, a perspectiva é de um primeiro trimestre de 2021 pior do que o observado nos meses anteriores de 2020, sobretudo pela piora da pandemia, afirma Daniel Duque, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV).

Apesar de dúvidas sobre a nova metodologia e eventual subnotificação, o Caged tem apontado para uma recuperação mais vigorosa do emprego com carteira do que a Pnad. Apenas o setor de serviços encerrou 2020 com saldo negativo (132,6 mil vagas). Em dezembro, o Brasil fechou 67,9 mil postos – o mês costuma ser de demissões, mas esse foi o resultado menos pior desde 1995.

“A grande notícia é que num ano terrível, em que o PIB caiu 4,5%, criamos 142 mil empregos”, disse ontem o ministro Paulo Guedes (Economia). O mercado formal foi sustentado pelo Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda (BEm), que permitiu suspensão de contratos e redução de salário/jornada. “Mesmo nossas previsões iniciais falavam de possibilidade de demissão de mais de 10 milhões de pessoas”, disse o secretário de Trabalho, Bruno Dalcolmo. Foram 20,1 milhões de acordos pelo BEm, com custo efetivo de R$ 33,4 bilhões, segundo o Ministério da Economia.

O governo analisa a recriação do programa, disse o secretário especial de Previdência e Trabalho, Bruno Bianco. Para Cosmo Donato, da LCA, o BEm teve papel “muito importante”, mas seu efeito já foi. “Caminhamos para um ano com perspectiva de recuperação econômica, ainda que a piora da pandemia acenda um alerta. Talvez não faça mais tanto sentido até para as empresas.”

Fonte: Valor Econômico
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